09 maio 2026

O que é vida?

 Rex, Diná e Zíper em: O que é vida?


A brincadeira rolou a tarde toda na casa da Diná. Rex e Zíper se divertiram por horas com a amiga e seus brinquedos jurássicos. Até que chegou a hora de guardá-los...

- Psiu! Meninos, vocês escutaram?!

Diná havia acabado de fechar as portas do baú onde deixava os brinquedos.

- Nós? Zíper e Rex olharam um para o outro - Não, o que houve?

- Um barulho dentro do baú! - disse Diná, abrindo-o. Tudo estava em ordem.

Zíper cutucou Rex.

- Ri, ri! Acho que Diná pensa que os brinquedos estão vivos!

- Óbvio

Que Farei? (112)

 "Que farei?" - Paulo. (ATOS, 22:10)


Milhares de companheiros aproximam-se do Evangelho para o culto inveterado ao comodismo.

Como dominarei? - interrogam alguns.

Como descansarei? - indagam outros.

E os rogos se multiplicam, estranhos, reprováveis, incompreensíveis...

Há quem peça reconforto barato na carne, quem reclame afeições indébitas, quem suspire por negócios inconfessáveis e quem exija recursos para dificultar o serviço da paz e do bem.

A pergunta do apóstolo Paulo, no justo momento em que se vê agraciado pela Presença Divina, é padrão para todos os aprendizes e seguidores da Boa Nova.

O grande trabalhador da Revelação não pede transferência da Terra para o Céu e nem descamba para sugestões de favoritismo ao seu círculo pessoal. Não roga isenção de responsabilidade, nem foge ao dever da luta.

- Que farei? - disse a Jesus, compreendendo o impositivo do esforço que lhe cabia.

E o Mestre determina que o companheiro se levante para a sementeira de luz e de amor, através do próprio sacrifício.

Se foste chamado à fé, não recorras ao Divino Orientador suplicando privilégios e benefícios que justifiquem tua permanência na estagnação espiritual.

Procuremos com o Senhor o serviço que a sua Infinita Bondade nos reserva e caminharemos, vitoriosos, para a sublime renovação.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

07 maio 2026

A fé de cada um

Você está convidado a conhecer um pouco de algumas das religiões mais praticadas no mundo para entender o que elas têm em comum e também as suas diferenças. Antes, porém, queremos deixar claro que religião é parte da história e da cultura dos povos, e que, portanto, nenhuma religião é superior à outra. Com essa ideia na cabeça, não importa no que acreditamos, nem mesmo se não acreditamos em nada. O que vale é conhecer e, claro, respeitar.

Existem muitas religiões em todo o mundo. Algumas acreditam em vários deuses e outras, em um só. As que acreditam em vários são chamadas politeístas; e as que acreditam em apenas um, monoteístas. Para este  texto, destacamos o budismo, o candomblé, o cristianismo, o hinduísmo, o islamismo, o judaísmo e a umbanda. De todas essas, apenas o cristianismo, o judaísmo e o islamismo são monoteístas. As demais são politeístas. Vamos saber mais?


Cristianismo

O cristianismo é a religião que, como o nome indica, segue os ensinamentos de Jesus Cristo. Para os cristãos, Jesus é o filho de Deus, e Deus é o criador do universo e de todos os seres. Deus teria enviado seu filho para salvar o ser humano dos pecados do mundo e, por isso, Jesus morreu na cruz, sacrificado em nome da humanidade.

Os cristãos se dividem entre católicos e protestantes, mas até p século 16, só existia a Igreja Católica. A divisão começou na Europa com um grupo de pessoas insatisfeitas com algumas ideias e práticas do catolicismo. Essas pessoas, então, reformularam a doutrina religiosa e essa reformulação ficou conhecida como Reforma Protestante, porque era a reforma dos que protestavam. Mas contra o quê esse grupo protestava? Bem, entre outras coisas, protestava contra o poder do Papa, contra a proibição do casamento de padres e freiras e contra o batismo em recém-nascidos.

Para os protestantes, o batismo só deve ser realizado quando a pessoa tem condições de escolher sua religião, por isso, eles não batizam bebês e crianças muito pequenas. Eles se opõem à proibição do casamento de padres porque não veem mal algum no fato de um religioso se casar. Depois dessa primeira reforma, muitas outras aconteceram e por conta disso surgiram, no mundo, várias igrejas protestantes: batistas, pentecostais, metodistas, adventistas, etc.

Apesar das diferenças, tanto católicos quanto protestantes acreditam que Jesus foi o enviado de Deus, o Messias. O livro sagrado dos cristãos é a Bíblia, na qual eles buscam as palavras de Deus e as explicações para muitas coisas que acontecem no mundo.


Judaísmo

A palavra 'judeu' vem de Judeia, nome de uma parte do antigo reino de Israel, no Oriente Médio. Os judeus

Uma ave que desbota na gaiola

Da próxima vez que passar perto de restingas, capoeiras ou beiras de mata, fique bem atento para qualquer vulto vermelho por trás da folhagem. Pode ser que você aviste um tiê-sangue, ave que só existe no litoral do Brasil e cujo nome foi inspirado em suas penas, vermelhas como o sangue. O tiê possui ainda as asas e a cauda negras e uma mancha branca reluzente no bico. Só não espere tanto de seu canto, porque... não tem nada de especial!

As cores vivas e contrastantes do tiê-sangue atraem o interesse dos criadores de passarinhos. Só que não adianta querer criar essa ave em cativeiro para apreciar sua beleza, porque, na gaiola, ela fica com uma coloração pálida e sem graça. O vermelho vivo da plumagem depende dos frutos de que se alimenta, alguns contêm um pigmento chamado astaxantina. Assim, se não receber a mesma variedade de frutos em cativeiro, o tiê fica com uma cor alaranjada, desbotada. Sinal de que em liberdade as aves são mais felizes e mais bonitas, não acha?

Mas, no caso do tiê-sangue, a beleza da plumagem é privilégio dos machos da espécie. De vermelho, as fêmeas têm apenas os olhos. No resto, a coloração delas é castanha, geralmente pálida e mais escura. Os filhotes com poucos meses de vida também são assim, porém, com uma cor ferrugem no ventre, olhos cinzentos e um jeito meio estabanado e descuidado de agir. Às vezes, ficam bem visíveis, porque não são ariscos e desconfiados como os adultos. Nessa idade ainda não dá para diferenciar o macho da fêmea, porque as penas vermelhas dos machos só aparecem por volta de um ano de vida. Enquanto não crescem totalmente - estando, digamos, na adolescência -, eles têm um aspecto malhado que os fez ficarem conhecidos como "machos pintões".


Uma espécie muito sociável

O tiê-sangue vive sempre em grupos, cuja constituição varia com o tempo. No período de reprodução - que vai de julho a fevereiro -, eles são formados por machos e fêmeas adultos e seus filhotes, com poucos meses de vida. No entanto, basta os filhotes ficarem um pouco mais crescidos para a situação mudar: as fêmeas jovens saem de casa! Partem à procura de outros grupos em que possam se instalar e encontrar parceiros para se reproduzir. O fenômeno é conhecido como "dispersão natal" e já observado em outras espécies de aves, mas ainda não se sabe por que acontece.

Uma das hipóteses sugere que as fêmeas jovens vão embora para deixar o terreno livre para suas mães, que sendo mais experientes, têm direito de ficar com os melhores machos. Os machos mais disputados são aqueles que defendem os melhores territórios (área com comida e lugares adequados para a construção de ninhos) e ajudam a fêmea a criar seus filhotes.

O macho jovem, ao contrário da fêmea, permanece ajudando os pais a cuidar de seus irmãos mais novos. Ele ganha experiência e se familiariza com o ambiente, tentando conquistar territórios vizinhos para aumentar a área ocupada pelo grupo e para, futuramente, se reproduzir. Acredita-se que ele herde o território do pai, quando este morre.


Mãe para tiê nenhum botar defeito

Quando chega a hora da fêmea do tiê pôr seus ovos, ela constrói o próprio ninho, aberto e com a forma de uma tigela com paredes bem espessas. Logo após a construção, que leva cerca de quatro dias, a fêmea põe dois ou três belos ovos azul-claros bem lustrosos, salpicados de preto. Os filhotes nascem todos no mesmo dia, depois de 12 ou 13 dias, com os olhos fechados e o corpo coberto apenas por uma penugem bem rala.

Durante os cinco primeiros dias de vida, a mãe tiê-sangue deita sobre os filhotes para aquecê-los e protegê-los do sol, da chuva e do vento. Eles saem do ninho depois de dez dias e ficam escondidos no meio da folhagem e dos arbustos, sendo ainda alimentados pelos adultos. Mesmo que ainda não saibam voar, o ideal é que saiam do ninho o quanto antes, porque lá eles estão muito vulneráveis a ataques de predadores. Afinal, para estes, não existe nada mais atraente do que um ninho com cabecinhas se agitando, piando e pedindo comida.

