21 janeiro 2026

Para ler um outro mundo

 PROCURAR A TRAJETÓRIA DAS PALAVRAS É ESTABELECER RELAÇÕES DE SENTIDO ESTIMULANTES COM TUDO O QUE SE LÊ


Ler bem é ouvir o que as palavras nos dizem. E, para ouvi-las melhor, um dos recursos é a etimologia.

O que dizem as palavras quando as despimos, quando perscrutamos seu passado, suas reentrâncias, seu parentesco? Não dizem tudo, é verdade. Sempre falta à palavra outra palavra que a complemente e que a explique. Nathalie Sarraute, no livro O Uso das Palavras, imagina as palavras produzindo inúmeras ondulações. Captar essas ondulações, ler as entrelinhas, e as entreletras, é instrutivo, divertido e trabalhoso. Captá-las com outras palavras é o exercício de quem quer ler para valer. Tal esforço se renova infinitamente.

Como defendia Mário de Andrade, quem lida com palavras lida com elementos de consciência. Nas palavras, tomamos ciência e consciência do que somos, do que pensamos, do que pensam os outros, do que os outros são. Na leitura que ouve com atenção, as palavras iluminam nossa consciência. Mas pouco dizem os dicionários sobre o que as palavras dizem! Por isso os exercícios etimológicos atraem a atenção dos que esperam, em sua convivência com a linguagem, algo mais do que definições convencionais.

Palavras as mais desbotadas podem recuperar seu brilho e contundência. A palavra "importante", por exemplo. Uma palavra tão corriqueira é muito mais sugestiva do que pensamos. "Importante" ganha grande importância e nos aguça a consciência quando a ela associamos a ideia de "importação". Importare, no latim, é trazer de fora para dentro, trazer para si o que interessa é "comprar" o que consideramos

O escritor, o professor, o comunicador exportam. E, se exportam o importante, as pessoas se interessam! Recuperar o colorido da palavra "importante" é redescobrir o que diz a palavra, mesmo quando já emudecemos para ela. Ou melhor, dialogando com a palavra ouviremos o que ela diz... ou apenas sussurra. Mais ainda: suscitaremos que ela diga outras coisas importantes.

Nossas leituras podem ser mais criativas se, entre outros recursos, empregarmos com mais frequência esse instrumento que busca o étimo, garimpando, tocando os vestígios que remontam à origem. Lembrava o medievalista Étienne Gilson: "Na origem sempre reside o mistério." E o mistério (como explicam os etimólogos) é aquilo que se encontra silenciado (ou silencioso...), e requer um rito iniciático para ser conhecido.

Etimologizar no ato da leitura é iniciar-se nos mistérios da palavra, descerrar os lábios das palavras para ouvir seus sagrados segredos. A etimologia contribui para revelar o velado, descobrir o coberto. O leitor empenhado em procurar a origem das palavras poderá estabelecer relações de sentido estimulantes!


Perguntas sem resposta

Vamos à crônica de Clarice Lispector Eu sou uma pergunta, do livro A Descoberta do Mundo. São inúmeras interrogações sem resposta: "Por que escrevo?", "por que minto?", "Por que digo a verdade?", "Por que há o infinito?", "Por que há o tempo?", "Por que há uma galinha?" - e as perguntas de fundo são: o que significa ser um ser que vive a perguntar?

A pesquisa sobre as origens da palavra "pergunta" remete a praecuntáre, do latim popular, proveniente do clássico percontáre, referindo-se por sua vez a contus. Contus era uma vara, bastão ou lança com inúmeras utilidades. Poderia servir como arma de combate ou instrumento de caça, mas também para finalidades menos agressivas. O contus era usado pelo mestre de qualquer tipo de embarcação para ir tocando o fundo de um rio a fim de evitar o encalhe. E era utilizado pelos cegos. Em geral um bastão vigoroso, com ele os cegos podiam sondar o entorno para evitar obstáculos, buracos e encontrar seu rumo.

O prefixo "per-" indica movimento para todos os lados, como em "perquirir" (buscar com cuidado, procurar por toda a parte). Tanto o barqueiro como o cego lançam mão do contus para descobrir perigos e definir trajetos. Precisam conhecer o que existe ao seu redor e à sua frente. Perguntam porque desconhecem.

Deduzo que Clarice se vê como alguém que pergunta porque caminha e necessita caminhar. Ela é a própria pergunta em busca de seus caminhos. Mas quem pergunta admite não ver. E quem não vê pode tropeçar, encalhar, espatifar-se. Perguntar, ato de humildade, curiosidade urgente. Habitantes num mundo repleto de obstáculos e perigos, nossa função primordial é essa: perguntar sobre a realidade circundante

E não só a que nos circunda, mas também a que nos constitui. Ao  perguntar, e perguntar-se - "Por que escrevo?" - a escritora investiga sua própria essência, indaga a respeito da sua "navegabilidade" nos rios e mares da escrita. E assim, o texto de Clarice deixa de ser um rol de perguntas mais ou menos interessantes. Torna-se, à luz da etimologia da palavra "pergunta", um visível esforço por ver o invisível.


