02 fevereiro 2026

A confusão das falsas semelhanças

                                Pontos de contato entre Espanhol e Português                                 acumulam casos de vexames de palavras


Em crônica recente, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony falou dos vexames, cômicos e patéticos, causados por um grupo de brasileiros, gente importante das artes e da cultura, tentando se explicar em bom espanhol num programa de televisão de Madri.

Saiu, diz o grande romancista, puro Portunhol, aqui e ali uma pitada de "Espanguês", mas, no final, tudo muito ruim. Por isso ele, Cony, que confessa conhecer só umas três palavras no máximo do idioma de Cervantes, ataca sempre de Português Brasileiro puro onde estiver, sobretudo em países do continente.

Para quem usa o Portunhol na fronteira brasileira ou quem viaja a países como o México, o choque linguístico pode pesar mais que qualquer outro impacto cultural que por acaso possa o turista sentir.

Falar a própria Língua pode, portanto, ser recurso recomendável aos brasileiros que chegam a países latino-americanos. Encantados com a perigosa semelhança de vocabulário, sintaxe e até fonética de dois idiomas da mesma raiz, cometem gafes constrangedoras.

Num rápido exercício do gênero, podemos começar com alguns dos chamados falsos cognatos, os "falsos amigos", palavras espanholas que se escrevem e se pronunciam igualzinho, mas que têm conotação bem diferente, como embaraçada (grávida), com a qual os brasileiros, já acostumados, pouco têm se embaraçado.


CUIDADOS COM AS APARÊNCIAS

Torpe: Em espanhol significa um sujeito atrapalhado, confuso, incompetente. "Una torpeza" é uma trapalhada, uma besteira, uma bola fora. Nada a ver com o sentido ético-moral em Português.

Presunto: Significa suposto, como "el presunto asesino". Para pedir num boteco um modesto sanduíche de presunto, basta dizer "un sandwich de jamón".

Gandaia: Um tipo pilantra, intrigante de baixo nível. "Una  gandallada" é uma sujeira, uma patifaria. Longe, portanto, do nosso "cair na gandaia".

Porra: O nosso mais popular e saboroso exclamativo, pau para toda obra no falar cotidiano, significa, no México, torcida de futebol, como "hincha" na Argentina. "La porra de la selección nacional" quer dizer a torcida da seleção. Porrista é o integrante das porras, as torcidas uniformizadas dos grandes times locais. Também existe o termo "porro", aquele estudante profissional que fica na faculdade muito mais tempo além do previsto, não fazendo nada de útil, só agitando conchavos e provocações, geralmente a serviço de algum grupo ou figurão político. O jornalista Sérgio Augusto relata que, na Copa de 70, quando a torcida mexicana adotou o Brasil após sua seleção ser desclassificada, a TV só filmava o campo e não a torcida, por causa das faixas "la porra mexicana saluda lá porra brasileña".

Hediondo: Em Espanhol, não é um ato cruel, indigno de ser perdoado, como no Brasil. É a versão hispânica para o adjetivo "fedorento", do verbo "heder" (feder).


Texto de Wladir Dupont retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 3, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

29 janeiro 2026

Por que temos febre?

Você acorda e parece que o dia será como outro qualquer. Pula da cama, mas um cansaço logo toma conta do seu corpo. Então, você volta para o quarto e se esconde debaixo do cobertor. Sente frio e, em seguida, começa a suar. O coração, às vezes, acelera, a respiração fica ofegante e suas bochechas ficam vermelhas como um tomate. É ela, a febre, que veio te pegar!

Calma! A febre não é um monstro. É apenas um sinal de que o seu organismo está sendo atacado por micro-organismos nocivos à saúde. Só fique atento para não confundir febre com situações que levem ao aumento de temperatura corporal, como se agasalhar e se exercitar muito. Em geral, a febre vem acompanhada de algum outro sintoma, que pode ser dor de garganta, dor de ouvido, manchas pelo corpo, diarreia, vômito, etc. Nestes casos, pode apostar que alguma doença está para chegar.

Na verdade, a febre é resultado da ação de uma substância chamada prostaglandina. O nome é difícil de pronunciar, mas sua função é relativamente simples: levar ao cérebro a mensagem de que é necessário aumentar a temperatura do corpo para sinalizar que há algum micróbio invasor em atividade. Alertas ligados! Nosso sistema imunológico, ou melhor, de defesa, se prepara para combater a infecção. Às vezes, o organismo não dá conta desse combate sozinho e precisa da ajuda de medicamentos para reagir melhor. É para isso que quando não melhoramos da febre, vamos ao médico para nos consultar e tomar o remédio certo.

As crianças são as mais afetadas pela febre porque para o organismo delas praticamente todos os vírus e bactérias são desconhecidos. Então, quando esses micro-organismos invadem o corpo, ele logo produz a prostaglandina. Na medida em que vamos crescendo, ficando adultos, nos tornamos um pouco mais resistentes à febre porque nosso corpo já entrou em contato com diversos tipos de vírus e bactérias, tanto por já  termos sido vacinados, quanto por já termos contraído diferentes doenças.

Por mais que a febre seja apenas um sinal de que algo não vai bem, é importante saber sua razão. Assim, alguns cuidados devem ser tomados, principalmente, em se tratando de crianças com menos de um ano de idade. É que, neste caso, a febre pode estar associada a alguma doença grave, como a meningite. Por isso, o médico deve ser sempre consultado. Ele sabe detectar se existe alguma infecção e o que fazer para combatê-la.

Sem indicação do médico, ninguém deve tomar medicamentos. Até o dia da consulta, o que podemos fazer é beber bastante líquido para não desidratar e nos alimentar bem para manter o organismo forte, em condições de reagir. Essas atitudes contribuem para que você se livre logo da febre e também da doença que está associada a ela.


Texto de Renato Minoru Yamamoto, médico do Departamento de Pediatria Ambulatorial, Sociedade Brasileira de Pediatria. Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro 2004.

28 janeiro 2026

A Pipa e a Bruxa

Dois carretéis emendado de linha 50. Não era de papel, era de plástico verde, azul e laranja e tinha até nome aquela pipa: Raio de Fogo.

O vento estava pão-duro, naquela tarde de sábado.

- O vento está gorando... Recolhe que vai cair.

Caiu antes que Dudu completasse a frase. Alucinado, Guga foi puxando depressa, depressa... Sobrou com a linha arrebentada na mão. Seu lindo Raio de Fogo deu meia-pirueta e aterrissou no quintal do sobrado.

Silêncio total. Os três amigos se reuniram em torno de Guga. Pobre Guga... Quase deram os pêsames para ele.

- Desiste, Guga. Caiu no sobrado, é igual perder - disse Pedro.

- É a casa da velha... - acrescentou Dudu.

- Parece bruxa. Não dá nem bom-dia - completou Nando.

- Eu vou lá buscar. - Brilhavam os olhos do garoto.

Portão de novo fechado, agora era Guga e o quintal. Se a pipa estivesse logo ali à sua frente, maravilha. Que nada! Encontrou um pedaço de linha, e só.

A linha corria até perto do chão, e naquele instante Guga se esqueceu de onde estava, sabia apenas que precisava salvar seu amigo.

Foi trazendo devagar a ponta da linha, dando peixõezinhos que acabariam libertando a pipa. Estava tão distraído nisso, que não percebeu a porta do sobrado se abrir. Alguém espiava seu trabalho, enquanto andava até ele, devagarinho. Estava agora exatamente no meio do caminho de fuga para o portão.

- Fazendo isso, ainda vai rasgar.

Os olhos de Guga se arregalaram tanto que ele nem conseguiu ver direito a cara da mulher.

- É sua pipa?

Murmurou qualquer coisa que devia parecer um sim.

- É melhor pegar lá de cima. Puxando daqui, ainda vai rasgar.

Ela sorria ou era impressão sua? Entrar na casa. Não era uma traição? Todo mundo falava que a velha era esquisita, não dava nem bom-dia, morava sozinha e ficava até de madrugada com a luz acesa, maluca, louca, bruxa...

- Vem por aqui.

Guga nunca sentiu tão pequeno, sem saber o que falar. Mas era coisa de vida ou morte; abandonar o seu amigo lá era tão covarde quanto dar o fora. Foi seguindo atrás da mulher, ainda limpou os pés na passadeira e pensou: "Seja o que Deus quiser."