O tiê-sangue alimenta-se principalmente de frutos. Para os filhotes, entretanto, o cardápio é incrementado com muitas lagartas, insetos adultos e pequenas pererecas! Para nós, pode não parecer muito apetitoso, mas esta é a forma de as mães darem proteína de origem animal para seus filhotes, o que é muito importante nessa fase de crescimento. Isso mostra que as mães, não importa de que espécie, sabem das coisas!


Texto de Gloria Castiglioni e Luiz Pedreira Gonzaga (Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro) retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 120, Dezembro de 2001, Ministério da Educação, FNDE.

18 abril 2026

A Paz Mundial

Minha tia Assunção entrou na classe às nove da manhã. Ela tomou fôlego e quase todos nós bocejamos, porque era muito cedo para aguentar um daqueles discursos dela. Nossa tia disse o seguinte:

- Este ano quero que nós preparemos o Carnaval como se fosse o último carnaval da nossa vida. Vamos nos apresentar no concurso de fantasias que vão fazer numa discoteca de Carabanchel no sábado que vem. Vão se apresentar crianças das escolas do bairro e vocês vão ter de mostrar a todo mundo que são crianças como Deus manda e não os delinquentes que parecem.

Nem deixamos terminar, foi uma zoeira na classe que você nem imagina. O Yihad se levantou para dizer:

- Um aviso: vou me fantasiar de Super-Homem e estou dizendo desde já para ninguém mais se fantasiar de Super-Homem, porque, nesta galáxia, Super-Homem só tem um e esse um sou eu e não quero ser obrigado a quebrar a cara de ninguém. Repito: isto é um aviso.

Então o Orelhão disse:

- E do que é que eu vou me fantasiar, se só tenho fantasia de Super-Homem e minha mãe não vai querer comprar outra?

E começou um eco na classe toda: "E eu... e eu... e eu...", pois todos os meninos têm a mesma fantasia de Super-Homem por todos os séculos dos séculos.

Minha tia Assunção disse que não ia ter nada de Super-Homens, nem de Homens-Aranhas, nem de Belas nem de Feras. Nós tínhamos de mostrar ao Carabanchel, à Espanha, aos Estados Unidos e ao planeta Terra que éramos crianças boas, que lutávamos pela paz no mundo mundial e que ela tinha tido a ideia de fazer nós trinta, todos uns animais, nos vestirmos de pombas da paz.

Se a tia Assunção não fosse nossa professora e nós não fôssemos um bando de covardes, teríamos dito em coro: "Qual é, jacaré?"

Então minha tia continuou:

- O jurado, que é da Associação de Moradores, nos dará o primeiro prêmio, porque não há jurado na Espanha que resista dar o primeiro prêmio a trinta crianças vestidas de pombas da paz. Além disso, ganharemos muitos presentes. Por um dia, seremos os símbolos da paz mundial e nosso grito de guerra até sábado será: Vamos massacrá-los.

Disso nós gostamos. Com um grito de guerra como aquele podíamos ir até o fim do mundo. Íamos massacrar todas as crianças de todas as escolas do bairro com nossos trajes de superpombas da paz.

Minha mãe e as mães das trinta crianças animais que nós somos fizeram durante a semana os trajes de pomba com papel vegetal. Minha mãe se queixava muito, dizendo que minha tia vivia arranjando desculpa para ela ter de gastar dinheiro e trabalhar. Que não sabia como fazer fantasia de pomba e que quem estava precisando de paz era ela, de muita paz numa praia deserta e sem crianças, que isso sim era a paz mundial.

Afinal, no dia C - C de Concurso e Carnaval - minha mãe nos vestiu - eu e meu irmão - com nossas roupas de papel vegetal e nos disse para irmos indo para a escola.

Encontramos a Luísa na escada e a Luísa nos disse:

- Nossa, sua mãe deve ter tido um trabalhão para vestir vocês de pinguins.

Então agarrei o meu irmão e voltei a subir para casa, para dizer à minha mãe que nós não queríamos sair na rua vestidos de pinguins, nem que fosse pela paz mundial.

Na rua, uma senhora disse a outra:

- Veja só que pinguins lindos!

Quando chegamos à escola, ficamos alucinados: na porta estava Yihad vestido com umas penas, parecendo uma galinha; o Orelhão parecia um pavão, a Susana parecia uma avestruz, o Paquito Medina, um pelicano, e assim até trinta e três. Não havia dois pássaros iguais. Bom, só meu irmão e eu, aqueles pinguins lindos.

Todos nós ficamos olhando uns para os outros e, muito chateados, fomos escoltados pela tia Assunção até a discoteca "Silicone", onde estava se realizando o Festival.

A tia Assunção não deixou por menos: também estava fantasiada e parecia uma pata ou uma gansa.

A tia Assunção estava tão contente que nem parecia a tia Assunção. Disse que, quando fôssemos entrar no palco, ela ia dizer:

- Um, dois, três!

E nós tínhamos de responder batendo as asas e gritando em coro, até arrebentar a garganta:

- Viva a paz mundial!

Nós íamos gritar "Viva a paz mundial!", mas quando fomos bater as asas começamos a nos embaraçar uns nos outros e, se a tia, não tivesse posto ordem, teríamos chegada à discoteca completamente depenados. A tia disse para a gente esquecer a história de bater as asas, que era para batê-las só depois de ganharmos o prêmio.

Já estávamos na discoteca. Nós trinta sentamos num canto. O apresentador era o diretor da creche "O Pimpolho", que fica ao lado da minha casa.

Subiam uns fantasiados de árvores. O grupo se chamava "O Outono". Tinham cordão pendurado num galho e, quando puxavam o cordão, automaticamente as folham caíam. O público ficou alucinado com a bobagem que acabava de ver. Depois, subiam os clássicos super-heróis, uns meninos fantasiados de reality shows com facas cravadas nas costas, outros que iam de pão recheado de chocolate...

Nós fomos os quintos. Tínhamos sido treinados para, depois de "Um, dois e três" da tia Assunção, gritar "Viva a paz mundial", mas não deu tempo de fazer nosso número, porque quando a tia disse "Um, dois e três" ouviu-se a voz de um garotão de um colégio de Formação Profissional do meu bairro chamado "Baronesa de Thyssen":

- Yihad, como você fica bem vestido de galinha!

O Yihad se jogou do palco para virar o engraçadinho do avesso.

Minha tia Assunção ficou sozinha no palco. A coitada chorava, fantasiada de pata.

Parecia que aquele carnaval ia ser o pior das nossas vidas, mas você não vai acreditar no que aconteceu no final, porque foi uma coisa que nem os chineses da Rússia esperavam.

Uma vez que a briga se acalmou e o palco ficou vazio, o Superbarriga leu os prêmios indo do terceiro ao primeiro, para tornar aqueles momentos mais emocionantes:

- O terceiro prêmio coube ao grupo "Reality Shows", por sua simpatia e originalidade.

O público inteiro se desfez em vaias:

- Fora!!!

O segundo prêmio foi concedido ao grupo "O Outono", pela beleza de representação de uma estação do ano tão importante quanto as outras.

- E o primeiro prêmio... - O Superchato fez uma pausa para criar maior expectativa. Garanto que ele estava ouvindo o rangido de dentes dos espectadores ansiosos. - O primeiro prêmio foi concedido por unanimidade ao grupo "Os Pássaros", por sua defesa das espécies em via de extinção.

Bem se via que ninguém tinha ficado sabendo daquela história de paz mundial, então tivemos de admitir que éramos um grupos de pássaros em via de extinção. Nem sempre a gente é o que quer nesta vida.


Texto de Elvira Lindo retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 132, Janeiro/Fevereiro de 2003. Ministério da Educação, FNDE.

Fortaleçamo-nos (111)

 "Sede fortalecidos no Senhor." - Paulo. (EFÉSIOS, 6:10.)


Há muita gente que se julga forte...

Nos recursos financeiros, que surgem e fogem.

Na posse de terras, que se transferem de dono.

Na beleza física, que brilha e passa.

Nos parentes importantes, que se transformam.

Na cultura da inteligência que, muitas vezes, se engana.

Na popularidade, que conduz à desilusão.

No poder político, que o tempo desfaz.

No oásis de felicidade exclusivista, que a tempestade destrói.

Sim, há muita gente que supõe vencer hoje para acabar vencida amanhã.

Todavia, somente a consciência edificada na fé, pelos deveres bem cumpridos à face das Leis Eternas, consegue sustentar-se, invulnerável, sobre o domínio próprio.

Somente quem sabe sacrificar-se por amor encontra a incorruptível segurança.

Fortaleçamo-nos, pois, no Senhor e sigamos, de alma erguida, para a frente, na execução da tarefa que o Divino Mestre nos confiou.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

12 abril 2026

Por que soluçamos?