Pergunta viva

Afirmará alguém que a autora do texto  não tinha em mente a origem das palavras e a leitura pode ser mais fantasiosa do que rigorosa. No entanto, está aqui, precisamente, a força da consciência etimológica. O leitor interroga-se sobre significados e sentidos que a palavra ainda carrega em suas camadas, conheçamos ou não o teor dessa preciosa presença.

Mergulhando nessas camadas verbais, o leitor se dá conta de que ninguém escreve impunemente. As mutações sofridas pela palavra, no plano fonético e semântico, não aboliram as motivações profundas do seu surgimento. Embora "perguntar" nada mais tenha a ver com a materialidade de um bastão, esse bastão interrogante encontra-se, por assim dizer, embutido no verbo.

A propósito, o leitor que pesquisa a origem etimológica das palavras é também ele uma pergunta viva. Com seu bastão etimológico, envereda pelos caminhos que as palavras percorreram antes de chegar até nós. Atravessa as planícies dos idiomas modernos, entra na floresta do latim medieval, escala as montanhas do idioma grego, bebe na fonte do indo-europeu.

A etimologia como instrumento de leitura permite interpretar com novos olhos as palavras mais "inocentes", pois inocente nenhuma palavra é.


Texto de Gabriel Perissé, retirado da Revista  Língua Portuguesa Especial - Etimologia, Ano 1, Editora Segmento, São Paulo, Janeiro de 2006.


A leitura que não lê

A ideia do ato de ler para além da superfície do texto está expressa na própria evolução das palavras "ler" e "leitura". Legere, ancestral latino do verbo "ler", significava "colher" frutos nos mais remotos registros da antiga Roma. Várias palavras ligadas a "ler" denunciam sua origem agrícola. O verbo colligere descreve a ação de coletar e resumir ao mesmo tempo, reunir em coleção, e nos legou "coligir".

Entre o ato de ler e a leitura, no entanto, há uma sutil distância etimológica. "Leitura" surgiu já quando o sentido de ler passou a ser a ser o de percorrer, por meio da vista, algo escrito. "Ler" um texto, não colher uma hora, está registrado em Português desde o século 13. A palavra "leitura" surgiu, assim, do latim tardio lectura (comentário), veio do latim clássico lectio, lectionis, o derivado de legere, que deu em "lição" (no século 13 tinha a forma "liçon", em Português).

Ler é colher com os olhos, é capturar com a vista. A leitura seria um ato além, o de comentar. Há quem leia sem fazer, de fato, uma leitura, sem usar o ato de ler para captar as possibilidades do texto. A execução privada do ato de ler, a leitura seria então de algum modo diferente de ler, exigiria uma conduta mais ativa, enfatizando a autonomia de quem lê. (Luiz Costa Pereira Júnior)

20 janeiro 2026

Com a casa poluída

Quando descobrem uma nova espécie de animal ou planta, os pesquisadores costumam dar a ela um nome associado às características físicas que a espécie apresenta ou homenagear quem a descobriu, ou, ainda, reverenciar alguém famoso no trabalho com aquele tipo de ser vivo. No caso do cágado-de-hogei (pronuncia-se "róguei"), vale a terceira opção. O nome reverencia o belga Alphonse Hoge, um herpetólogo - isto é, um especialista em anfíbios e répteis - famoso em sua área de pesquisa.

O cágado-de-hogei diferencia-se dos demais por ter a cabeça pontiaguda de cor marrom na parte superior e creme, na parte inferior. A carapaça, como é chamada a parte de cima do casco, também é marrom e um pouco achatada. Já o plastrão, a parte de baixo do casco, é amarelo com manchas em tom ferrugem.

Outra característica marcante do cágado-de-hogei são as unhas, usadas para escalar as bordas do rio. Até hoje, o animal só foi encontrado em rios que ficam a até 500 metros de altitude, localizados na bacia do rio Paraíba do Sul - do estado do Rio de Janeiro ao sul de Minas Gerais - e também no Espírito Santo, na bacia do rio Itapemirim.

E o que come um cágado? Bem, essa espécie é onívora, isso significa se alimenta tanto de animais quanto de vegetais. Seu cardápio inclui vermes, insetos, moluscos, frutos e verduras encontrados pelo animal na vegetação que existe ao longo das margens dos rios.

Mas em que meses o cágado-de-hogei costuma se reproduzir? Quantos ovos põe a fêmea desse animal? Em que locais os ovos são colocados? Quem são os predadores da espécie? Quanto tempo vive esse réptil? Infelizmente, essas perguntas ainda não puderam ser respondidas pelos pesquisadores por causa da dificuldade que têm de encontrar o cágado-de-hogei para estudar.

O pior é que a espécie agora está ameaçada de extinção e o motivo é a destruição do seu habitat pelo homem. O desmatamento das matas ciliares - aquelas ao longo dos rios, onde o animal busca alimento - e a poluição das águas com o despejo de substâncias tóxicas das indústrias e de esgoto não tratado podem levar o cágado-de-hogei a desaparecer. Reverter essas ações é o que se pode fazer para que essa e outras espécies de cágados continuem existindo.

Nome científico: Phynops hogei

Nome popular: cágado-de-hogei

Tamanho: até 34 centímetros de carapaça

Habitat: rios localizados até 500 metros de altitude nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.