À medida que subiam as escadas, mais e mais quadros. No alto, o corredor estava muito escuro. "É agora que ela me empurra daqui para baixo", pensou Guga, com o coração agitado. Mas a porta se abriu, entrou o vento, e o sol da tarde clareou todo o lugar.

- A senhora é pintora?

- Claro. Você não sabia?

- Espere um momento ainda.

Pronto, era o feitiço? Guga endureceu o corpo, se virou devagarinho. E ficou lá, surpreso de ver a magia com que a velha olhava para ele e para o papel, a arte com que ela conseguia enfeitiçar seus olhos. Guga tinha medo até de respirar. Só quando a bruxa disse "pronto", ele puxou a linha que prendia a pipa e foi ver o que a mulher tinha feito.

Era ela. Só em lápis, mas era Guga, com seu cabelo arrepiado e a blusa vermelha. E era Raio de Fogo, mas lembrando também um passarinho, com asas emaranhadas na janela.

-  Ficou bonito... O Raio de Fogo tá lindão.

- Agora eu vou pintar. Você não quer ver como vai ficar? Volte semana que vem.

- Eu posso?

- Claro.

Quando Guga foi ao encontro dos amigos, ninguém acreditava no que via. Já estavam no morro, combinando uma invasão armada para salvar o colega; ou então a última e a pior das opções, que era avisar os pais e enfrentar o risco da bronca.

- O que a bruxa fez com você?

- Você se encontrou com ela, Guga?

- Tem um caldeirão de verdade na casa dela?

- Sabem de uma coisa? Eu acho que ela faz mesmo magia.

A bruxa apareceu na janela do sobrado, e eles danaram a correr, procurando outros lugares para soltar pipa e viajar pelo vento que, naquele instante, começava a vir mais forte.


Texto de Márcia Kupstas retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro de 2004. O Conto A Pipa e a Bruxa foi retirado e adaptado do livro Aventuras de Garoto, Atual Editora, 2002.

27 janeiro 2026

Gigante entre as araras

Você sabia que a maior arara do mundo voa pelos céus do Brasil? E é bonita que só ela! A arara-azul-grande tem penas de um azul muito escuro, tanto que, de longe, elas parecem pretas. Além disso, sua cabeça é cheia de detalhes em amarelo: há um anel em torno dos olhos e, perto deles, na parte inferior do bico, uma faixa em forma de meia-lua.

Os machos e as fêmeas da arara-azul-grande são muito parecidos. Por conta disso, é difícil dizer quem é quem. Mas não se engane: a semelhança só é problema para nós. Para as aves, ela não causa confusão. Na hora de se reproduzir, quem disse que a arara-azul-grande se confunde? Machos e fêmeas se encontram e... Iniciam o namoro!

No Pantanal do Mato Grosso, o período de reprodução da arara-azul-grande vai de julho a março. Os ninhos são construídos em cavidades encontradas nos buritis ou em outras árvores que têm o tronco oco, podendo ser reutilizados em outros anos. Ali, a arara-azul-grande põe de um a três ovos, que são chocados por cerca de um mês. E que ninguém tente se aproximar do ninho desta ave! Seja homem, seja bicho, o resultado é o mesmo: ela ataca para se defender!

A arara-azul-grande alimenta-se de sementes de frutas, principalmente, de cocos de palmeiras. Mas isso não impede que ela seja atraída também por árvores frutíferas, como mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras, laranjeiras e mamoeiros. No Pantanal do Mato Grosso, essa ave desce ao chão para colher coquinhos de um tipo de palmeira conhecida como acuri. A arara-azul-grande também tem o costume de abrir os cocos da macaúba, uma palmeira muito frequente no Brasil Central, usando um pedaço de madeira, que fixa ao seu bico.

O desmatamento e o comércio ilegal da arara-azul-grande são os motivos que a colocam na lista dos animais ameaçados de extinção. Embora sua compra e venda sejam proibidas sem licença especial, essa ave, por ser tão bonita e colorida, costuma ser procurada por pessoas que querem criá-la em cativeiro. A destruição de árvores que abrigam os ninhos da espécie e que servem como fonte de alimento para a arara-azul-grande também contribui para agravar a situação desse animal. A boa notícia, no entanto, é que você e seus amigos  podem, sim, ajudar a impedir a extinção dessa bela ave. Como? Protegendo a natureza para que essa arara tenha sempre o que comer e onde fazer os seus ninhos.


Texto de Alline Storni e Maria Alice S. Alves, do Instituto de Biologia, Setor de Ecologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 143, Janeiro/Fevereiro de 2004.

26 janeiro 2026

Viva em um mar de energia e luz!

Ao observarmos nosso mundo e tudo o que nos cerca, podemos considerar que vivemos mergulhados em um mar de energias e assim, tudo tem um campo de energia à sua volta: objetos, lugares, plantas, animais e seres humanos. Estes espaços de energia estão associados ao nosso padrão vibracional definindo o nível de saúde e bem-estar. Nos ambientes em que vivemos, vamos deixando impregnados os nossos padrões vibracionais: nossa casa, nosso armário ou mesa de trabalho são reflexos de nosso estado interior e de harmonia ou desarmonia física, psíquica e espiritual.

Imaginando o "astral" do ambiente de uma casa, na qual a família que ali habita, vive em clima de discussões e brigas ou lamentações e desânimo, compreendemos o quanto poderia ser agradável "curar" não só as angústias pessoais, como também os desconfortos impressos no ambiente. Isto explica porque nos sentimos bem ou mal quando entramos em um lugar. Nossa sensibilidade ativa o campo das percepções através de nossos sentidos. Sem ver ou ouvir, cheirar ou tocar, sentimos algo que nos anima ou invade nossa zona de conforto vibratório. Assim, estamos contagiados pelo otimismo ou por um súbito mau humor!

Nas empresas, o clima mental dos funcionários, a disposição vital e os fatores emocionais irão interferir nos resultados levando a um melhor desempenho de suas competências ou à estagnação de ideias e do próprio sucesso. O ambiente de trabalho dá claramente a visão de dupla mão: tanto o local interfere no rendimento quanto os funcionários interferem na alma do local das atividades. Escritórios entulhados ou escuros não podem gerar o mesmo tipo de sensação que os organizados.

O estado emocional e mental das pessoas de uma família ou funcionários de uma empresa vai "carimbando" o ambiente em um contágio progressivo, assim, anos de mágoas e ressentimentos pela vida, de palavras mal direcionadas, contextos de desânimo e falta de perspectivas podem gerar um ambiente depressivo, de fracasso e profundamente incômodo. Fazer uma boa limpeza em nossas casas ou ambiente de trabalho no aspecto físico é só o primeiro passo para criar um ambiente sadio e um espaço sagrado para quem ali trabalha ou vive. A etapa seguinte é a higienização do campo vibracional dos habitantes e do próprio campo energético do lugar.

Neste trabalho utilizo vários recursos fundamentados em uma visão holística assim como Essências Florais, Óleos Essenciais da Aromaterapia Terapêutica, Cromoterapia e princípios do Feng Shui. Primeiramente, procuro conhecer o local e seus habitantes. Um diagnóstico que conte com a conscientização e ponderação do estado a ser transformado permite avaliar o estado no qual encontra-se o ambiente. Ao tratá-lo, pessoas, animais, plantas e objetos captam essa nova atmosfera vibracional e passam também a ser assistidos pelas propriedades curativas dos instrumentos utilizados em seu campo energético.

A escolha, portanto, das essências florais, dos óleos essenciais, das cores e sons deve ser orientada de modo apurado, para que se alcance o objetivo desejado: alguns são considerados de uso comum para o bem-estar diário, enquanto outras serão determinadas de acordo com o quadro avaliado no diagnóstico.

Assim, considerando a cura dos aspectos físico, emocional, mental e espiritual passamos a uma observação do ambiente físico, tal como faríamos no corpo físico quando apresenta um sintoma: o ambiente pode ser frio demais, ou qu8ente demais, ou ter falta de luz; ter os objetos cheios de pó e esquecidos ali por algum tempo; ter plantas secas ou mortas. O som do ambiente é um convite a ficar ou a sair dele. A sua estrutura está são ou danificada. As cores atribuídas à decoração e os elementos presentes, texturas, nuances e sensações contribuem ou não para o equilíbrio complementar Yin/Yang.