Vale tudo na luta contra o soluço: levar susto, beber copos de água até grudar com saliva um pedaço de papel no meio da testa. Mas nada garante que todos esses improvisos funcionem. Na maioria das vezes, o "hic, hic, hic", teimoso, continua! Qual será a causa desse misterioso barulho? Como fazê-lo parar?

O principal responsável pela nossa respiração é um músculo bem fino, que separa o tórax do abdômen: o diafragma. Graças aos movimentos do diafragma, que se contrai, inspiramos e expiramos o ar. O diafragma é auxiliado pelo nervo frênico. Localizado logo acima do estômago, este nervo controla os movimentos do diafragma.

Mas qual é a relação de tudo isso com o soluço? Bem, é a irritação do nervo frênico que causa o soluço. Irritação? Se você já pensou no nervo frênico mal humorado, nervoso e de cara feia, contenha a imaginação! Vamos ver o que acontece de verdade. Com a ingestão de líquidos ou comida em excesso, bebidas muito quentes, geladas ou com gás em demasia, o estômago incha e, por estar muito perto do nervo frênico, pode irritá-lo, isto é, sensibilizá-lo, como acontece com os olhos quando entra poeira.

O nervo frênico, irritado, manda o diafragma se contrair. Com isso, inspiramos ar. O problema é quando uma "tampinha" que há no fundo da garganta, a glote, fecha-se de repente e não deixa o ar passar da boca para os pulmões. Isso provoca a vibração das cordas vocais e "hic, hic, hic", lá vem o soluço! Esse fechamento da glote acontece independentemente da nossa vontade. Normalmente, ela fica aberta para a passagem do ar e só se fecha quando comemos. Quando a glote se abre, o ar volta a passar normalmente para os pulmões, o que não quer dizer que o soluço vai acabar. Isso só acontece quando o nervo frênico volta a trabalhar normalmente.

Qualquer pessoa e até animais, como cachorros, gatos e outros mamíferos, podem ter soluços! Em geral, o soluço acontece várias vezes seguidas e para em alguns minutos. Mas há quem soluce por horas ou até dias. Essas pessoas ficam cansadas, sentem desconforto e até dor. Quando isso acontece, é bom procurar um médico.

No caso do soluço comum, há maneiras de acabar com ele! Tomar um copo de água com o nariz tampado, por exemplo. Como fica difícil respirar, aumenta a quantidade de gás carbônico no corpo, o que inibe a irritação do nervo frênico e o faz voltar a trabalhar corretamente. Mas, cuidado: tampe o nariz por pouco tempo" E caso você veja um amigo soluçando, dê um susto nele! Assim será liberada no sangue uma substância chamada adrenalina, que fará o nervo frênico voltar ao normal!

Para evitar soluços, alimente-se de forma equilibrada e tente não ingerir líquidos durante a refeição, em especial, refrigerantes. Caso contrário, aguente o "hic, hic, hic..."


Texto de Rafael Pereira Leitão (Museu Nacional - UFRJ), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 120, Dezembro de 2001, Ministério da Educação, FNDE.

Entre carneirinhos & tempestades

 A previsão do tempo informa: o dia será ensolarado, com muitas nuvens no céu azul. Se você fez cara de desânimo, mude a fisionomia já! As nuvens não são sinônimo de tempo ruim e podem ser a maior diversão. Quem nunca ficou de papo para o ar e as achou parecidas com carneirinhos? E, quando era menor, você não pensava que elas eram feitas de algodão? Apesar disso, a maioria das pessoas distingue apenas nuvens de chuva das nuvens brancas e fofas. Se esse for o seu caso, saiba que é hora de descobrir por quais tipos de nuvens os aviões evitam passar, que tipo de nuvem resulta de uma tempestade distante ou aparece com a passagem de frentes frias. Basta ficar com um olho no céu e outro no texto que começa a seguir!


Para os curiosos, não é suficiente explicar que as nuvens são formadas por gotas de água ou cristais de gelo em suspensão na atmosfera. Eles também querem saber como gotas e cristais foram parar lá em cima! Pois tudo começa com a evaporação da água de rios, lagos, oceanos e a transpiração das plantas pelo calor do Sol. Ele aquece a água que passa do estado líquido para o estado gasoso. Os raios solares também aquecem a superfície que, por sua vez, aquece o ar próximo a ela.

O ar quente é mais leve e sobe. Mas, quanto maior é a altura, menor é a temperatura. Por isso, o ar esfria e o vapor d'água que ele contém condensa, isto é, passa do estado gasoso para o estado líquido. Às vezes, o vapor d'água atinge altitudes onde a temperatura é tão baixa que se transforma em cristais de gelo.

A condensação ocorre ao redor de impurezas existentes na atmosfera, chamadas núcleos de condensação. Essas impurezas atraem o vapor d'água. Portanto, se a atmosfera for absolutamente limpa, não há condensação e, consequentemente, não há formação de nuvens.

O tamanho das gotas de água varia de acordo com a quantidade de impurezas presentes na atmosfera. Sobre os oceanos, por exemplo, há menos impurezas. Então, o vapor d'água é atraído por poucos núcleos de condensação. Com isso, são formadas gotas d'água maiores e mais pesadas. Isso impede que as nuvens formadas - chamadas oceânicas ou marítimas - alcancem altas altitudes. A base desse tipo de nuvem costuma estar a 500 metros de altura e o topo, entre quatro e oito quilômetros. Além disso, as chuvas acontecem assim que as gotas são formadas. Como elas são pesadas caem logo.

Por outro lado, existem mais impurezas sobre os continentes do que em cima dos oceanos. Elas atraem o vapor d'água e formam gotas pequenas e leves. As nuvens continentais, então, atingem altitudes mais altas do que as nuvens marítimas. Seu topo costuma estar entre dez e 15 quilômetros de altura. Como as gotas que formam esse tipo de nuvem precisam crescer para ganhar peso e cair, as chuvas das nuvens continentais demoram mais a acontecer.


Nuvens de todo tipo

A classificação das nuvens em oceânicas ou continentais leva em consideração a localização geográfica. Mas as nuvens recebem vários nomes e os quatro tipos principais são: cúmulo, cúmulos-nimbos, cirros e nuvens estratos ou de camadas.

As nuvens brancas e fofas que vemos em geral nas manhãs de verão chamam-se cúmulos. Elas existem em todo mundo, duram entre 20 e 30 minutos e são formadas quando há inversão térmica. O que é isso? Bom, você já sabe que a temperatura da atmosfera diminui com o aumento da atitude. Mas, em determinados níveis atmosféricos, a temperatura aumenta com a altitude ao invés de diminuir. Só depois de centenas de metros, ela volta a diminuir quanto mais alto fica. Esse fenômeno é chamado de inversão térmica. Ele impede a nuvem de ultrapassar a espessura entre 500 metros e um quilômetro.

As nuvens de chuva são chamadas cúmulos-nimbos. A cor escura é sua marca registrada. E sabe por que isso ocorre? Porque os raios solares, em sua maioria, são refletidos no topo desse tipo de nuvem por cristais de gelo!

Os aviões evitam passar por essas nuvens por causa da turbulência que elas provocam. Se houver nuvens cúmulos-nimbos às vista, pode apertar os cintos porque a aeronave vai chacoalhar!

A turbulência é causada pelas fortes correntes de ar que há dentro da nuvem. São jatos de ar voltados para cima - provocados pelo levantamento de ar quente da superfície - e também de jatos de ar direcionados para baixo, criados quando as gotas se formam e caem. O movimento do ar provoca turbulência à sua volta.

Tempestades causadas por nuvens cúmulos-nimbos podem formar jatos de ar que chegam a até 12 quilômetros de altitude. Nessa altura, há o limite entre duas camadas da atmosfera: a troposfera e a estratosfera. Como o ar da troposfera não consegue entrar na estratosfera, ele é espalhado por baixo dela. Nesse local, a temperatura é de 60 graus abaixo de zero! Por isso, o vapor d'água imediatamente sublima, ou seja, passa do estado gasoso para o sólido. As gotas de águas que forem expostas a temperaturas tão baixas congelam. Viram, portanto, gelo. Esses cristais de gelo vão formar as nuvens cirros, que parecem suaves faixas brancas no céu. Na altitude em que são formadas, há ventos com velocidade de 150 quilômetros por hora. Eles espalham os cristais por lugares distantes, que não estão sendo atingidos pela tempestade. As nuvens cirros podem durar dias porque demoram muito a se dissolver. Isso acontece porque, apesar de haver ventos fortes nos locais em que elas se formam, eles não criam turbulências. Além disso, a temperatura baixa favorece a preservação dos cristais de gelo por longos períodos.