Texto de Henri M.A. Mendes e Monique Van Sluys - Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Retirado da Revista Ciência Hoje para Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

19 janeiro 2026

Por que o ouvido produz cera?

Amigas da aparente limpeza, as hastes flexíveis podem ser arqui-inimigas da sua saúde auditiva. Por quê? Porque a cera produzida pelas chamadas glândulas ceruminosas não é sujeira, é proteção!

A cera é produzida pelo ouvido para impedir que partículas estranhas e micro-organismos entrem no canal auditivo e causem infecções. Ela também protege o revestimento desse canal - que é a porta de entrada dos sons que ouvimos.

Em geral, o ouvido cuida da sua própria limpeza. Quando há um excesso de cera, ele trata de expulsar. Logo, é só a cera que vemos do lado de fora da orelha que devemos limpar, mas... Com todo o cuidado!

Quem usa hastes flexíveis ou outros tipos de instrumentos prejudica a autolimpeza do canal auditivo. Aliás, muitas vezes esses instrumentos até empurram a cera para dento do canal e isso faz com que ela se acumule. O resultado pode ser uma otite, isto é, uma dor de ouvido resultante de uma infecção.

Mas é bem verdade que assim como há pessoas que transpiram mais do que outras, há aquelas que produzem uma quantidade de cera além do normal. Em alguns desses casos, é necessário que o médico que o médico otorrinolaringologista - especialista em ouvido, nariz e garganta - realize a lavagem do canal auditivo.

A limpeza consiste em injetar água dentro do canal usando uma seringa metálica. Não precisa se espantar porque não dói nada. Esse procedimento é muito importante, pois o excesso de cera pode se transformar num obstáculo à passagem das ondas sonoras e provocar a diminuição da audição.

Com os ouvidos obstruídos pelo excesso de cera, a pessoa tem dificuldades de entender palavras faladas com fraca intensidade, ou seja, em volume baixo. Às vezes, mesmo as palavras faladas em intensidade de uma de uma conversação normal podem não ser totalmente compreendidas. Isso acontece porque o nosso idioma - o Português falado no Brasil - possui sons, como os do 'v', do 'f', do 'b' e do 'p', que são de fraca intensidade.

Entender todos os sons do idioma com perfeição é muito importante, principalmente para as crianças. Afinal, aquilo que ouvimos interfere diretamente no nosso rendimento na escola.


Texto de Carla Queiroz e Carlos Augusto Ferreira de Araújo - Escola de Reabilitação, Universidade Católica de Petrópolis. Retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

18 janeiro 2026

Idioma e Identidade

Na clássica história de Babel o que mais chama a atenção é, claro, a confusão dos idiomas que se instala quando Deus pune este projeto arrogante. O que fica num segundo plano é o projeto propriamente dito, o projeto da torre. É a materialização de uma blasfêmia, como a Bíblia bem claro, mas é, reconheçamos, um projeto arrojado e que, aparentemente, unia toda a humanidade. Concluída, a torre de Babel representaria uma mensagem universal, uma mensagem que todos os  homens entenderiam. Mensagem abominável, do ponto de vista de Jeová, mas mensagem, de qualquer modo, como é mensagem todo monumento. Essa mensagem unificadora nunca foi concluída, por causa exatamente do caos linguístico; e foi então substituída por um novo projeto comum, menos ambicioso e mais lógico; o projeto de um idioma universal de que o Esperanto do doutor Zamenhoff é o grande exemplo.. Dito projeto não chegou a decolar, mas caracterizou como válida a aspiração humana de união. De fato, unidade e diversidade são dois polos da nossa sociedade cotidiana, como o são a globalização e a regionalização. Correspondem a duas necessidades básicas da pessoa, a necessidade de uma identidade pessoal e grupal e a necessidade de dissolver-se no todo em que se constitui a condição humana.

O Brasil é um exemplo disso. Por causa de sua extensão classicamente é conhecido como um país continental. E, sendo do tamanho de um continente, poderia ter vários idiomas, como acontece em regiões, aliás muito menores, da Europa. Não, o idioma é um só. Mas é um só diferenciado de acordo com as regiões. O linguajar do gaúcho é muito diferente do linguajar do nordestino, ou do paulista, ou do carioca. Dei-me conta disso quando escrevi o prefácio para um livro de contos do grande escritor rio-grandense-do-sul Simões Lopes. Quando recebi da editora o livro, fiquei impressionado com o tamanho do glossário, que daria até um volume à parte. O que é explicável: pouca gente fora do Rio Grande do Sul sabe, por exemplo, o que é um tirador, aquele avental de couro que o gaúcho usa para conter a rês. E, pouca gente usa o "tu" como pronome da segunda pessoa.


O Efeito TV

A situação poderia permanecer assim por muito tempo, talvez indefinidamente. Mas então surgem as redes de TV, e o Brasil, de sul a norte e de leste a oeste, começa a ouvir um idioma único. O resultado é a homogeneização, que chega a todo o país e põe em xeque as nuances regionais.

No Rio Grande do Sul o "tu" começa a dar lugar ao "você", primeiro nos programas de rádio e TV, logo na conversa informal. O "tu" ainda permanece nos lares e nos bares, mas quem sabe por quanto tempo? E quem imaginaria, por outro lado, a quantidade de anglicismos que, por causa do papel hegemônico dos Estados Unidos, tem penetrado na linguagem corrente?

Caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos do idioma, como caprichosos e à vezes imprevisíveis são os caminhos da humanidade, que ora levam à identidade individual/grupal ora à identidade universal. E caprichoso e imprevisível é o destino dos projetos nessa área. Os construtores da torre de Babel que o digam.


Texto de Moacyr Scliar retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

17 janeiro 2026

Cortina do Eu (101)

 "Porque todos buscam o que é seu e não o que é do Cristo Jesus." - Paulo. (FILIPENSES, 2:21)


Em verdade, estudamos com o Cristo a ciência divina de ligação com o Pai, mas ainda nos achamos muito distantes da genuína comunhão com os interesses divinos.

Por trás da cortina do "eu", conservamos lamentável cegueira diante da vida.

Examinemos imparcialmente as atitudes que nos são peculiares nos próprios serviços do bem, de que somos cooperadores iniciantes, e  observaremos que, mesmo aí, em assuntos da virtude, a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente enorme.

A antiga lenda de Narciso permanece viva, em nossos mínimos gestos, em maior ou menor porção.

Em tudo e em toda parte, apaixonamo-nos pela nossa própria imagem.

Nos seres mais queridos, habitualmente amamos a nós mesmos, porque se demonstram pontos de vista diferentes dos nossos, ainda mesmo quando superiores aos princípios que esposamos, instintivamente enfraquecemos a afeição que lhes consagrávamos.

Nas obras do bem a que nos devotamos, estimamos, acima de tudo, os métodos e processos que se exteriorizam do nosso modo de ser e de entender porquanto, se o serviço evolui ou se aperfeiçoa, refletindo o pensamento de outras personalidades acima da nossa, operamos, quase sem perceber, a diminuição do nosso interesse para com os trabalhos iniciados.

Aceitamos a colaboração alheia, mas sentimos dificuldade para oferecer o concurso que nos compete.

Se nos achamos em posição superior, doamos com alegria uma fortuna ao irmão necessitado que segue conosco em condição de subalternidade, a fim de contemplarmos com volúpia as nossas qualidades nobres no reconhecimento de longo curso a que se sente constrangido, mas raramente concedemos um sorriso de boa-vontade ao companheiro mais abastado ou mais forte, posto pelos Desígnios Divinos à nossa frente.

Em todos os passos da luta humana, encontramos a virtude rodeada de vícios e o conhecimento dignificante quase sufocado pelos espinhos da ignorância, porque, infelizmente, cada um de nós, de modo geral, vive à procura do "eu mesmo".

Entretanto, graças à Bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem, na experiência do corpo e além dela, arrebatando-nos aos vastos continentes, pouco a pouco, a buscar o que pertence a Jesus-Cristo, em favor da nossa verdadeira felicidade, dentro da glória de viver.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

16 janeiro 2026

O diminutivo que aumenta

 O USO DO ADJETIVO SUPERLATIVO PODE TER PROLIFERADO POR CAUSA DE NOSSA HERANÇA BANTA


O diminutivo virou uma espécie de divisor de águas para o brasileiro. Em Portugal, onde a ambiguidade linguística tem menor voltagem e toda conversa arrisca-se a seguir o pé da letra, as pessoas tendem a flexionar o grau do substantivo com a consciência de que pão é pão, queijo é queijo - posto evidente que um diminutivo serve é para diminuir e um aumentativo, para aumentar. Leva-se talvez mais à risca a definição usual do diminutivo, a de um grau do substantivo que deixa implícita a ideia de uma dimensão. Além-mar a ênfase é outra. Quando convém, o diminutivo funciona como aumentativo no Brasil. Porque exploramos como ninguém o uso dos adjetivos com flexão típica do diminutivo, mas função superlativa, como se vê abaixo:

"Café Quentinho" - Aquele com o máximo de calor possível

"Menino Bonzinho" - Um verdadeiro poço de bondade

"Cerveja Geladinha" - A bebida quase no ponto de congelamento


Quando deus é diminutivo

Banto é o conjunto de 400 idiomas da família nigero-congolesa, como o quimbundo de Angola, a que mais influenciou o Brasil. As Línguas Bantas estão na África ao do Saara, entre a linha que liga o Golfo da Guiné à foz do Juba (Somália) até o Cabo.

Os africanos subsaarianos usam muito os prefixos. Chega a ser considerada uma de suas maiores características gramaticais. Eles dividem os substantivos em cerca de dez classes. Toda mudança que ocorre com nome ou verbo é indicada pelo prefixo.

A primeira sílaba classifica a palavra: remete a expressão a uma categoria da realidade (diz se um termo vai batizar gente, bicho, ser sobrenatural, se é objeto pequeno, qual o tempo verbal etc). Singular e o plural são definidos pela mudança de prefixo: "mu-" é singular e "ba-", plural, como mucongo, membro da etnia conga (plural bacongo).