Do mesmo modo, vamos avaliar os sintomas emocionais e mentais do ambiente: é um ambiente no qual há frequentes discussões, tristezas, sofrimentos, mau humor, disputas, ideias e sintomas negativos, pensamentos fixos de revolta, desamor, fracasso vingança? O tipo de atividade ali realizada: trabalho, estudo, alimentação também dá o tom dos aspectos a serem observados. O uso das essências florais e óleos essenciais em sprays é uma forma prática de aplicação. Pode-se borrifá-la pelo ambiente algumas vezes ao dia ou quando necessário. As sugestões do Feng Shui, ativando as áreas indicadas, são utilizadas em paralelo após o mapeamento do local.

Tudo o que nos cerca está ali por alguma razão, por alguma emoção e para ser cuidado por nós. Ao aspergir gotículas das essências florais, emantar um aroma renovador, deixar fluir os sons da natureza ou dar cor a nossos ambientes estaremos impregnando de amor tudo a nossa volta e então poderemos concluir que estaremos mergulhados em um mar de energia e luz!


Texto de Márcia Cristina Fernandes retirado da Revista Vida em Equilíbrio, Edição 6, Casa Dois Editora, São Paulo, Abril de 2002.

25 janeiro 2026

A Força do Equilíbrio

A partir da década de sessenta, a civilização ocidental descobriu a cultura do oriente. Em meio a protestos contra as guerras, queimas de sutiãs em praças públicas e a descoberta da pílula anticoncepcional, incorporamos muitos valores de nossos amigos do outro lado do mundo. O principal deles foi a necessidade do cuidado com o corpo, a mente e o espírito.

Passadas quatro décadas, agora também nos conscientizamos de que a casa onde vivemos também merece cuidados e atenções. Mais do que simples abrigo e local de descanso, o lar reflete de forma clara e inequívoca da nossa personalidade e estilo de vida. Guarda as lembranças de nosso passado e deveria ser o nosso cantinho no mundo, trazendo aconchego e até proteção, não só dos males físicos mas também psicológicos e espirituais.

Todas as culturas apresentam uma série de rituais, rezas e símbolos para proteção e equilíbrio do lar, mas a vanguarda dessas técnicas está nas mãos dos chineses. Há cerca de quatro mil anos esse novo povo vem se dedicando à prática do Feng Shui, cujo objetivo principal é deixar fluir livre e equilibradamente pela casa as  energias positivas que nos trazem saúde, bem estar e prosperidade material e afetiva. São analisados todos os cômodos, cada canto, objeto, cores e  disposição dos móveis.

Terminada a análise, o Feng Shui propõe sempre  soluções simples e baratas, como a instalação de um espelho, uma pequenina esfera de cristal, um sino de vento, um móbile, a troca de um móvel de lugar, um quadro, um vaso de flores, uma cor.

Mais do que atrair bons fluídos para nosso lar, temos todas condições de criá-los no interior do próprio ambiente. O conjunto de pensamentos, sentimentos, estados de espírito, condições físicas, anseios, atos e intenções dos moradores fica impregnado no ambiente, criando o que se chama de egrégora.

Você, com certeza, já esteve numa residência ou ambiente onde sentiu um profundo bem-estar e sensação de acolhimento, independente de beleza, luxo ou qualquer outro fator externo. Essa atmosfera gostosa, sem dúvida, era dada principalmente pelo estado de espírito positivo de seus moradores.

Infelizmente, é muito mais corriqueiro entrarmos em ambientes que nos oprimem ou nos dão a sensação de falta de paz e, às vezes, até de sujeira, mesmo que a casa esteja limpa. A vontade é de ir embora rapidamente, mesmo que sejamos bem tratados.

O que poucos sabem é que as paredes, objetos e a atmosfera da casa têm memória e registram as energias de todos os acontecimentos e do estado de espírito de seus moradores, ficando impregnados com essas energias. Por isso, quando você pensar na saúde energética de sua casa, tome a iniciativa básica e vital de impregnar sua atmosfera apenas com bons pensamentos e muita fé. Evite brigas e discussões desnecessárias.

Observe seu tom de voz: nada de gritos e formas agressivas de expressão. Não bata portas. Tente assumir gestos harmoniosos, cuidando de seus objetos e entes queridos com carinho. Não pense mal dos outros, praga nem pensar! Selecione muito bem as pessoas que vão frequentar sua casa. Festas, brindes e comemorações alegres são bem vindas, porque trazem alegria e muita energia para sua casa. Mas cuidado com os excessos, nada de bebedeiras e muito menos o uso de drogas, que atraem más energias e espíritos de baixo nível.

Se você nutre uma mágica profunda ou mesmo um ódio forte por alguém, corra e procure ajuda para alimpar essas energias densas de seu coração e lembre-se que sua casa também pode estar contaminada. Aprenda a  fazer escolhas e determine o que quer para sua vida e ambiente onde mora. Alegria, amor, paz, prosperidade, saúde, amizade, beleza já estão bons para começar, não é mesmo?


Texto de Vera Caballero retirado da Revista Vida Em Equilíbrio, Edição 02, Casa Dois Editora, São Paulo, Agosto de 2001.

24 janeiro 2026

Regozijemo-nos Sempre (102)

 "Regozijai-vos sempre." - Paulo. (I TESSALONICENSES, 5:16.)


O texto evangélico não nos exorta ao júbilo somente nos dias em que nos sintamos pessoalmente felizes.

Assevera com simplicidade - "regozijai-vos sempre."

Nada existe no mundo que não possa transforma-se em respeitável motivo de trabalho, alegria e santificação.

E a própria Natureza, cada dia, exibe expressivos ensinamentos nesse particular.

Depois da tempestade que arranca raízes, mutila árvores, destrói ninhos e enlameia estradas, a sementeira reaparece, o tronco deita vergônteas novas, as aves refazem os lares suspensos e o caminho se coroa de sol.

Somando o homem, herói da inteligência, guarda consigo a carantonha do pessimismo, por tempo indeterminado, qual se fora gênio irado e desiludido, interessado em destruir o que lhe não pertence.

Ausência continuada de esperanças e de alegria na alma significa evolução deficitária.

Por toda parte, há convites à edificação e ao aprimoramento, desafiando-nos à ação no engrandecimento comum.

Ninguém é tão infeliz que não possa  produzir alguns pensamentos de bondade, nem tão pobre que não possa distribuir alguns sorrisos e boas palavras com os seus companheiros na luta cotidiana.

Tristeza de todo instante é ferrugem nas engrenagens da alma. Lamentação contumaz é ociosidade ou resistência destrutiva.

É necessário acordar o coração e atender dignamente à parte que nos compete no drama evolutivo da vida, sem ódio, sem queixa, sem desânimo.

A experiência é o que é.

Nossos companheiros são o que são.

Cada qual de nós recebe o quinhão de luta imprescindível ao aprendizado que devemos realizar. Ninguém está deserdado de oportunidades, em favor da sua melhoria.

A grande questão é obedecer a Deus, amando-O e servir ao próximo de boa-vontade. Quem solucionou semelhante problema, dentro de si mesmo, sabe que todas as criaturas e situações da senda são mensagens vivas em que podemos recolher as bênçãos do amor e da sabedoria, se aceitamos a lição que o Senhor nos oferece.

Nesse sentido, pois, não nos esqueçamos de que Paulo, o intimorato batalhador do Evangelho, sob tormentas de preocupações, encontrou recursos em si mesmo para dizer aos irmãos de luta: - "Regozijai-vos sempre."


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

23 janeiro 2026

Na Seara da Linguagem

 GRAMÁTICA É UM SABER FALAR, INSTRUÍDO POR UMA TRADIÇÃO. NÃO É A MERA DESCRIÇÃO DA FALA, NEM COMPÊNDIO, MAS UMA TÉCNICA QUE PERMITE A DUAS PESSOAS ENTENDEREM UMA A OUTRO.


É curioso que, sendo a linguagem uma faculdade inerente aos humanos, dela tenhamos ainda um conhecimento muito imperfeito. Quero referir-me à linguagem propriamente dita, e não ao uso do termo em aplicações ou de sentido extensivo, quando nos referimos à linguagem dos gestos, das cores, dos sinais de trânsito e correlatos.