As nuvens estratos ou de camadas cobrem áreas imensas e formam chuvas finas. Elas surgem com a passagem de uma frente fria. Aposto como você sempre quis saber o que isso significa! Pois bem, a frente fria é uma massa de ar frio vinda de regiões muito frias, os polos da Terra. As frentes frias que atingem o hemisfério Sul vêm do polo Sul, enquanto as que alcançam o hemisfério Norte vêm do polo Norte. Essas frentes frias empurram para cima o ar quente que encontram. Ao subir, o ar quente esfria, condensa e forma nuvens estratos ou de camadas. O tamanho desse tipo de nuvem está relacionado com o tamanho das frentes frias, que podem ter mil quilômetros de comprimento e cem quilômetros de largura. Elas são capazes de provocar o levantamento de grande quantidade de ar.


Segredos do tempo

Mas qual a importância de estudar as nuvens? Elas podem auxiliar os meteorologistas a fazer previsões de tempo com mais antecedência e precisão!

Esses profissionais contam com a ajuda de um programa de computador para prever as variações do tempo. Tudo o que eles conhecem sobre a atmosfera está lá. Mas o programa ainda não é perfeito. Por exemplo, ele não consegue "enxergar" as nuvens. Isso acontece porque o programa monitora o globo terrestre por uma rede de pontos, que estão separados uns dos outros por uma distância de cerca de 100 quilômetros. Só que as nuvens são muito menores! As cúmulos, por exemplo, têm cerca de 100 metros de diâmetro, enquanto as cúmulos-nimbos, dez quilômetros.

Hoje, esse programa de computador é capaz de fazer previsões de tempo com três, quatro ou até cinco dias de antecedência. Mas as previsões seriam muito mais precisas com a possibilidade de representar as nuvens e o seu comportamento pelo computador. Afinal, elas são as responsáveis pelas chuvas. E para diversas atividades humanas, como a agricultura, é fundamental saber quanto vai chover!


Texto de Mara Figueira e Maria Assunção Dias (Instituto Astronômico e Geofísico, Universidade de São Paulo), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 120, Dezembro de 2001, Ministério da Educação, FNDE.

Por que sonhamos?

Talvez você ainda não tivesse certeza, mas só de se lembrar de alguns sonhos bem ricos em cores, detalhes e emoções, já devia suspeitar de que o cérebro não para de funcionar enquanto dormimos. Por mais que a gente sinta que o corpo e a mente precisam do repouso de todas as noites, o cérebro, na verdade, continua funcionando. Mas de uma maneira diferente, é claro.

Passeando pela cidade, você já deve ter notado algumas lojas com placas penduradas com a seguinte frase: "Fechado para balanço". Quer dizer que a loja está avaliando as atividades realizadas e fazendo um levantamento de tudo o que é necessário para continuar funcionando. Para que as vendas não atrapalhem o balanço, a loja precisa fechar suas portas por um dia. Do mesmo modo, quando você dorme, seu cérebro "fecha para balanço" e ignora tudo o que se passa do lado de fora, permitindo que você caia no sono mesmo com a televisão ligada, por exemplo. A cada noventa minutos, seu cérebro entra num período de intensa atividade interna, "ligando", em pleno sono, suas zonas responsáveis por sensações, memórias e emoções: é o sonho que começa.

Mas por que o cérebro continua trabalhando enquanto o resto do corpo descansa? Segundo pesquisas feitas nos últimos anos, a função do sonho parece ser a de oferecer ao cérebro uma oportunidade de rever acontecimentos importantes dos últimos dias. Boa parte dos estudos é feita em ratos de laboratório com alguns eletrodos implantados, que detectam a atividade dentro do cérebro. Por exemplo, enquanto os ratinhos exploram um labirinto novo, uma região do cérebro deles cria um "mapa" dos lugares por onde passam. Quando eles adormecem e começam a sonhar (é, ratinhos também sonham!), o mapa recém-criado é "ligado" de novo - o que indica que os bichos estavam sonhando com o labirinto. Funciona tão bem que dá até para dizer, pelo ponto do mapa que está ativado, com que parte do labirinto o rato está sonhando...

Ter um mecanismo para reprisar os acontecimentos importantes já é bacana, mas, talvez, o mais importante do sonho aconteça em seguida, quando o cérebro parece decidir, na paz do sono quais acontecimentos merecem ser registrados definitivamente, ou seja, quais ficarão na memória. Parte desse registro noturno provavelmente acontece durante a outra parte do sono, sem sonhos. Mas nem aí o cérebro fica de bobeira, descansando. É nessa fase que ele produz novas substâncias que vão ajudar a construir mais ligações entre as células do cérebro para guardar tudo na memória.

Por isso, hoje acredita-se que o sono, com sonhos e tudo, é essencial para fixar na memória o que se aprende durante o dia. Ou seja, é preciso dormir - e sonhar - para realmente aprender. E você que pensava que a aula acabava quando o sinal da saída tocava... Pois até sonhando o cérebro trabalha no dever de casa!


Texto de Suzana Herculano-Houzel, Museu da Vida - Fiocruz, O Cérebro Nosso de Cada Dia, www.cerebronosso.bio.br, retirado do Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Junho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.

11 abril 2026

Quando crescer, vou ser... Estatístico!

Vestido a caráter - de casaco e boné xadrez -, o detetive busca pistas com a lupa. Mas não encerra seu trabalho quando encontra! Ele as analisa e relaciona para concluir quem é o culpado do caso que investiga nos filmes, desenhos animados ou livros! E na vida real? Será que existe alguém que faça trabalho parecido com o do detetive? Sim! Há um profissional que substitui a roupa xadrez e a lupa por um conjunto de técnicas e métodos de pesquisa chamado estatística. Sua função é coletar, organizar e interpretar dados com o objetivo de chegar a conclusões ou fazer previsões sobre determinado assunto. O nome desse profissional é elementar, meu caro leitor: estatístico!

"O estatístico atua como um detetive: ele analisa uma grande variedade de dados em busca de pistas ou evidências sobre um determinado assunto", explica o estatístico José Matias de Lima, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE), ligada ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E, para isso, ele conta com a estatística, parte da matemática que estuda os processos para obter, organizar e analisar dados sobre uma população e as maneiras de tirar as conclusões ou prever o que pode acontecer no futuro baseado nesses dados.

O estatístico faz pesquisas, coleta dados e analisa informações com diferentes objetivos e em várias áreas. Ele pode, por exemplo, fazer pesquisas de opinião para saber, no ano em que há eleição, em qual candidato a maioria das pessoas está pensando em votar e que, portanto, deve vencer. Mas, para isso, não precisa perguntar a opinião de cada eleitor! O estatístico seleciona um grupo de eleitores, é a chamada amostra - que, como a sociedade, reúne gente de diferentes classes sociais, idade, sexo, profissão. Pede que respondam a um questionário, organiza as informações e as analisa. "A seguir, generaliza os resultados obtidos na amostra de eleitores para toda a população", diz José Matias.

Usando esse mesmo método, o estatístico pode conseguir informações sobre as preferências das pessoas em relação a um produto - o que é precioso para a indústria! Se ele descobrir, por exemplo, que os consumidores gostariam de ter um tênis que brilha no escuro, a empresa lançaria um modelo assim. A partir de pesquisas, ele também é capaz de indicar para empresários qual o melhor lugar para a instalação de fábricas, supermercados, shoppings, escolas, cinemas!

Da mesma forma, o trabalho do estatístico é útil para o governo. As informações colhidas por ele ajudam a fazer um retrato do Brasil! O estatístico é o responsável por determinar, por exemplo, o número de crianças que estão fora da escola, qual eletrodoméstico é mais comum entre os brasileiros, a expectativa de vida dos habitantes do país, etc etc etc...

Na área de saúde, esse profissional pode usar pesquisas para definir o número de pessoas que tem determinada doença e alertar sobre riscos de epidemia. "Por meio desses dados, o governo identifica onde é mais importante investir em saúde, educação, habitação, transportes", explica Matias.

Ufa! Viu só em quantas áreas o estatístico pode atuar? Pois foi isso que fez José Matias optar pela profissão. Quando criança, ele já sonhava em seguir alguma carreira ligada à matemática. Pensou até em ser engenheiro, mas a estatística venceu! "Além do fato de poder atuar em diferentes áreas, o que mais me fascina nesta profissão é ter contato e poder trabalhar em conjunto com outros profissionais de diferentes áreas do conhecimento", conta. Segundo ele, o estatístico nada faz sozinho e, portanto, precisa saber trabalhar em equipe. Deve, ainda, gostar de desafios, não ter medo de lidar sempre com o diferente e se interessar por novos assuntos. E, claro, ter um pouquinho de espírito de detetive!


Texto de Sarita Coelho retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Ju8nho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.

Vó caiu na piscina

Noite na casa da serra, a luz apagou.

Entra o garoto:

- Pai, vó caiu na piscina.

- Tudo bem, filho.

O garoto insiste:

- Escutou o que eu falei, pai?

- Escutei, e daí? Tudo bem.

- Cê não vai lá?

- Não estou com vontade de cair na piscina.

- Mas ela tá lá...

- Eu sei, você já me contou. Agora deixe seu pai fumar um cigarrinho descansado.

- Tá escuro, pai.

- Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe pra acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.

- Pai...

- Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa muito a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.

- Vó tá com uma vela.

- Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.

- Já tá acesa.

- Se está acesa, não tem problema.

Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena, e você  sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.

- Por que não acredita no que eu digo?

- Como não acredito? Acredito sim.

- não tá acreditando.

- Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?

- Não, pai, não acreditou ni mim

- Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei, viu? Estou te dizendo que acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.

- Não te chamei de mentiroso.

- Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.

- Ô, pai, é de morte!

O garoto sai, desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada. Daí a pouco, chega a mãe:

- Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?

- Até você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?

- Eduardo, está ficando escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo para que tirem ela de lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se você não for depressa, ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!

- Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído!

Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d'água:

- Mamãe, me desculpe! O menino não me disse nada direito. Falou só que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.

- Está bem, Eduardo - disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa. - Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!


Texto de Carlos Drummond de Andrade retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 15, Número 125, Junho de 2002, Ministério da Educação, FNDE.


Vó caiu na piscina - In.: Moça deitada na grama, de Carlos Drummond de Andrade, Editora  Record, Rio de Janeiro, páginas 216 - 217 - 218. Atualmente publicado no livro Para Gostar de Ler - Júnior, volume 3/Rick e a girafa, Editora Ática.


Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, na cidade de Itabira, Minas Gerais. Sua obra, que sempre abordou temas diversos, divide-se entre a prosa e a poesia. Drummond morreu em 1987 e é considerado um dos maiores autores da literatura brasileira do século 20.

Vigiemos e Oremos (110)

 "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação." - Jesus. (MATEUS, 26:41.)


As mais terríveis tentações decorrem do fundo sombrio de nossa individualidade, assim como o lodo mais intenso, capaz de tisnar o lago, procede do seu próprio seio.

Renascemos na Terra com as forças desequilibradas do nosso pretérito para as tarefas do reajuste.

Nas raízes de nossas tendências, encontramos as mais vivas sugestões de inferioridade. Nas íntimas relações com os nossos parentes, somos surpreendidos pelos mais fortes motivos de discórdia e luta.

Em nós mesmos podemos exercitar o bom ânimo e a paciência, a fé e a humildade. Em contacto com os afetos mais próximos, temos copioso material de aprendizado para fixar em nossa vida os valores da boa-vontade e do perdão, da fraternidade pura e do bem incessante.

Não te proponhas, desse modo, atravessar o mundo, sem tentações. Elas nascem contigo, assomam de ti mesmo e alimentam-se de ti, quando não as combates, dedicadamente, qual o lavrador sempre disposto a cooperar com a terra da qual precisa extrair as boas sementes.

Caminhar do berço ao túmulo, sob as marteladas da tentação, é natural. Afrontar obstáculos, sofrer provações, tolerar antipatias gratuitas e atravessar tormentas de lágrimas são vicissitudes lógicas da experiência humana.

Entretanto, lembremo-nos do ensinamento do Mestre, vigiando e orando, para não sucumbirmos às tentações, de vez que mais vale chorar sob os aguilhões da resistência que sorrir sob os narcóticos da queda.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

05 abril 2026

Um pequeno morcego ameaçado

Galeria de Bichos Ameaçados


Nome científico: Lonchophylla dekeyseri

Nome popular: Morceguinho-do-cerrado

Tamanho: de 45 a 65 milímetros de comprimento, do focinho até a ponta da cauda

Peso: de 10 a 12 gramas, aproximadamente

Local onde é encontrado:  em cavernas no Distrito Federal, na Serra do Cipó (em Minas Gerais) e em Sete Cidades (Piauí)

Habitat: Cerrado brasileiro

Motivo da busca: ameaçado de extinção


O morceguinho-do-cerrado é um mamífero genuinamente brasileiro e, como o nome sugere, só existe no Cerrado! Ele faz parte da extensa ordem dos morcegos, a Chiroptera, e, comparado com seus parentes, pode ser considerado de pequeno porte. Mede entre 45 e 65 milímetros de comprimento (da ponta do focinho até a ponta da cauda) e pesa de 10 a 12 gramas. Sua cauda é curta, tem de 7 a 10 milímetro de comprimento, e seu antebraço, de 34 a 38 milímetros. Os pelos das costas desse pequeno morcego são mais escuros que os da barriga. Portanto, com essa aparência delicada, se quiséssemos compará-lo com personagens de filmes e desenhos animados, poderíamos dizer que ele está mais para Fada Sininho, do Peter Pan, do que para Conde Drácula, né?

Sabia que, para os pesquisadores, o sorriso dos mamíferos é uma preciosa fonte de informação? Pois os dentes deles indicam, por exemplo, o que comem e a idade que têm. No caso dos morcegos, servem até para diferenciá-los, porque o número de dentes varia de uma espécie para outra. os dentes do morceguinho-do-cerrado, que são muito pontudos e pequenos, mostram que ele pode quebrar e triturar pequenos insetos e rasgar frutos. Mas eles gostam mesmo é do néctar das flores. Assim, são chamados de nectarívoros e para se alimentar contam com focinho e língua alongados.

Na hora de sugar o néctar, os morcegos adejam como os beija-flores. Isso quer dizer que eles batem as asas para ficar parados em pleno voo em frente à flor. Aí, enfiam a cabeça dentro dela e esticam a comprida língua para lamber o néctar depositado no fundo. Mas, ao contrário dos beija-flores, que são animais de hábitos diurnos, os morcegos passam o dia descansando nos abrigos e saem para comer à noite. As flores mais visitadas por eles são as do embiriçu, da unha-de-vaca, do açoita-cavalo e do jatobá. No Cerrado brasileiro, essas plantas geralmente  florescem no período de seca, entre os meses de maio e setembro.

É também nesse período que costumam nascer os filhotes do morceguinho-do-cerrado. A fêmea fica grávida por um período de até três meses e os bebês morcegos mamam por dois meses. Depois disso, alimentam-se como os adultos: do néctar as flores. Voando junto com os mais velhos durante certo tempo, os filhotes logo aprendem a sugar o néctar. Quando ainda não voam bem, as fêmeas não os carregam para buscar alimento à noite. Eles ficam nas cavernas sendo cuidados, como numa creche, por outros morcegos adultos.

O morceguinho-do-cerrado é considerado ameaçado de extinção porque seu ambiente natural, o Cerrado, está sendo desmatado para a criação de pastos e áreas de lavoura. Além disso, a destruição das cavernas pelas atividades de mineração também contribui para colocar em perigo a espécie. O ideal é que o homem encontre maneiras de combinar o desenvolvimento com a permanência das espécies em seus hábitats.


Texto de Ludmilla Aguiar (Embrapa Cerrados - Recursos Naturais); retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 17, Número 145, Abril de 2004, Ministério da Educação, FNDE.

Quando crescer, vou ser... Botânico!

Costela-de-adão, jiboia, comigo-ninguém-pode, espada-de-são-jorge... Você consegue adivinhar o que estas palavras nomeiam? Aí vão algumas dicas: elas dão nome a seres que podem estar na sua casa, são muito importantes para a nossa  sobrevivência e alguns são até comestíveis! Nem desconfia? Pois estamos falando de plantas! Existe um profissional apaixonado pela natureza que é o responsável por estudá-las. Prepare-se para uma leitura com cheirinho de mato, porque, agora, você vai descobrir o que faz um botânico!

O estudo das plantas remonta à Antiguidade: um filósofo grego de nome esquisito - Theophrastus - foi a primeira pessoa a classificar os vegetais, no ano 370 antes de Cristo! No século 16, o alemão Otto Brunfels publicou a obra Herbarium, com ilustrações e termos científicos relacionados a algumas plantas. Mas só no século 18 foram realizados estudos mais aprofundados, como o do sueco Carl Von Linné, que propôs uma nomenclatura para as plantas em que elas teriam dois nomes em latim: o primeiro indicaria o gênero e o segundo, a espécie, como a Laelia Lobata, que popularmente conhecemos pelo nome de orquídea.

No Brasil, o estudo das plantas ganhou importância com a chegada da corte portuguesa, em 1808. Neste ano, D. João VI fundou o Jardim Botânico no Rio de Janeiro, que se tornaria o centro da botânica nacional no século 20. Pode-se dizer que a análise da flora brasileira, a mais rica do mundo, se iniciou com o alemão Karl Friedrich Philipp Von Martius, que, entre 1817 e 1820, percorreu o país colhendo os mais variados tipos de plantas, o que resultou na obra Flora Brasiliensis, de 15 volumes! Outro importante pesquisador da nossa flora foi o frei José Mariano da Conceição Velloso, brasileiro, que, em 1825, descreveu várias plantas nativas do estado do Rio de Janeiro no livro Flora Brasiliensis.

Por muitos séculos, todas as pessoas que estudavam a natureza eram chamadas naturalistas. A profissão de botânico teve seu início somente em 3 de setembro de 1979, quando a faculdade de Biologia foi reconhecida.