Seria comum numa Língua Banta o diminutivo ser usado para aumentar a propriedade de um palavra. Das designações de "Deus" (Ruhanga - o criador, Leza - o todo-poderoso, Molino - o espírito), há Kalunga ou Calunga, pela grafia oficial do Brasil. Pertence à décima classe de palavras, a dos diminutivos "ca-". Significa deus, "aquele que por excelência junta". No Brasil, virou até nome de rede de papelarias, com "K".

Deus, da ordem dos diminutivos? Faz sentido, se pensarmos a lógica dos povos que ocuparam as senzalas nos tempos da escravidão.


Calunga

É deus e é diminutivo.

Na mitologia subsaariana, o Criador não tinha o prestígio que lhe dá a tradição judaico-cristã. Nem bem criou o mundo, entregou-se aos seus filhos divinos e aposentou-se. Cada filho é ancestral fundador das linhagens Bantas. Daí ser rara a devoção coletiva ao deus único. Em geral, o culto é aos espíritos secundários.

Para os bantos (ou mesmo não-bantos, como os iorubas da Nigéria que ocuparam a Bahia), a linhagem é tudo - as ancestrais perduram nos vivos e a reencarnação ocorre no clã, o avô reencarnado no filho e nos netos - até quando ainda vivo. Entre os balubas, a palavra "morrer" é usada para todo objeto. Se pratos se quebram, rios secam ou árvores caem, se não há mais remédio ou retorno à condição de plena existência, os balubas dizem que pratos, rios e árvores "morreram".


O Povo Banto

A palavra "banto", como conhecemos, estreou com o antropólogo W. H. I. Bleek (1827-1875). Significa "povo". Não se refere a uma unidade racial. Séculos de movimentações, guerras e doenças originaram uma variedade de cruzamentos em quase 500 povos diferentes, que mantiveram as suas raízes comuns, apesar de tudo. Banto não é, pois, uma raça, mas uma comunidade com hábitos culturais e dialetos tão parecidos que sua semelhança só faz sentido se houver raiz comum. Todos usam, por exemplo, o radical "-ntu" (munto no singular e banto no plural) para denominar a pessoa, o ser humano. Por isso, essas Línguas foram batizadas de Banto. Invenção de linguistas ocidentais.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

15 janeiro 2026

O idioma que invadiu o Tupi

 COMO COLONIZADORES MUDARAM SONS E SENTIDOS DAS LÍNGUAS NATIVAS


O Brasil tem cerca de 180 Línguas nativas que ainda são usadas. Já foram mais de 1.200 no século 16. Aquilo a que chamamos Tupi era a base comum de diferentes dialetos indígenas do Maranhão ao Paraná nos primeiros séculos do Brasil. Os tupis se fixaram nas matas brasileiras vindo do sul do continente em grandes movimentos migratórios. Já as nações Jês foram empurradas para o interior e só se relacionaram com os portugueses no ciclo da mineração do século 17. Bem mais recente é o contato branco com tribos da Amazônia, com os Aruaques, os Caribes e comunidades isoladas, como os Tucanos e Guaicurus.

Os Tupis da costa brasileira formavam um grupo de hábitos culturais comuns e fala homogênea. Esse Tupi litorâneo dos primórdios de Tupi antigo, da conquista. Até o século 18, essa base Tupi seria filtrada pelos catequistas, mamelucos e bandeirantes, o chamado médio Tupi. Hoje, a Língua falada por caboclos amazonenses e tribos isoladas é considerada Neotupi ou Tupi Moderno - não é mais o que os jesuítas ouviram, nem o que os bandeirantes falavam aos quatro cantos em que passaram.

O Tupi reinava nos primeiros séculos de Brasil. Deu a primeira unidade nacional até o século 17. Numericamente inferior e tendo de relacionar-se e tocar negócios com os índios, o colonizador passou a usar Tupi, mas ao seu modo. Os invasores europeus passaram a usar um dialeto prático para a comunicação imediata, misto de Português e Tupi, o Tupinambá, Língua geral, brasílica ou nheengatu. Índias casadas com brancos não eram alfabetizadas, mas suas crianças ficavam expostas à Língua materna. No século 17, acredita-se que só dois de cada cinco moradores da cidade de São Paulo (SP) falavam Português. Segundo o professor da Universidade de São Paulo Bruno Bassetto, autor de Elementos de Filologia Românica, em meados do século 18 só um terço da população usava o Português e todos eram bilíngues. Os colonizadores do Império só se impuseram no litoral em fins do século 17 e no interior, já no 18.

Ao adotar o nheengatu como Língua, o Português operou sobre o tupi como superestrato (em que o povo dominante adota a Língua do dominado). Ao fazer isso, a invasão portuguesa usurpou parte da individualidade das Línguas nativas. Houve, por exemplo, influência semântica do Português sobre o léxico indígena, anota Luiz Caldas Tibiriçá, em seu Dicionário Tupi-Português. O Tupi era veículo da civilização, mas seu vocabulário não deu conta de conceitos e sons que os colonizadores trouxeram às aldeias.


Palavras tupis de origem portuguesa: 

Pana: Os tupis tomaram do Português o termo "pano" para nomear os tecidos que cobriam a nudez lusitana, uma novidade para quem andava pelado.

Jabota: Fêmea do jaboti na Amazônia, é uma palavra tupi que surgiu após a colonização, por influência portuguesa.