O primeiro engano é o que nos leva a reduzir a linguagem ao domínio da Língua, isto é, penetrar nos domínios da linguagem é limitar-se a saber uma Língua.

Desde cedo, precisamos nos convencer de que não falamos só com a Língua; há a necessidade de cultivar outros saberes, tão importantes e necessários para cumprir a função primeira da linguagem, que é a comunicação entre pessoas, presentes ou ausentes.

Não existe os diferentes saberes um mais importante que o outro, já que todos concorrem para a perfeita comunicação, traduzindo conhecimentos, notícias, desejos, sentimentos, ordens e o que nos vai no espírito e na alma.

Está claro, e os antigos já a punham em primeiro lugar na grade curricular mais antiga do Ocidente - que a  gramática é a que precisamos dominar antes das demais, não porque seja a mais importante, mas sim a que serve de instrumental, de matéria-prima para a exteriorização dos outros saberes. Por gramática não me refiro ao compêndio gramatical, a uma descrição do falar, e sim a uma técnica, a um saber falar, instituído por uma tradição.


Os três saberes

Essa técnica do saber falar é a que se patenteia quando duas pessoas se comunicam mediante sua Língua, independentemente de ela já ter essa técnica descrita num registro gramatical e seu léxico levantado num dicionário. Por isso, é fácil entender que ainda há grande número de Línguas faladas não descritas em tratados gramaticais e dicionários. E enriquece-se esse saber idiomático com a leitura de uma gramática e um dicionário.

Ao lado do saber idiomático, temos de dominar as regras elementares do pensar, e conhecer o mundo em que estamos inseridos, para que possamos falar "com sentido", isto é, com congruência, com articulação do nosso pensamento. Não é por causa do idioma que não precisamos declarar que uma pessoa tem pernas ou duas pernas, pois isso já nos está dado pelo nosso saber do mundo, pelo nosso conhecimento das pessoas de nosso mundo. Ao dizer que vemos uma pessoa com pernas ou com duas pernas não cometemos um erro de Língua, mas algo desnecessário. Já não será desnecessário dizer que vemos alguém com pernas longas, ou curtas, feias ou bonitas, direitas ou tortas, pois as pessoas do nosso mundo apresentam essas diferenças que, numa descrição, precisam ser assinaladas.

Nesse saber entra a nossa cultura geral das coisas, já que falamos sobre algo, ou melhor, sobre algo que conhecemos. E enriquece-se a cultura geral pela leitura e pelo estudo.

Outro saber importante é o saber construir o texto, falado ou escrito. Não basta saber o que dizer nem saber dizer algo com auxílio do idioma; é preciso saber "construir" o texto, isto é, adequá-lo ao assunto, à(s) pessoa (s) a quem se dirige, ao assunto e à situação. Há um texto adequado para falar a crianças e a adultos, há outro para falar numa excursão ou na sala de aula; há outro para falar, ainda que de um mesmo tema, para crianças do ensino fundamental, para jovens universitários, para professores pós-graduados. E enriquece-se esse saber expressivo com a leitura reflexiva dos grandes escritores.


Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 2, Editora Segmento, São Paulo, Outubro/Novembro de 2005.

22 janeiro 2026

A ciência da invenção

 A curiosidade sobre a história das palavras levou a étimos obtidos pela ciência e a suspeitas vindas da cultura, mas é preciso intervir no conflito entre ambas para melhor aproveitá-las


Etimologia é terreno a ser lipoaspirado. Muitas das controvérsias sobre a origem das palavras padecem de o étimo ser visto como patrimônio tributário tanto da ciência como da cultura. O litígio se instala ali onde a verificação não anula necessariamente a imaginação, e quando se sabe que a especulação raramente tem papel mais confiável que o da pesquisa, mas nem por isso é menos significativa.

Parte da semântica, do estudo das significações (no caso, históricas), a ciência etimológica investiga, de forma objetiva, o motivo de uma palavra assumir uma aparência e um sentido numa dada Língua. Essa ciência das origens chegou a um requinte de precisão notável, a uma sondagem cada vez mais próxima da reconstituição refinada e a progressivamente capaz de contornar as debilidades de base contidas em sua amostra.

Os estudos etimológicos conseguiram isso ao priorizarem a explicação fonética por trás das mudanças, e não apenas as formas antecedentes de um vocábulo. Foi preciso muito trabalho suado para isso, cruzando-se informações sobre as características fonéticas, os contextos históricos ou sociais e os intercâmbios diversos mantidos pelos povos. Os avanços, contudo, não tornaram a etimologia especialmente imune a aproximações nem sempre confiáveis e ilações a partir de vestígios frágeis.

Citemos alguns problemas correntes para filólogos e etimologistas profissionais, não meros palpiteiros da linguagem. Embora a base do nosso vocabulário seja latina, suas origens remontam a época anteriores à influência do império romano. E sabemos que, nas Línguas Indo-Europeias, o nome abstrato tem quase sempre origem concreta: de saída, o esforço está em distinguir a realidade das inúmeras camadas de ilusão.

Uma Língua Românica por vezes passa a usar uma palavra de origem latina em um sentido específico, transmitindo-a a outra. O Francês, o Espanhol e o Italiano fizeram muito isso com o Português, papel agora exercido também pelo Inglês. Com relativa frequência, há sobreposição de formas homônimas, mas de étimos diferentes, o que leva a sentidos divergentes. E, não raro, um mesmo étimo traz variantes formais e semânticas. Tudo depende do rumo que tomou e da época em que o termo passou, por exemplo, de uma Língua anterior para outra mais moderna.

Tal caldeirão de gorduras pode confundir o pesquisado e passa ao largo das preocupações do leigo sobre a origem das palavras. É preciso tirar o excesso, lipoaspirar a sobra, não só para fazer ciência mas para aproveitar melhor o que a cultura oferece à trajetória de uma dada palavra.

Os problemas de pesquisa são tão contundentes que fariam esmorecer o pesquisador menos empenhado. Por isso, perdoe Euclides da Cunha, um etimologista é antes de tudo um forte. Sabe que sua procura se apoia em resíduos, o que reduz o ritmo das passadas dadas a cada avanço.

Como, por princípio, não temos acesso à efetiva maneira como as palavras eram ditas e usadas no cotidiano antigo (o chiste anacrônico sobre a falta que fez um gravador digital no império romano), quem se intriga com a trajetória de um termo ou o fluir histórico de uma linguagem se vê obrigado a uma contínua adequação de objetos e métodos..

As relações entre ciência e cultura etimológica têm sido sinuosas e excludentes. Há um saber da ciência que nos vacina de "chutes bem intencionados" sobre o antepassado de uma palavra. Mas há também um saber da cultura que seria uma pena desprezar. Pois há cultura etimológica até em certezas insustentáveis (e alguns chutes descarados) no Crátilo, de Platão, no século 5 a.C.; no Etimologias, de Isidoro de Sevilha (560-636 d.C.); e mesmo em pesquisadores século 20, como o Antenor Nascentes de Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1932) ou o Silveira Bueno de Semântica Brasileira (1965).

Idealizadas com  esforço, mas nem sempre com tanto critério e rigor, suas etimologias não contavam com informações sobre características fonéticas e traços evolutivos dos  idiomas obtidos há relativo pouco tempo pelos filólogos. Quando o faziam, nem sempre cotejavam de forma sistemática o estado de uma Língua ao de outras com que porventura ela tenha, de algum modo, se relacionado.


Sabedoria intelectual

Mas, mesmo em seus delírios mais extravagantes, os pensadores da linguagem projetaram imagens que obedeciam a razões muito particulares. Cada falsa etimologia pode, assim, dizer muito pouco sobre a linguagem, mas pode dizer muito sobre a vida em sociedade que a fez circular, assim como sobre a visão de mundo e o sujeito que a imaginou.

As palavras ganharam muitos sentidos e formas até chegarem a nós, e as usamos com tanta familiaridade que nem prestamos muita atenção nelas. No entanto, essa experiência de mundo acumulada pelas culturas anteriores à nossa está contida nas palavras, em sua trajetória, em sua evolução, nas entrelinhas dos significados mais reveladores, nos detalhes da pronúncia que nos são mais característicos.