Para não esquecer, anote: Botânica é a ciência que estuda os vegetais em todos os sentidos. Ela divide-se em alguns ramos, como a botânica sistemática ou taxionomia, que ordena e classifica as plantas descobertas; a fisiologia vegetal, que analisa os processos vitais da planta, como a nutrição e a reprodução; a morfologia vegetal, que leva em conta a forma e estrutura das plantas; a fitopatologia, que verifica as doenças que atingem os vegetais; a paleobotânica, que estuda a flora já extinta do planeta; a fitogeografia, que descreve e explica, por exemplo, a distribuição das plantas segundo o clima e o relevo; a sociologia vegetal, que estuda as comunidades de plantas que formam as diferentes espécies; e a ecologia vegetal, que se ocupa da relação das plantas com o meio ambiente. Ufa! Quanta coisa!

Um botânico pode se especializar em qualquer uma das áreas citadas. Mas ainda há outras! Jorge Ernesto Mariath, diretor do Instituto de Biociências e professor titular do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por exemplo, trabalha na parte de anatomia das plantas, estudando-as interna e externamente. "É como se eu fosse um cirurgião de plantas, pois cortou-as de várias formas para entender a organização de suas células e tecidos", diz ele que, quando criança, pensava em ser médico, e, hoje, "opera" os vegetais!

Quem pretende ser botânico deve primeiro cursar a faculdade de Ciências Biológicas, que dura quatro anos, e, depois, optar pela especialização em Botânica. Foi o que fez Marcus Nadruz, outro que, por influência de um tio, queria ser médico quando crescesse. Mas ficou adulto e mudou de planos. Escolheu cursar Biologia e atualmente trabalha no Departamento de Botânica Sistemática do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sua função é identificar novas espécies de plantas e classificá-las de acordo com sua forma, estrutura, presença ou não de flores, futos e folhas. Para isso, comparar as novas espécies com as dos herbários - locais onde as plantas coletadas e classificadas passam por um processo de herborização, isto é, de secagem, para ficarem conservadas e servirem como objeto de estudo. No herbário, as espécies são organizadas em gavetas, em ordem alfabética, com informações como nome, local e data da coleta, tudo etiquetado! Para se ter ideia da importância desses arquivos de plantas, os primeiros herbários surgiram já no século 15. A partir deles, pode-se reflorestar uma área que pegou fogo, por exemplo. "Com as informações das etiquetas, pesquisamos as espécies que existiam no local que foi devastado e vamos em busca delas para replantarmos", explica Marcus.

Depois de conhecer algumas atribuições de um botânico, que tal dar um pulinho no jardim botânico da sua cidade e ver de perto a riqueza da nossa flora? Esse já é um passo para você - que se interessou pela profissão - tirar suas dúvidas e se encantar ainda mais com as belezas do nosso país!


Texto de Juliana Martins retirado do Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 135, Maio de 2003, Ministério da Educação, FNDE.

Sempre em boa companhia

 Galeria de Bichos Ameaçados

Nome Científico: Amazona rhodocorytha

Nome Popular: Chauá

Tamanho médio: cerca de 37 centímetros

Local onde é encontrado: de Alagoas até o Rio de Janeiro e também no leste de Minas Gerais

Habitat: Mata Atlântica

Motivo da busca: ave ameaçada de extinção


Antes do pôr-do-sol, o Chauá tem um encontro marcado! Esse papagaio, um dos mais coloridos e belos do Brasil, reúne-se com outros da sua espécie para passar a noite! Nas árvores onde descansa, há papagaios de vários tipos, mas basta olhar com atenção para reconhecer o Chauá: ele tem corpo verde, asas em tom de verde mais escuro com penas vermelhas, uma região alaranjada entre o bico e o olho, além da parte anterior da cabeça vermelha!

Companhia, no entanto, essa ave não tem só à noite! Os chauás formam casais que podem durar por toda a vida! Para se reproduzir, eles constroem ninhos em troncos de árvores, especialmente em palmeiras. Esse é um hábito típico dos papagaios: buscar buracos grandes para proteger ovos e filhotes de predadores, como tucanos e cobras.

Nas árvores, além de abrigo, o chauá também encontra alimento. Essa ave come frutos - principalmente, suas sementes. Para devorá-las, segura os frutos com os pés e os leva até o bico! Parece curioso? Pois o mais legal é ver o chauá colocar em prática a sua capacidade de produzir sons e, até mesmo, imitar a voz humana! Pena que essa característica, somada à beleza das suas penas, faça com que essa ave seja caçada para ser vendida no Brasil e no exterior, como animal de estimação.

Não devemos comprar nem vender esses bichos. Afinal, as pessoas que têm papagaio em casa, mesmo sendo carinhosas com o animal, não são capazes de proporcionar um ambiente apropriado para ele viver e nem satisfazer as suas necessidades naturais. Aliás, nosso dever é denunciar quem os vende ou compra. Afinal, o chauá já enfrenta outras ameaças, além do comércio, que o coloca entre os bichos em risco de desaparecer. A derrubada das árvores que abriga os seus ninhos - o que provoca a morte dos seus filhotes e a quebra dos seus ovos - e o corte das que fornecem alimentos à espécie podem levar essa ave à extinção.


Texto de Raquel Vieira Marques e Maria Alice S. Alves retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 135, Maio de 2003, Ministério da Educação, FNDE.

04 abril 2026

A Constelação de Lhama

Chegara a noite. Sentado debaixo de uma árvore, o jovem índio recordava, meio dormindo, tudo o que sabia sobre Yacana. Os anciãos lhe haviam ensinado que era uma espécie de "duplo celestial" da Lhama, que de noite descia à terra para comer e beber, mas que ninguém conseguia vê-la, porque só andava no fundo dos rios. Os grandes sacerdotes contavam que Yacana era enorme e que seus olhos imensos brilhavam mais que as outras estrelas do céu. Seu pelo era branco e sedoso e, quando voava de volta ao céu, o vento que a acompanhava assoviava como os passarinhos azuis da floresta.

O jovem índio pensava nisso tudo quando, de repente, foi ofuscado por um clarão azulado. Pouco a pouco, a luz foi tomando a forma de uma lhama e pousou na terra, a pequena distância de onde ele estava, junto a uma fonte. Era tão parecida com todas as descrições de Yacana que já tinha ouvido, que o índio a reconheceu imediatamente. Primeiro, quis se aproximar e falar com ela, de tão feliz que ficou por encontrá-la. Mas teve medo e se encolheu, sem se mexer mais, para não ser percebido, e ficou olhando, com a respiração suspensa. A lhama sagrada bebeu água da fonte. De repente, o rapaz sentiu que caía uma chuva de lã macia, como se alguém estivesse tosquiando um rebanho de lhamas. Mas como ele estava com medo de Yacana, não se mexeu, não saiu do esconderijo e esperou o dia clarear. Quando acordou, a lhama tinha desaparecido. Na certa, voltara para o céu enquanto ele estava de olhos fechados. Entretanto, a lã que ele sentira cair enquanto Yacana bebia água da fonte ainda estava lá. Eram centenas de chumaços, de todas as cores! Ele nem acreditava nos seus olhos. Para alguém tão pobre como ele, que não possuía uma única lhama, aquela era a oportunidade de sua vida!

Louco de alegria, correu até junto da fonte. Disse a ela que ia venerá-la até o fim de seus dias, e que, da mesma forma, ia adorar a constelação da lhama por toda a vida. Prometeu que voltaria todos os meses para oferecer o sacrifício de uma lhama jovem. Depois, recolheu toda aquela lã miraculosa e foi vendê-la na cidade.

Os índios nunca tinham visto cores tão luminosas. Todo mundo queria comprar as lãs. Ele vendeu tudo e, com o dinheiro, comprou um casal de lhamas que, como se fosse mágica, lhe deu mais de duas mil lhamas em um ano. E ele logo ficou famoso em toda montanha.

Desde esse dia, os índios vão com frequência para perto da fonte sagrada, à espera de Yacana. Parece que ela desce à terra todas as noites, à meia-noite, e que bebe muita água. Os índios dizem que é por isso que não há mais dilúvios, porque com toda a água que os rios jogam no mar sem parar, se a constelação da lhama não viesse beber muito todas as noites, o mar já teria transbordado há muito tempo e engolido mais uma vez todas as aldeias...

Yacana tem filhos. É possível vê-los brilhando perto dela, mas são estrelas menores. Bem perto delas cintilam três grandes estrelas, que também são veneradas. Quando se pode vê-las com nitidez, é sinal de que os frutos ficarão perfeitamente maduros. Mas quando mal dá para vê-las, é porque as colheitas não vão ser boas. Então, os índios vão até a fonte e lhe fazem oferendas de conchas, cantando:

- Ó tu, que dás origem à água e que há tantos séculos regas nossos campos, faze a mesma coisa este ano e traze chuva para que a colheita seja boa.