Sapoti: O fruto do sapotizeiro, ou sapota, foi trazido pelos portugueses das Antilhas, cujo nome mexicano é tzapoit.

Paissandu: Neologismo guarani criado pelos jesuítas e difundido junto aos tupis. Vem de "pai-sandu" (padre santo).


O Cristianismo trouxe novas pronúncias aos idiomas nativos

Com a chegada do colonizador e da cristianização, os índios tiveram contato com sons que desconheciam, que ecoavam nas palavras portuguesas.

Na conquista de nativos para o rebanho, os jesuítas adaptaram a fonética tupi aos sons trazidos pelos portugueses. Faltavam ao tupi s, z, l, v, f, rr e os grupos com sílabas líquidas (como cl e pl)

A líquida tupi tornou-se um /r/ Português, em oposição com /l/. Os índios dos primeiros anos de colonização diziam, por exemplo, "cabaru" (em lugar de "cavalo"), "chabi" (não "chave"), "papera" (papel) e "ribru" (livro).

Muitas vogais passaram a soar Portuguesas e sumiram consoantes pré-nasais (/mb/ e /nd/ passaram a oral e nasalaram a vogal seguinte, como é o caso do termo "tamanduá", que vem do guarani ta-mondahá, ladrão de formigueiros).

Nas formas verbais, o tupi ganhou as noções de tempo futuro, de modo subjuntivo e outros. O som "on" foi afetado pelo "-ão" Português. Foi assim que "maranhon" transformou-se em "Maranhão", por exemplo.


O rio do diabo

Os pregadores da Companhia de Jesus adaptaram muitas palavras dos nativos para poderem catequizá-los. Houve imenso esforço de acomodação semântica (as adaptações de sentido) para converter o tronco linguístico Tupi-Guarani aos mistérios da fé.

Um termo usado pelos índios ganhava sentido católico e perdia raízes. Tupã ("gênio do trovão", entidade secundária) virou "Deus" e tupambaé ("coisa de Deus", as terras coletivas das missões). É o caso de anhangá. O que era considerado um "espírito com poderes" virou sinônimo de demônio.

Como escreve Sérgio Corrêa da Costa, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de Palavras Sem Fronteiras, era "imperativo" que o "deus" dos guaranis fosse um grande mágico e herói civilizador, em muito superior aos pajés e aos homens-deuses das tribos.

Desde então, quando se quer traduzir anhangabaú, o consagrado é "o rio do espírito das diabruras, do malefício", água do rosto do diabo. Na região hoje ocupada pelo Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP), havia de fato um rio. Não se sabe se o lugar ganhou o nome dos índios. Se o foi, um rio chamado Anhangabaú não teria conotação demoníaca. Se foi batizado após a conquista, é possível que tenha sido associado à transmissão de doenças (daí "rio do diabo").


A lânguida resistência cultural na América hispânica e portuguesa

Entender a Língua dos índios e adaptar conceitos para promover o cristianismo nos trópicos não foi suficiente para os jesuítas portugueses e espanhóis serem assimilados. Encontraram muita resistência pela frente. Eles precisavam procurar os detalhes, as nuances e as expressões que evidenciassem a superioridade católica. Nem sempre conseguiam.

Uma manhã, conta Sérgio Corrêa da Costa, os caciques dos charruas procuraram o missionário de plantão para dizer que não queriam nada com um Deus que "vê tudo e sabe tudo o que nós fazemos". E foram embora, deixando o jesuíta com cara de bobo. Com sincera surpresa e muitas risadas, os índios da fronteira do Brasil com o Paraguai se deram conta de que estavam fadados ao inferno, quando foram os brancos que mataram Jesus Cristo. O crime não era deles, afinal. E quando alguns tupis e guaranis descobriam que, após a morte, os portugueses e espanhóis também iriam para o céu, perdiam o interesse na ressurreição. Não queriam tal companhia por toda a eternidade.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

14 janeiro 2026

As muitas vidas da palavra lusitana

                     IDIOMA TRADUZ VISÃO DE MUNDO QUE O POVO PORTUGUÊS          ESPALHOU AO LONGO DO TEMPO PELOS QUATRO CANTOS DO PLANETA E PELAS DIVERSAS CULTURAS QUE DOMINOU


Um idioma é depósito de um povo. Mas poucas Línguas ocidentais parecem ajustar-se tão bem quanto a Portuguesa ao papel de retrato falado das características de um cultura.

O povo português nasceu de misturas muitas. Sua tradição foi a de integrar-se à paisagem, aos climas, às crenças e aos povos que dominou. E o fez sem maiores tremeliques. Como lembra Ângela Dutra de Menezes, em O Português Que Nos Pariu (Relume Dumará), a Língua Portuguesa preserva a individualidade de um povo aventureiro, que circulou a África, chegou à China e ao Japão, avançou pela Índia e pela América. No auge da epopeia ultramarina do século 16, Portugal era um país pouco povoado - 1 milhão de habitantes na época do descobrimento do Brasil. Aderiu ao luxo da mistura muito mais que outros europeus para dominar colônias mais populosas que ele.