Está contida até nas grandes narrativas sobre palavras, ficcionalizadas pelos  antigos, uma sabedoria intelectual que por vezes se consolida como etimologia popular, que não é de ninguém em particular, mas de todos em especial. Uma sabedoria que constitui ela mesma história própria, trajetória de pensar que não faz sombra às descobertas da ciência, mas tampouco deveria ser desconsiderada, sem mais - quando mais instigante seria incorporá-la à trajetória dos conhecimentos acumulados sobre uma dada palavra ou formulação expressiva.

É preciso ciência para nos alertar da etimologia popular, mas também invenção para anestesiar (desculpe o exagero da fórmula) a perda de ilusões pelas conquistas da etimologia científica. Se cada palavra contém um insight sobre a realidade, que terminou incorporado à linguagem de toda uma cultura, mesmo a falsa etimologia se agrega ao "currículo" da palavra, por mais efêmera que tenha sido sua circulação e consistência. Se não deve ser encarada como a "verdade" da história de uma palavra, uma construção cultural pode nos explicar muito do que passou pela mente daqueles que por ela apelam - no limite, pelo que passa por uma comunidade inteira de falantes e usuários de um idioma.


História viva

A cultura etimológica parte de uma inquietação tão antiga quanto recorrente, sobre se é possível entender algo do nosso cotidiano pelo passado das palavras que marcam a  nossa vida. Hoje já se sabe que seria imprudente crer que as palavras não passam de ferramenta da comunicação, quando na prática passaram  séculos de boca a boca, carregando por onde passaram a experiência de povos anteriores, muitos dos quais extintos. A etimologia popular não será jamais capaz de nos convencer de forma consistente ou nos enganar por muito tempo. Mas tampouco a etimologia científica está perto de dar a última palavra.

O estudo da história das palavras se tornou, assim, um campo com história própria, que se pode incorporar à trajetória do vocábulo. O cachorro morde o rabo. Há um tanto de petulância e muito de insolvência sistêmica em tal propósito: o conjunto de elementos conteria o conjunto maior que os incorpora.

Pois a etimologia é muito mais que a busca pela origem de palavras. É talvez a procura, hesitante e por vezes duvidosa, por uma narrativa maior. Não é só a história dos vocábulos, mas da humanidade que se fez linguagem. Por isso, investigar a evolução de um vocábulo talvez seja um caminho mais rico em possibilidades do que resgatar apenas a origem sustentável de um termo - assim como exige confiar no dado provado, que nos vacina do mito etimológico.

A própria ideia de que podemos desvendar uma origem, é preciso relembrar, é ela mesma um mito, e ancestral. A curiosidade que o passado das palavras desperta talvez seja, no fundo, correlata da tentativa de saber o que somos e de onde viemos. E permite mostrar o quanto se vê de modo diferente o mundo se deixarmos a linguagem nos contar um pouco de suas andanças por povos e eras distintas.

Na investigação etimológica, convergem o traço fonético e a afinidade semântica. Porque há leis fonéticas, é preciso ver a relação entre os fonemas de origem e das palavras derivadas. Mas com a rede de significados que afetaram a história de uso e as mutações de uma palavra, não se dá o mesmo. Desconhecer a cultura (de outros povos e do nosso)  mina o projeto de almejar o sentido e a evolução de uma palavra.


Leis e ordens

As mutações fonéticas ocorrem de forma até regular, mas as semânticas não, seguem rumos não raro imprevistos. Os filólogos Kurt Baldinger e Bruno Fregni Basseto (este da USP, autor de Elementos de Filologia Românica, prêmio Jabuti em 2002) professaram em mais de uma ocasião a necessidade de, em lugar de verbetes com datas e étimos frios, os etimologistas criarem genuínas biografias das palavras, que focassem tais trilhas imprevisíveis. O futuro dos estudos etimológicos é buscar não só as origens, mas a trajetória que torna um vocábulo vivo para a cultura. E isso implicará resgatar as pegadas dessa trajetória, alertando para os passos dados com informes seguros ou infundados.

O resgate da etimologia para a vida cotidiana é talvez o caminho mais fértil para uma tomada de consciência sobre a nossa Língua, convém sempre repetir. Se soubermos o que repetirmos do passado ao nos expressar, talvez percebamos que o mundo nem sempre foi assim e não há motivo para mantê-lo como é.


Texto de Luiz Costa Pereira Júnior retirado da Revista Língua Portuguesa Especial Etimologia, Editora Segmento, São Paulo, 2011.

21 janeiro 2026

Para ler um outro mundo

 PROCURAR A TRAJETÓRIA DAS PALAVRAS É ESTABELECER RELAÇÕES DE SENTIDO ESTIMULANTES COM TUDO O QUE SE LÊ


Ler bem é ouvir o que as palavras nos dizem. E, para ouvi-las melhor, um dos recursos é a etimologia.

O que dizem as palavras quando as despimos, quando perscrutamos seu passado, suas reentrâncias, seu parentesco? Não dizem tudo, é verdade. Sempre falta à palavra outra palavra que a complemente e que a explique. Nathalie Sarraute, no livro O Uso das Palavras, imagina as palavras produzindo inúmeras ondulações. Captar essas ondulações, ler as entrelinhas, e as entreletras, é instrutivo, divertido e trabalhoso. Captá-las com outras palavras é o exercício de quem quer ler para valer. Tal esforço se renova infinitamente.

Como defendia Mário de Andrade, quem lida com palavras lida com elementos de consciência. Nas palavras, tomamos ciência e consciência do que somos, do que pensamos, do que pensam os outros, do que os outros são. Na leitura que ouve com atenção, as palavras iluminam nossa consciência. Mas pouco dizem os dicionários sobre o que as palavras dizem! Por isso os exercícios etimológicos atraem a atenção dos que esperam, em sua convivência com a linguagem, algo mais do que definições convencionais.

Palavras as mais desbotadas podem recuperar seu brilho e contundência. A palavra "importante", por exemplo. Uma palavra tão corriqueira é muito mais sugestiva do que pensamos. "Importante" ganha grande importância e nos aguça a consciência quando a ela associamos a ideia de "importação". Importare, no latim, é trazer de fora para dentro, trazer para si o que interessa é "comprar" o que consideramos

O escritor, o professor, o comunicador exportam. E, se exportam o importante, as pessoas se interessam! Recuperar o colorido da palavra "importante" é redescobrir o que diz a palavra, mesmo quando já emudecemos para ela. Ou melhor, dialogando com a palavra ouviremos o que ela diz... ou apenas sussurra. Mais ainda: suscitaremos que ela diga outras coisas importantes.

Nossas leituras podem ser mais criativas se, entre outros recursos, empregarmos com mais frequência esse instrumento que busca o étimo, garimpando, tocando os vestígios que remontam à origem. Lembrava o medievalista Étienne Gilson: "Na origem sempre reside o mistério." E o mistério (como explicam os etimólogos) é aquilo que se encontra silenciado (ou silencioso...), e requer um rito iniciático para ser conhecido.

Etimologizar no ato da leitura é iniciar-se nos mistérios da palavra, descerrar os lábios das palavras para ouvir seus sagrados segredos. A etimologia contribui para revelar o velado, descobrir o coberto. O leitor empenhado em procurar a origem das palavras poderá estabelecer relações de sentido estimulantes!


Perguntas sem resposta

Vamos à crônica de Clarice Lispector Eu sou uma pergunta, do livro A Descoberta do Mundo. São inúmeras interrogações sem resposta: "Por que escrevo?", "por que minto?", "Por que digo a verdade?", "Por que há o infinito?", "Por que há o tempo?", "Por que há uma galinha?" - e as perguntas de fundo são: o que significa ser um ser que vive a perguntar?

A pesquisa sobre as origens da palavra "pergunta" remete a praecuntáre, do latim popular, proveniente do clássico percontáre, referindo-se por sua vez a contus. Contus era uma vara, bastão ou lança com inúmeras utilidades. Poderia servir como arma de combate ou instrumento de caça, mas também para finalidades menos agressivas. O contus era usado pelo mestre de qualquer tipo de embarcação para ir tocando o fundo de um rio a fim de evitar o encalhe. E era utilizado pelos cegos. Em geral um bastão vigoroso, com ele os cegos podiam sondar o entorno para evitar obstáculos, buracos e encontrar seu rumo.