Yacana nunca mais voltou para junto dessa fonte. Parece que ela nunca bebe duas vezes no mesmo lugar. No entanto, desde esse dia, perto da fonte, quando o dia nasce, ouve-se o vento assoviar como os passarinhos azuis da floresta.


Este conto foi extraído do livro Os Incas, mitos e lendas, de Danièle Küss e Jean Torton, publicado pela Editora Ática. 

O povo inca sempre manteve respeito e admiração pelas estrelas por acreditar que nelas moravam os espíritos.

Retirado do Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 135, Maio de 2003, Ministério da Educação, FNDE.

Por que sentimos choque?

Geladeira, freezer, chuveiro, ferro de passar, liquidificador... Todos esses utensílios fazem parte do nosso dia-a-dia e precisam da eletricidade para funcionar. Mas, assim como tornam nossa vida mais fácil, também podem nos proporcionar algo nada agradável: o choque! Isso mesmo! Aquela sensação dolorosa que faz arrepiar nossos cabelos. Para senti-la, basta, por exemplo, tocar sem querer em algum fio desencapado de um eletrodoméstico que esteja em funcionamento. Ou mesmo colocar o dedo, por descuido, em alguma tomada. É um susto e tanto. Mas se há algo de bom nessa experiência é a pergunta que aparece com ela: por que isso ocorreu?

A resposta é a seguinte: quando ligamos um eletrodoméstico na tomada, uma corrente elétrica começa a passar por seu fios. É ela que fornece energia necessária para o aparelho funcionar. A corrente elétrica é constituída por elétrons, minúsculas partículas com cargas elétricas que se movimentam, formando um fluxo. Algo que, se você visse, acharia parecido com uma corrente de água, só que feita de elétrons.

Os elétrons, no entanto, não se movimentam livremente em qualquer material. Eles só fazem isso dentro dos que têm a capacidade de receber e transmitir energia elétrica. Os materiais com essa característica - como os metais - são chamados de bons condutores de eletricidade. Mas o curioso é que nós, seres humanos, tais como os metais, também podemos receber e transmitir eletricidade. E é por isso que levamos choque!

Vejamos: quando tocamos em algum fio desencapado ou em uma tomada, a corrente elétrica que passa por ali, se conseguir atravessar a nossa pele, irá seguir livremente pelo nosso corpo. Tudo porque ele possui água e sais e, por essa razão, é um bom condutor de eletricidade. Como a corrente elétrica é a circulação de cargas, é preciso que essas cargas possam entrar e sair pelo corpo. Por isso, se estivermos descalços, sentiremos choque porque a corrente passará por nós, do fio ao pé. Também teremos essa sensação, se alguma parte do nosso corpo estiver em contato com algum material ou superfície condutora, como a mão numa parede, por exemplo.

Por outro lado, se estivermos usando um chinelo com sola de borracha e não houver contato entre o nosso corpo e outro material, não levaremos choque. A razão é simples: a borracha é um material isolante. Isto é, ela não é um bom condutor de eletricidade. Então, não permite que a eletricidade chegue ao solo e seja descarregada.

É bom saber disso para evitar acidentes! E vale saber ainda que os impulsos que o cérebro manda para controlar os nossos músculos são também correntes elétricas (que circulam pelos neurônios). Assim, quando a gente leva um choque, os músculos confundem a corrente elétrica trazida por ele com os comandos do cérebro. Resultado: nossos músculos se contraem fortemente. Por isso, às vezes, uma pessoa fica agarrada quando leva um choque.

Então, anote: nunca encoste em fios desencapados, nem mexa em objetos condutores de eletricidade sem conferir se a chave geradora de toda energia da casa está desligada!


Texto de Cáthia Abreu e Martín Makler, do Instituo de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro; retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 134, Abril de 2003, Ministério da Educação, FNDE.

A Exemplo do Cristo (109)

"Ele bem sabia o que havia no homem." - (JOÃO, 2:25.)


Sim, Jesus não ignorava o que existia no homem, mas nunca se deixou impressionar negativamente.

Sabia que a usura morava com Zaqueu, contudo, trouxe-o da sovinice para a benemerência.

Não desconhecia que Madalena era possuída pelos gênios do Mal, entretanto, renovou-o para o amor puro.

Reconheceu a vaidade intelectual de Nicodemos, mas deu-lhe novas concepções da grandeza e da excelsitude da vida.

Identificou a fraqueza de Simão Pedro, todavia, pouco a pouco instala no coração do discípulo a fortaleza espiritual que faria dele o sustentáculo do Cristianismo nascente.

Vê as dúvidas de Tomé, sem desampará-lo.

Conhece a sombra que habita em Judas, sem negar-lhe o culto da afeição.

Jesus preocupou-se, acima de tudo, em proporcionar a cada alma uma visão mais ampla da vida e em quinhoar cada espírito com eficientes recursos de renovação para o bem.

Não condenes, pois, o próximo porque nele observes a inferioridade e a imperfeição.

A exemplo do Cristo, ajuda quanto possas.

O Amigo Divino sabe o que existe em nós... Ele não desconhece a nossa pesada e escura bagagem do pretérito, nas dificuldades do nosso presente, recheado de hesitações e de erros, mas nem por isso deixa de estender-nos amorosamente as mãos.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

03 abril 2026

Quando crescer, vou ser... Nutricionista!

Quando vamos ao supermercado fazer compras, encontramos alimentos e produtos de diversas cores e sabores! Nos restaurantes, quanta variedade: de peixes a massas, tem de tudo! E o lanche da escola? Cada dia uma merenda diferente! Mas será que você sabe comer direito? Pois existe um profissional que orienta as pessoas a comerem os alimentos na quantidade e com a qualidade adequada. Você saberia dizer quem é? Está enganado se logo imaginou um chef de cozinha. A responsabilidade, na verdade, cabe ao nutricionista!

No Brasil, a história dessa profissão começou com o médico Josué de Castro. Em 1929, ele criou um curso para formar o que se chamou de "visitadora", um profissional que deveria ter o objetivo de combater a fome no país. O curso para formar nutricionistas, propriamente dito, foi criado só em 1939, na Universidade de São Paulo. Ele tinha duração de apenas um ano, acredita? Hoje, no entanto, é oferecido por quase todas as universidades públicas, além de algumas particulares, e dura em média quatro anos!

Na faculdade, quem deseja ser nutricionista estuda desde a formação do corpo humano até os efeitos no organismo da presença ou ausência de vitaminas, proteínas, gorduras e demais substâncias químicas que formam os alimentos. O futuro profissional da Nutrição aprende também qual a quantidade de alimentos que cada pessoa necessita ingerir para viver de forma saudável, quais os nutrientes essenciais ao crescimento e à manutenção da saúde do ser humano. Você sabia, por exemplo, que quem gosta de tomar mate, guaraná natural ou refrigerante à base de cola enquanto almoça um prato com arroz, feijão, legumes, verduras e carne deveria deixar a mania de lado? A nutricionista Mônica Valle de Carvalho, professora e chefe do Departamento de Nutrição Aplicada da Universidade do Rio de Janeiro (UNI-Rio), explica o porquê! "O mate é rico em cafeína, que prejudica a absorção do ferro do feijão e das verduras pelo organismo", conta ela. "Por isso, o melhor é trocá-lo por um suco de laranja, cuja vitamina C ajuda a absorver o ferro."

Um nutricionista pode atuar em muitas em muitas áreas, como na nutrição clínica, receitando dietas a pacientes em consultórios particulares ou a doentes em hospitais; na nutrição esportiva, cuidando da alimentação de atletas em clubes de esportes ou academias de ginástica; na administração de serviços de alimentação, também conhecida como alimentação do trabalhador, atuando nas cozinhas de refeitórios de empresas, por exemplo; na nutrição de saúde pública, trabalhando em órgãos do governo; na vigilância sanitária, verificando as condições de armazenagem e de conservação dos alimentos; em laboratórios de Universidades, fazendo pesquisas; e nas indústrias alimentícias.

Renata Cassar, por exemplo, é nutricionista da Divisão de Produtos Lácteos Frescos da Danone. Ela tem várias responsabilidades, entre as quais, auxiliar no desenvolvimento de produtos nutritivos e que façam bem à saúde. "Quando o departamento de marketing sugere o lançamento de um iogurte para crianças, por exemplo, nós orientamos sobre que tipo de nutriente específico para essa faixa etária deve-se adicionar no produto e em que quantidade", explica.

Seja qual for a sua área de atuação, no entanto, o principal objetivo do nutricionista é educar as pessoas a se alimentarem adequadamente. "Quando falamos em dieta, a primeira coisa que passa pela cabeça das pessoas é: vou comer menos. E, na verdade, o que fazemos é educá-las para terem uma vida saudável, comendo um pouco de tudo", conta Lúcia Rodrigues, professora de Fisiopatologia e Dietoterapia Infantil e Nutrição Materno-infantil da UNI-Rio. Esta área estuda como a nutrição é primordial no crescimento do ser humano, desde quando o bebê está na barriga da mãe. O profissional também estuda as doenças na infância, como anemia, alergias alimentares, obesidade, dentre outras, demonstrando como a nutrição pode ajudar a criança a se recuperar.