Assim, o descendente dos portugueses "aprendeu o amável jeito de olhar além da pele", mas "descobriu a hipocrisia, excelente aliada se a maior necessidade é tentar sobreviver", diz Ângela. É um tipo europeu que se acostumou a firmar a própria identidade a cada adversidade. Gente impetuosa diante dos chamados de além-mar, melancólica por causa de sua aventura, mas enfática, de quem não dá viagem perdida - não por acaso, foi a primeira a declarar-se nação independente na Europa. Esse mesmo português aprendeu as necessidades de ser cético, sonso e maleável diante dos contratempos, afinal, "em excesso de verdades constitui tolice acreditar numa só".


Características

O Idioma Português atua como um reservatório dessa identidade, maleável e também categórica. Põe à disposição do usuário duas formas de futuro subjuntivo ("quando eu for", "quando eu quiser ir") e uso de pronomes entre o verbo principal e o auxiliar ("hei de lhe oferecer" - isso, no Brasil).

Ao usar o pretérito, mais firme é o modo como o Português afirma sua diferença. "Enquanto outras linguagens equilibram dois verbinhos até para descrever os eventos corriqueiros, a Língua Portuguesa é incisiva: 'eu viajei' no lugar do cansativo 'eu tinha (havia) viajado'", diz a autora.

Hernani Donato, autor do insert sobre a Língua Portuguesa no livro A aventura das Línguas, de Hans Joachim Störig, deixa evidente que o professor alemão encarou como dificuldades do Idioma Português muito do que nos é característico. Störig se revela surpreso com o número de vogais e ditongos pronunciados com voz nasal, com terminação em "-ão", nasala vogais antes de outras vogais, e com a sílaba tônica acentuada de maneira tão forte que as outras sílabas parecem cochichadas dentro da palavra, o que faz as vogais não acentuadas mudarem de timbre. É o ser Português falado por sua Língua: musical e afirmativo.

Ao se reproduzir no outro lado do Atlântico, o falar Português se abrasileirou. Ganhou outras flexões, textura própria, nova música. "No Brasil fala-se Português com açúcar", diria Eça de Queiroz. Por um triz, não virou dialeto. Talvez seja questão de tempo. Para Antônio Cândido, a Língua Portuguesa não perdeu na América nada de "seu caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de funda melancolia". De quebra, ganhou suavidade e ternura.

Os portugueses deixaram entre nós sua herança, sua Língua. Com ela, tudo  o que a cultura lusa é e significa.


A maior palavra:

"Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico"

Essa vai ser difícil de exportar. Até prova em contrário, a maior palavra da Língua Portuguesa é uma expressão médica, muito rara no Brasil. Com 46 letras, descreve o estado de quem sofre uma doença causada pela aspiração de cinzas de um vulcão.

Deixou as 29 letras de "anticonstitucionalissimamente" a comer sabão.


Texto sem autoria (deve ser criação coletiva) retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

13 janeiro 2026

Concreto e Abstrato

COMPOSITORES COMO GILBERTO GIL E POETAS COMO JOÃO CABRAL DE MELO NETO MOSTRAM QUE NEM SEMPRE É FÁCIL DISTINGUIR UM SUBSTANTIVO DE OUTRO


Referindo-se a América, poema de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto exaltava o que lhe parecia essencial no fazer poético: a concretização do abstrato e a abstratização do concreto. O mestre  pernambucano exemplificava sua afirmação com este trecho: "Só o primeiro cão, / em frente do homem /  cheirando o futuro". Para Cabral, "cheirar o futuro" era a exata dimensão da concretização do abstrato.

Um dia, numa das "inesquecíveis" aulas sobre as classificações do substantivo, aprendemos na escola que "concreto dá pra pegar; abstrato não dá pra pegar". E começa a confusão: Deus é concreto ou abstrato? E fada? E saci? E luz? E alma? E isso? E aquilo? E nada! Abismo. Mistério. Não foi à toa que Drummond terminou seu célebre poema Aula de Português com estas palavras: O Português são dois; o outro, mistérios." O outro Português é o da aula de Português, o da aula de Gramática.

Ao tratar do capítulo da classificação dos substantivos, os queridos colegas talvez não precisassem chegar ao ponto de citar o pensamento de Cabral, quiçá muito profundo para mentes, corações e espíritos jovens, mas poderiam fazê-lo (aos jovens) ouvir (e ler e entender) a memorável Rebento, de Gilberto Gil. Diz a canção: "Rebento, substantivo abstrato / O ato, a criação, o seu momento (...) / Rebento, tudo que nasce é rebento / Tudo que brota, que vinga, que medra / Rebento raro como flor na pedra / Rebento farto como trigo ao vento."

Pensando bem, parece que Gil segue os passos sugeridos por Cabral. Substantivo abstrato (já que designa "o ato de rebentar" - um dos valores dos abstratos é justamente o de indicar o "ato de"), "rebento" logo se concretiza ("raro como flor na pedra, "farto como trigo ao vento"). Como se vê, é difícil, quase impossível separar o abstrato do concreto.

Definido como "palavra com que se nomeia uma ação, qualidade, estado ou sentimento dos seres, dos quais se pode separar e sem os quais não poderia existir", o substantivo abstrato passa a concreto num piscar de olhos, como na canção de Gil. Por ser "o ato de rebentar", "rebento" se define como abstrato, mas concretiza-se quando "brota", "vinga", "medra", nas palavras de Gil. "Medra", por sinal, não significa "tem medo". Significa "cresce", "avança".