O prefixo "per-" indica movimento para todos os lados, como em "perquirir" (buscar com cuidado, procurar por toda a parte). Tanto o barqueiro como o cego lançam mão do contus para descobrir perigos e definir trajetos. Precisam conhecer o que existe ao seu redor e à sua frente. Perguntam porque desconhecem.

Deduzo que Clarice se vê como alguém que pergunta porque caminha e necessita caminhar. Ela é a própria pergunta em busca de seus caminhos. Mas quem pergunta admite não ver. E quem não vê pode tropeçar, encalhar, espatifar-se. Perguntar, ato de humildade, curiosidade urgente. Habitantes num mundo repleto de obstáculos e perigos, nossa função primordial é essa: perguntar sobre a realidade circundante

E não só a que nos circunda, mas também a que nos constitui. Ao  perguntar, e perguntar-se - "Por que escrevo?" - a escritora investiga sua própria essência, indaga a respeito da sua "navegabilidade" nos rios e mares da escrita. E assim, o texto de Clarice deixa de ser um rol de perguntas mais ou menos interessantes. Torna-se, à luz da etimologia da palavra "pergunta", um visível esforço por ver o invisível.


Pergunta viva

Afirmará alguém que a autora do texto  não tinha em mente a origem das palavras e a leitura pode ser mais fantasiosa do que rigorosa. No entanto, está aqui, precisamente, a força da consciência etimológica. O leitor interroga-se sobre significados e sentidos que a palavra ainda carrega em suas camadas, conheçamos ou não o teor dessa preciosa presença.

Mergulhando nessas camadas verbais, o leitor se dá conta de que ninguém escreve impunemente. As mutações sofridas pela palavra, no plano fonético e semântico, não aboliram as motivações profundas do seu surgimento. Embora "perguntar" nada mais tenha a ver com a materialidade de um bastão, esse bastão interrogante encontra-se, por assim dizer, embutido no verbo.

A propósito, o leitor que pesquisa a origem etimológica das palavras é também ele uma pergunta viva. Com seu bastão etimológico, envereda pelos caminhos que as palavras percorreram antes de chegar até nós. Atravessa as planícies dos idiomas modernos, entra na floresta do latim medieval, escala as montanhas do idioma grego, bebe na fonte do indo-europeu.

A etimologia como instrumento de leitura permite interpretar com novos olhos as palavras mais "inocentes", pois inocente nenhuma palavra é.


Texto de Gabriel Perissé, retirado da Revista  Língua Portuguesa Especial - Etimologia, Ano 1, Editora Segmento, São Paulo, Janeiro de 2006.


A leitura que não lê

A ideia do ato de ler para além da superfície do texto está expressa na própria evolução das palavras "ler" e "leitura". Legere, ancestral latino do verbo "ler", significava "colher" frutos nos mais remotos registros da antiga Roma. Várias palavras ligadas a "ler" denunciam sua origem agrícola. O verbo colligere descreve a ação de coletar e resumir ao mesmo tempo, reunir em coleção, e nos legou "coligir".

Entre o ato de ler e a leitura, no entanto, há uma sutil distância etimológica. "Leitura" surgiu já quando o sentido de ler passou a ser a ser o de percorrer, por meio da vista, algo escrito. "Ler" um texto, não colher uma hora, está registrado em Português desde o século 13. A palavra "leitura" surgiu, assim, do latim tardio lectura (comentário), veio do latim clássico lectio, lectionis, o derivado de legere, que deu em "lição" (no século 13 tinha a forma "liçon", em Português).

Ler é colher com os olhos, é capturar com a vista. A leitura seria um ato além, o de comentar. Há quem leia sem fazer, de fato, uma leitura, sem usar o ato de ler para captar as possibilidades do texto. A execução privada do ato de ler, a leitura seria então de algum modo diferente de ler, exigiria uma conduta mais ativa, enfatizando a autonomia de quem lê. (Luiz Costa Pereira Júnior)

20 janeiro 2026

Com a casa poluída

Quando descobrem uma nova espécie de animal ou planta, os pesquisadores costumam dar a ela um nome associado às características físicas que a espécie apresenta ou homenagear quem a descobriu, ou, ainda, reverenciar alguém famoso no trabalho com aquele tipo de ser vivo. No caso do cágado-de-hogei (pronuncia-se "róguei"), vale a terceira opção. O nome reverencia o belga Alphonse Hoge, um herpetólogo - isto é, um especialista em anfíbios e répteis - famoso em sua área de pesquisa.

O cágado-de-hogei diferencia-se dos demais por ter a cabeça pontiaguda de cor marrom na parte superior e creme, na parte inferior. A carapaça, como é chamada a parte de cima do casco, também é marrom e um pouco achatada. Já o plastrão, a parte de baixo do casco, é amarelo com manchas em tom ferrugem.

Outra característica marcante do cágado-de-hogei são as unhas, usadas para escalar as bordas do rio. Até hoje, o animal só foi encontrado em rios que ficam a até 500 metros de altitude, localizados na bacia do rio Paraíba do Sul - do estado do Rio de Janeiro ao sul de Minas Gerais - e também no Espírito Santo, na bacia do rio Itapemirim.

E o que come um cágado? Bem, essa espécie é onívora, isso significa se alimenta tanto de animais quanto de vegetais. Seu cardápio inclui vermes, insetos, moluscos, frutos e verduras encontrados pelo animal na vegetação que existe ao longo das margens dos rios.

Mas em que meses o cágado-de-hogei costuma se reproduzir? Quantos ovos põe a fêmea desse animal? Em que locais os ovos são colocados? Quem são os predadores da espécie? Quanto tempo vive esse réptil? Infelizmente, essas perguntas ainda não puderam ser respondidas pelos pesquisadores por causa da dificuldade que têm de encontrar o cágado-de-hogei para estudar.

O pior é que a espécie agora está ameaçada de extinção e o motivo é a destruição do seu habitat pelo homem. O desmatamento das matas ciliares - aquelas ao longo dos rios, onde o animal busca alimento - e a poluição das águas com o despejo de substâncias tóxicas das indústrias e de esgoto não tratado podem levar o cágado-de-hogei a desaparecer. Reverter essas ações é o que se pode fazer para que essa e outras espécies de cágados continuem existindo.

Nome científico: Phynops hogei

Nome popular: cágado-de-hogei

Tamanho: até 34 centímetros de carapaça

Habitat: rios localizados até 500 metros de altitude nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.


Texto de Henri M.A. Mendes e Monique Van Sluys - Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Retirado da Revista Ciência Hoje para Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

19 janeiro 2026

Por que o ouvido produz cera?

Amigas da aparente limpeza, as hastes flexíveis podem ser arqui-inimigas da sua saúde auditiva. Por quê? Porque a cera produzida pelas chamadas glândulas ceruminosas não é sujeira, é proteção!

A cera é produzida pelo ouvido para impedir que partículas estranhas e micro-organismos entrem no canal auditivo e causem infecções. Ela também protege o revestimento desse canal - que é a porta de entrada dos sons que ouvimos.

Em geral, o ouvido cuida da sua própria limpeza. Quando há um excesso de cera, ele trata de expulsar. Logo, é só a cera que vemos do lado de fora da orelha que devemos limpar, mas... Com todo o cuidado!

Quem usa hastes flexíveis ou outros tipos de instrumentos prejudica a autolimpeza do canal auditivo. Aliás, muitas vezes esses instrumentos até empurram a cera para dento do canal e isso faz com que ela se acumule. O resultado pode ser uma otite, isto é, uma dor de ouvido resultante de uma infecção.

Mas é bem verdade que assim como há pessoas que transpiram mais do que outras, há aquelas que produzem uma quantidade de cera além do normal. Em alguns desses casos, é necessário que o médico que o médico otorrinolaringologista - especialista em ouvido, nariz e garganta - realize a lavagem do canal auditivo.

A limpeza consiste em injetar água dentro do canal usando uma seringa metálica. Não precisa se espantar porque não dói nada. Esse procedimento é muito importante, pois o excesso de cera pode se transformar num obstáculo à passagem das ondas sonoras e provocar a diminuição da audição.

Com os ouvidos obstruídos pelo excesso de cera, a pessoa tem dificuldades de entender palavras faladas com fraca intensidade, ou seja, em volume baixo. Às vezes, mesmo as palavras faladas em intensidade de uma de uma conversação normal podem não ser totalmente compreendidas. Isso acontece porque o nosso idioma - o Português falado no Brasil - possui sons, como os do 'v', do 'f', do 'b' e do 'p', que são de fraca intensidade.