Se você já está pensando em seguir a carreira de Nutricionista, fique ligado nessas dicas dadas por quem entende do assunto. "O nutricionista deve saber que é um profissional da área da saúde, isto é, que trabalha para ajudar as pessoas a se manterem saudáveis, independentemente da área em que vai trabalhar", diz Lúcia Rodrigues. "O nosso olhar é para o ser humano", completa. Então, se você se preocupa em levar uma vida saudável e também tem interesse em ajudar o próximo nesse sentido, quem sabe um dia não se tornará um nutricionista?!


Texto de Juliana Martins retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 134, Abril de 2003, Ministério da Educação, FNDE.

Curiosidades sobre os temperos

 Louro, canela, pimenta, noz-moscada e tantos outros temperos que dão à comida gostinho e aroma irresistíveis são também conhecidos pelo nome de "especiarias". Esta palavra - que você já viu ou verá no seu livro de História - foi sinônimo de tesouro há muitos anos. É verdade! No passado, navegadores atravessaram os mares comprando e revendendo esses produtos que chegaram para ficar em nossa mesa.


O cheirinho que vem da cozinha atravessa os cômodos da casa, chega ao seu nariz e desperta o seu estômago. Da próxima vez que isso acontecer, junte-se ao mestre-cuca e tente desvendar o mistério do aroma. Provavelmente, você vai descobrir que ele vem de uma planta, ou melhor, de parte de uma planta que está sendo usada em pedaços ou em pó como tempero. Pode ser pimenta-do-reino, louro, manjericão... No caso de doces, cravo ou canela, por exemplo. Seja o que for, pode apostar que o cheiro vai longe e que a planta veio de longe também!

Essas ervas aromáticas, chamadas especiarias, hoje são facilmente encontradas em supermercados e feiras livres. Mas, tempos atrás, a história era bem diferente. No final da Idade Média, elas só eram compradas das mãos de comerciantes, que as traziam de cidades da África e da Ásia para revender a preços altos na Europa. Mais tarde, com a chegada dos navegantes europeus ao continente americano, outros temperos foram descobertos, como a noz-moscada-do-brasil e até o pimentão, que é nativo da América do Sul.

Vindas de terras distantes, as especiarias pareciam envoltas numa nuvem de magia e mistério, pois muitas, além de servirem como condimentos, tinham o poder de tratar a saúde. Os comerciantes, claro, se aproveitavam do fascínio do povo e cobravam cada vez mais por esses produtos.

Portugal foi um dos países que aumentaram muito suas riquezas com o comércio das especiarias trazidas, principalmente, da Índia. O navegador português Vasco da Gama foi o primeiro que chegou a Calicute, na Índia, estabelecendo uma nova rota marítima entre o seu país e o Oriente para o transporte desse "tesouro vegetal".

Mas o tempo passou e as especiarias deixaram de ser exclusividade da mesa dos mais ricos. Novas terras foram descobertas, como o Brasil, e nelas passaram a ser cultivados muitos desses produtos. Pronto: as especiarias estavam ao alcance do povo! O mais simples dos pratos podia ter mais sabor!

Que tal, agora, ler os rótulos dos potinhos a seguir para saber curiosidades sobre as especiarias que eles guardam?!


Louro

O louro é um arbusto de dois a quatro metros de altura, do qual somente as folhas são usadas como tempero. Essa planta é conhecida desde a Grécia antiga, sendo que os primeiros registros de sua utilização datam de 2800 anos antes de Cristo. Se você prestar atenção, verá que em alguns desenhos animados os gregos e os romanos são representados usando coroas de louro. Essas coroas eram entregues aos vencedores de competições como símbolo da vitória. Daí a expressão "louros da vitória"!


Canela

Existem duas espécies diferentes de canela: a do Ceilão e a da China. Ambas são árvores das quais são extraídos pequenos pedaços da casca que envolve o tronco. E qualquer uma das duas é capaz de dar aquele gostinho especial em muitos tipos de doces!!! Quando a canela é vendida em pedaços, é chamada canela em pau; quando é moída, chama-se canela em pó. Da árvore da canela pode ser extraído óleo com propriedades medicinais usado para tratar gripes e resfriados e empregado também na perfumaria.


Noz-moscada

Da árvore se extrai o fruto. De dentro dele, tiram-se as sementes, que são raladas. Pronto: é o pó da noz-moscada que vai ser usado na comida! A planta que produz este tempero foi batizada pelos cientistas de Myristica Fragans. A noz-moscada também pode ser utilizada na perfumaria, na produção de pasta dental e de produtos farmacêuticos. Porém, não é essa a noz-moscada que se cultiva no Brasil. Aqui, é muito comum nas matas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais uma outra espécie, a Cryptocaria Moschata, da mesma família do louro e das canelas.


Pimenta

Criança não costuma gostar de pimenta porque arde a boca. No entanto, quando a gente cresce e passa a apreciar sabores mais picantes, uma pimentinha faz toda a diferença! Cada pé de pimenta-do-reino costuma dar de 20 a 30 espigas, das quais se retiram os frutos, que são moídos diretamente sobre a comida. Hoje, esta especiaria é utilizada pela indústria no processo de conservação de alimentos. O Pará é um dos maiores produtores brasileiros da pimenta-do-reino, que foi trazida para cá pelos colonos japoneses. Mas, no Brasil, há outras pimentas populares: a malagueta, por exemplo, é um fruto pequeno, alongado e vermelho; a chifre-de-veado tem frutos mais compridos que os da malagueta, eles são amarelos ou vermelhos; a comari também é um fruto vermelho, porém de formato arredondado; outra que também é redondinha é a pimenta-de-cheiro, mas essa tem cor amarela e recebe o nome de chili, no México, e de peperone, na Itália. O pimentão é mais uma da família das pimentas! Costuma ser usado para problemas digestivos e, externamente, para aliviar dores reumáticas.


Cravo-da-Índia

Você já o viu espetado no docinho de coco, misturado ao arroz-doce, em meio às frutas da compota, mas nem desconfia de que ele, o cravo, é, na verdade, o botão de uma flor! Originalmente, esses botões são de cor verde ou avermelhada, mas após serem secos ao  Sol ou em estufas, ficam pretinhos, do jeito que a gente os conhece. O cravo-da-Índia veio das Ilhas Molucas, na Ásia, mas há tempos é bastante cultivado no Nordeste, especialmente na Bahia. Essa especiaria é usada na culinária, na produção de perfumes e contra má digestão e bronquite. Porém, o abuso dela pode funcionar ao inverso, irritando o aparelho digestivo. Do cravo-da-Índia também se extrai um óleo muito usado para alívio da dor de dente e empregado na fabricação de alguns cremes dentais.


Cebola e Alho

Há quem não goste de mastigá-las, mas mesmo esses tendem a concordar que a maioria das comidas salgadas precisa de alho ou cebola para ter o sabor realçado! Presentes na culinária de muitos países, tanto o alho quanto a cebola são caules subterrâneos chamados bulbos. Note que na parte inferior do bulbo há uns fiapos, que são, na verdade, as raízes desses temperos. Além de proporcionar um gostinho especial aos mais variados pratos, o alho tem ação cientificamente comprovada contra bactérias e fungos, sendo também empregado como analgésico no alívio de dores.


Umbelliferae e Labiatae

Esses nomes estranhos representam duas famílias de condimentos dos quais você certamente já ouviu falar! Umberlliferae reúne a salsa, a erva-doce, o anis, o apio e o coentro (sem o qual o peixe cozido perde a graça!). Já à família Labiatae pertencem o orégano (excelente na pizza!), o alecrim, o manjericão, o tomilho e a hortelã. Falando em hortelã... Aí vai uma curiosidade: essa é uma das plantas mais usadas pelas indústrias de alimentos, cosméticos e medicamentos. Com ela se faz bala, chiclete, pastilha, pasta de dente e até xarope. O gosto refrescante da hortelã vem do mentol, substância presente no óleo que é extraído da planta.


Gengibre

Eis outro representante das especiarias que tem gosto forte e ardido! O gengibre é um arbusto de folhas longas e caule subterrâneo. Esse caule chama-se rizoma, cujo líquido ou as raspas são usados para dar um sabor diferente a comidas e bebidas. O famoso quentão - bebida preparada com vinho nas festas juninas - leva gengibre! Essa especiaria tem também aplicações medicinais, sendo usada como descongestionante e contra irritações da garganta. É originário da Ásia tropical.


Texto de Carlos Alexandre Marques (Departamento de Botânica, Laboratório de Morfologia Vegetal, Universidade Federal do Rio de Janeiro), retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 134, Abril de 2003, Ministério da Educação, FNDE.