Se recorrermos à etimologia, constataremos que a palavra "abstrato" é da família de "abstrair", que vem do latim abstrabere e significa "separar", "arrancar", "desatar", "desligar", "afastar-se", "separar-se". De fato, o primeiro significado que os dicionários dão para "abstrair" é "separar", o que confirma a definição de abstrato do parágrafo anterior e torna compreensível o significado filosófico de abstrair e de abstração.

A letra da canção de Gil caminha e consolida o pensamento de Cabral: "Outras vezes Rebento simplesmente / No presente do indicativo / Como a corrente de um cão furioso / Como as mãos de um lavrador ativo (...) / Rebento, a reação imediata / A cada sensação de abatimento / Rebento, o coração dizendo 'bata' / A cada bofetão do sofrimento." O tiro certeiro de Gil se dá justamente na passagem do substantivo para a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o que explica quão tênue é a linha que separa o concreto do abstrato.

Alguém ainda se habilita a dizer que "concreto dá pra pegar, abstrato não dá pra pegar"?


Texto de Pasquale Cipro Neto, retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1 Editora Segmento, São Paulo, 2005.

12 janeiro 2026

Cortesia Navegante

OS CUIDADOS NECESSÁRIOS EM E-MAILS QUANDO SE QUER SER ENTENDIDO


O e-mail ressuscitou o costume da correspondência. Para muita gente, no entanto, representou exposição incômoda da própria fragilidade comunicativa. Nesta área das mensagens eletrônicas, pega mal tropeçar no Português e na etiqueta ao fazer um convite, comentar um negócio ou marcar um encontro com um cliente.

Uma tendência recente de pensamento empresarial acredita que um e-mail - e todo documento eletrônico a ser enviado, como notas, ofícios, propostas comerciais, contratos e relatórios - será bem escrito se for atencioso e civilizado. E atenção significa que tudo na mensagem será cuidado com respeito - da revisão gramatical à qualidade de entendimento.

Uma mensagem mal escrita é, por essa lógica, mal escrita por sua totalidade - um equívoco de Português é também de etiqueta. E vice-versa. José Paulo Moreira de Oliveira, consultor de comunicação na produção de textos, acredita que um e-mail pode ser malsucedido no seu propósito porque não expressou o que seu autor, no fundo, pretendia.

- Agir como um bom comunicador pressupõe trabalhar duro para aumentar a clareza, a concisão e a legibilidade, virtudes essenciais para uma comunicação eletrônica eficaz - diz Oliveira.

O bom senso é parte da boa escrita, indica o autor de Como Escrever Melhor (com Carlos Alberto Paula Motta), que já vendeu 60 mil exemplares. Para ele, há uma regra para texto bem escrito nas empresas que parece superar as demais - a demonstração de respeito que se tem ao seu destinatário.


Escrita Virtual

O QUE LEMBRAR ANTES DE ENVIAR UMA MENSAGEM


As informações foram organizadas em gradação de importância, para permitir a imediata compreensão do leitor?

A quantidade de dados foi suficiente para "indicar o caminho das pedras" e assegurar a legibilidade ao texto?

Certifique-se de que seu texto responde às três perguntas mágicas:

- O que o leitor precisa saber?

- Para que o leitor precisa dessas informações?

- Que tipo de conhecimento o leitor já tem do assunto em pauta?

A linguagem usada foi clara e acessível?

Deixou claras suas intenções comunicativas?

Reservaram-se informações complementares para os anexos?


A etiqueta faz a mensagem

OS CRITÉRIOS PARA MENSAGENS ELETRÔNICAS NO CAMPO PROFISSIONAL


Mensagens curtas e simples. Se há muita informação a ser passada, "quebre-a" com títulos e intertítulos. Reserve o que for acessório apenas para os anexos.

Seja específico na redação do campo "Assunto" (subject). Isso permite ao destinatário saber de antemão o que será tratado.

Mensagens curtas; não telegráficas. Mensagens simples, mas não escritas com desleixo.

Evite abusos no negrito e no itálico. Fuja dos textos em maiúscula - são "grito eletrônico" - e das fontes incomuns, pois podem não ser lidas na máquina do destinatário.

Se o e-mail for dirigido a vários destinatários, escolha o mais importante e use cópia oculta para os demais. Nada pior que ser forçado a ler uma imensa barra de endereços eletrônicos.

Personalize sua correspondência. Mesmo nas mensagens com cópia, tenha o cuidado de digitar algumas palavras ao novo destinatário.

Use e abuse de arquivos anexados. São ótimos para enviar listas, planilhas, gráficos, imagens e tudo que puder ser considerado informação complementar. Dê ao leitor o direito de decidir o que vale a pena ser lido.

A maioria dos e-mails deve ser respondida. Ignorá-los é como deixar de atender a um telefonema. Reserve um tempo para resposta.

Não adianta entrar em crise só porque ainda não recebeu resposta. Dê um tempo real ao leitor. Nada de mensagens de reforço do tipo: "já recebeu?"


Material retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.