Entender todos os sons do idioma com perfeição é muito importante, principalmente para as crianças. Afinal, aquilo que ouvimos interfere diretamente no nosso rendimento na escola.


Texto de Carla Queiroz e Carlos Augusto Ferreira de Araújo - Escola de Reabilitação, Universidade Católica de Petrópolis. Retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 14, Número 115, Julho de 2001.

18 janeiro 2026

Idioma e Identidade

Na clássica história de Babel o que mais chama a atenção é, claro, a confusão dos idiomas que se instala quando Deus pune este projeto arrogante. O que fica num segundo plano é o projeto propriamente dito, o projeto da torre. É a materialização de uma blasfêmia, como a Bíblia bem claro, mas é, reconheçamos, um projeto arrojado e que, aparentemente, unia toda a humanidade. Concluída, a torre de Babel representaria uma mensagem universal, uma mensagem que todos os  homens entenderiam. Mensagem abominável, do ponto de vista de Jeová, mas mensagem, de qualquer modo, como é mensagem todo monumento. Essa mensagem unificadora nunca foi concluída, por causa exatamente do caos linguístico; e foi então substituída por um novo projeto comum, menos ambicioso e mais lógico; o projeto de um idioma universal de que o Esperanto do doutor Zamenhoff é o grande exemplo.. Dito projeto não chegou a decolar, mas caracterizou como válida a aspiração humana de união. De fato, unidade e diversidade são dois polos da nossa sociedade cotidiana, como o são a globalização e a regionalização. Correspondem a duas necessidades básicas da pessoa, a necessidade de uma identidade pessoal e grupal e a necessidade de dissolver-se no todo em que se constitui a condição humana.

O Brasil é um exemplo disso. Por causa de sua extensão classicamente é conhecido como um país continental. E, sendo do tamanho de um continente, poderia ter vários idiomas, como acontece em regiões, aliás muito menores, da Europa. Não, o idioma é um só. Mas é um só diferenciado de acordo com as regiões. O linguajar do gaúcho é muito diferente do linguajar do nordestino, ou do paulista, ou do carioca. Dei-me conta disso quando escrevi o prefácio para um livro de contos do grande escritor rio-grandense-do-sul Simões Lopes. Quando recebi da editora o livro, fiquei impressionado com o tamanho do glossário, que daria até um volume à parte. O que é explicável: pouca gente fora do Rio Grande do Sul sabe, por exemplo, o que é um tirador, aquele avental de couro que o gaúcho usa para conter a rês. E, pouca gente usa o "tu" como pronome da segunda pessoa.


O Efeito TV

A situação poderia permanecer assim por muito tempo, talvez indefinidamente. Mas então surgem as redes de TV, e o Brasil, de sul a norte e de leste a oeste, começa a ouvir um idioma único. O resultado é a homogeneização, que chega a todo o país e põe em xeque as nuances regionais.

No Rio Grande do Sul o "tu" começa a dar lugar ao "você", primeiro nos programas de rádio e TV, logo na conversa informal. O "tu" ainda permanece nos lares e nos bares, mas quem sabe por quanto tempo? E quem imaginaria, por outro lado, a quantidade de anglicismos que, por causa do papel hegemônico dos Estados Unidos, tem penetrado na linguagem corrente?

Caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos do idioma, como caprichosos e à vezes imprevisíveis são os caminhos da humanidade, que ora levam à identidade individual/grupal ora à identidade universal. E caprichoso e imprevisível é o destino dos projetos nessa área. Os construtores da torre de Babel que o digam.


Texto de Moacyr Scliar retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

17 janeiro 2026

Cortina do Eu (101)

 "Porque todos buscam o que é seu e não o que é do Cristo Jesus." - Paulo. (FILIPENSES, 2:21)


Em verdade, estudamos com o Cristo a ciência divina de ligação com o Pai, mas ainda nos achamos muito distantes da genuína comunhão com os interesses divinos.

Por trás da cortina do "eu", conservamos lamentável cegueira diante da vida.

Examinemos imparcialmente as atitudes que nos são peculiares nos próprios serviços do bem, de que somos cooperadores iniciantes, e  observaremos que, mesmo aí, em assuntos da virtude, a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente enorme.

A antiga lenda de Narciso permanece viva, em nossos mínimos gestos, em maior ou menor porção.

Em tudo e em toda parte, apaixonamo-nos pela nossa própria imagem.

Nos seres mais queridos, habitualmente amamos a nós mesmos, porque se demonstram pontos de vista diferentes dos nossos, ainda mesmo quando superiores aos princípios que esposamos, instintivamente enfraquecemos a afeição que lhes consagrávamos.

Nas obras do bem a que nos devotamos, estimamos, acima de tudo, os métodos e processos que se exteriorizam do nosso modo de ser e de entender porquanto, se o serviço evolui ou se aperfeiçoa, refletindo o pensamento de outras personalidades acima da nossa, operamos, quase sem perceber, a diminuição do nosso interesse para com os trabalhos iniciados.

Aceitamos a colaboração alheia, mas sentimos dificuldade para oferecer o concurso que nos compete.

Se nos achamos em posição superior, doamos com alegria uma fortuna ao irmão necessitado que segue conosco em condição de subalternidade, a fim de contemplarmos com volúpia as nossas qualidades nobres no reconhecimento de longo curso a que se sente constrangido, mas raramente concedemos um sorriso de boa-vontade ao companheiro mais abastado ou mais forte, posto pelos Desígnios Divinos à nossa frente.

Em todos os passos da luta humana, encontramos a virtude rodeada de vícios e o conhecimento dignificante quase sufocado pelos espinhos da ignorância, porque, infelizmente, cada um de nós, de modo geral, vive à procura do "eu mesmo".

Entretanto, graças à Bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem, na experiência do corpo e além dela, arrebatando-nos aos vastos continentes, pouco a pouco, a buscar o que pertence a Jesus-Cristo, em favor da nossa verdadeira felicidade, dentro da glória de viver.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

16 janeiro 2026

O diminutivo que aumenta

 O USO DO ADJETIVO SUPERLATIVO PODE TER PROLIFERADO POR CAUSA DE NOSSA HERANÇA BANTA


O diminutivo virou uma espécie de divisor de águas para o brasileiro. Em Portugal, onde a ambiguidade linguística tem menor voltagem e toda conversa arrisca-se a seguir o pé da letra, as pessoas tendem a flexionar o grau do substantivo com a consciência de que pão é pão, queijo é queijo - posto evidente que um diminutivo serve é para diminuir e um aumentativo, para aumentar. Leva-se talvez mais à risca a definição usual do diminutivo, a de um grau do substantivo que deixa implícita a ideia de uma dimensão. Além-mar a ênfase é outra. Quando convém, o diminutivo funciona como aumentativo no Brasil. Porque exploramos como ninguém o uso dos adjetivos com flexão típica do diminutivo, mas função superlativa, como se vê abaixo:

"Café Quentinho" - Aquele com o máximo de calor possível

"Menino Bonzinho" - Um verdadeiro poço de bondade

"Cerveja Geladinha" - A bebida quase no ponto de congelamento


Quando deus é diminutivo

Banto é o conjunto de 400 idiomas da família nigero-congolesa, como o quimbundo de Angola, a que mais influenciou o Brasil. As Línguas Bantas estão na África ao do Saara, entre a linha que liga o Golfo da Guiné à foz do Juba (Somália) até o Cabo.

Os africanos subsaarianos usam muito os prefixos. Chega a ser considerada uma de suas maiores características gramaticais. Eles dividem os substantivos em cerca de dez classes. Toda mudança que ocorre com nome ou verbo é indicada pelo prefixo.

A primeira sílaba classifica a palavra: remete a expressão a uma categoria da realidade (diz se um termo vai batizar gente, bicho, ser sobrenatural, se é objeto pequeno, qual o tempo verbal etc). Singular e o plural são definidos pela mudança de prefixo: "mu-" é singular e "ba-", plural, como mucongo, membro da etnia conga (plural bacongo).

Seria comum numa Língua Banta o diminutivo ser usado para aumentar a propriedade de um palavra. Das designações de "Deus" (Ruhanga - o criador, Leza - o todo-poderoso, Molino - o espírito), há Kalunga ou Calunga, pela grafia oficial do Brasil. Pertence à décima classe de palavras, a dos diminutivos "ca-". Significa deus, "aquele que por excelência junta". No Brasil, virou até nome de rede de papelarias, com "K".

Deus, da ordem dos diminutivos? Faz sentido, se pensarmos a lógica dos povos que ocuparam as senzalas nos tempos da escravidão.


Calunga

É deus e é diminutivo.

Na mitologia subsaariana, o Criador não tinha o prestígio que lhe dá a tradição judaico-cristã. Nem bem criou o mundo, entregou-se aos seus filhos divinos e aposentou-se. Cada filho é ancestral fundador das linhagens Bantas. Daí ser rara a devoção coletiva ao deus único. Em geral, o culto é aos espíritos secundários.

Para os bantos (ou mesmo não-bantos, como os iorubas da Nigéria que ocuparam a Bahia), a linhagem é tudo - as ancestrais perduram nos vivos e a reencarnação ocorre no clã, o avô reencarnado no filho e nos netos - até quando ainda vivo. Entre os balubas, a palavra "morrer" é usada para todo objeto. Se pratos se quebram, rios secam ou árvores caem, se não há mais remédio ou retorno à condição de plena existência, os balubas dizem que pratos, rios e árvores "morreram".


O Povo Banto

A palavra "banto", como conhecemos, estreou com o antropólogo W. H. I. Bleek (1827-1875). Significa "povo". Não se refere a uma unidade racial. Séculos de movimentações, guerras e doenças originaram uma variedade de cruzamentos em quase 500 povos diferentes, que mantiveram as suas raízes comuns, apesar de tudo. Banto não é, pois, uma raça, mas uma comunidade com hábitos culturais e dialetos tão parecidos que sua semelhança só faz sentido se houver raiz comum. Todos usam, por exemplo, o radical "-ntu" (munto no singular e banto no plural) para denominar a pessoa, o ser humano. Por isso, essas Línguas foram batizadas de Banto. Invenção de linguistas ocidentais.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

15 janeiro 2026

O idioma que invadiu o Tupi

 COMO COLONIZADORES MUDARAM SONS E SENTIDOS DAS LÍNGUAS NATIVAS


O Brasil tem cerca de 180 Línguas nativas que ainda são usadas. Já foram mais de 1.200 no século 16. Aquilo a que chamamos Tupi era a base comum de diferentes dialetos indígenas do Maranhão ao Paraná nos primeiros séculos do Brasil. Os tupis se fixaram nas matas brasileiras vindo do sul do continente em grandes movimentos migratórios. Já as nações Jês foram empurradas para o interior e só se relacionaram com os portugueses no ciclo da mineração do século 17. Bem mais recente é o contato branco com tribos da Amazônia, com os Aruaques, os Caribes e comunidades isoladas, como os Tucanos e Guaicurus.

Os Tupis da costa brasileira formavam um grupo de hábitos culturais comuns e fala homogênea. Esse Tupi litorâneo dos primórdios de Tupi antigo, da conquista. Até o século 18, essa base Tupi seria filtrada pelos catequistas, mamelucos e bandeirantes, o chamado médio Tupi. Hoje, a Língua falada por caboclos amazonenses e tribos isoladas é considerada Neotupi ou Tupi Moderno - não é mais o que os jesuítas ouviram, nem o que os bandeirantes falavam aos quatro cantos em que passaram.

O Tupi reinava nos primeiros séculos de Brasil. Deu a primeira unidade nacional até o século 17. Numericamente inferior e tendo de relacionar-se e tocar negócios com os índios, o colonizador passou a usar Tupi, mas ao seu modo. Os invasores europeus passaram a usar um dialeto prático para a comunicação imediata, misto de Português e Tupi, o Tupinambá, Língua geral, brasílica ou nheengatu. Índias casadas com brancos não eram alfabetizadas, mas suas crianças ficavam expostas à Língua materna. No século 17, acredita-se que só dois de cada cinco moradores da cidade de São Paulo (SP) falavam Português. Segundo o professor da Universidade de São Paulo Bruno Bassetto, autor de Elementos de Filologia Românica, em meados do século 18 só um terço da população usava o Português e todos eram bilíngues. Os colonizadores do Império só se impuseram no litoral em fins do século 17 e no interior, já no 18.

Ao adotar o nheengatu como Língua, o Português operou sobre o tupi como superestrato (em que o povo dominante adota a Língua do dominado). Ao fazer isso, a invasão portuguesa usurpou parte da individualidade das Línguas nativas. Houve, por exemplo, influência semântica do Português sobre o léxico indígena, anota Luiz Caldas Tibiriçá, em seu Dicionário Tupi-Português. O Tupi era veículo da civilização, mas seu vocabulário não deu conta de conceitos e sons que os colonizadores trouxeram às aldeias.


Palavras tupis de origem portuguesa: 

Pana: Os tupis tomaram do Português o termo "pano" para nomear os tecidos que cobriam a nudez lusitana, uma novidade para quem andava pelado.

Jabota: Fêmea do jaboti na Amazônia, é uma palavra tupi que surgiu após a colonização, por influência portuguesa.

Sapoti: O fruto do sapotizeiro, ou sapota, foi trazido pelos portugueses das Antilhas, cujo nome mexicano é tzapoit.

Paissandu: Neologismo guarani criado pelos jesuítas e difundido junto aos tupis. Vem de "pai-sandu" (padre santo).


O Cristianismo trouxe novas pronúncias aos idiomas nativos

Com a chegada do colonizador e da cristianização, os índios tiveram contato com sons que desconheciam, que ecoavam nas palavras portuguesas.

Na conquista de nativos para o rebanho, os jesuítas adaptaram a fonética tupi aos sons trazidos pelos portugueses. Faltavam ao tupi s, z, l, v, f, rr e os grupos com sílabas líquidas (como cl e pl)

A líquida tupi tornou-se um /r/ Português, em oposição com /l/. Os índios dos primeiros anos de colonização diziam, por exemplo, "cabaru" (em lugar de "cavalo"), "chabi" (não "chave"), "papera" (papel) e "ribru" (livro).

Muitas vogais passaram a soar Portuguesas e sumiram consoantes pré-nasais (/mb/ e /nd/ passaram a oral e nasalaram a vogal seguinte, como é o caso do termo "tamanduá", que vem do guarani ta-mondahá, ladrão de formigueiros).

Nas formas verbais, o tupi ganhou as noções de tempo futuro, de modo subjuntivo e outros. O som "on" foi afetado pelo "-ão" Português. Foi assim que "maranhon" transformou-se em "Maranhão", por exemplo.


O rio do diabo

Os pregadores da Companhia de Jesus adaptaram muitas palavras dos nativos para poderem catequizá-los. Houve imenso esforço de acomodação semântica (as adaptações de sentido) para converter o tronco linguístico Tupi-Guarani aos mistérios da fé.

Um termo usado pelos índios ganhava sentido católico e perdia raízes. Tupã ("gênio do trovão", entidade secundária) virou "Deus" e tupambaé ("coisa de Deus", as terras coletivas das missões). É o caso de anhangá. O que era considerado um "espírito com poderes" virou sinônimo de demônio.

Como escreve Sérgio Corrêa da Costa, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de Palavras Sem Fronteiras, era "imperativo" que o "deus" dos guaranis fosse um grande mágico e herói civilizador, em muito superior aos pajés e aos homens-deuses das tribos.

Desde então, quando se quer traduzir anhangabaú, o consagrado é "o rio do espírito das diabruras, do malefício", água do rosto do diabo. Na região hoje ocupada pelo Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP), havia de fato um rio. Não se sabe se o lugar ganhou o nome dos índios. Se o foi, um rio chamado Anhangabaú não teria conotação demoníaca. Se foi batizado após a conquista, é possível que tenha sido associado à transmissão de doenças (daí "rio do diabo").


A lânguida resistência cultural na América hispânica e portuguesa

Entender a Língua dos índios e adaptar conceitos para promover o cristianismo nos trópicos não foi suficiente para os jesuítas portugueses e espanhóis serem assimilados. Encontraram muita resistência pela frente. Eles precisavam procurar os detalhes, as nuances e as expressões que evidenciassem a superioridade católica. Nem sempre conseguiam.

Uma manhã, conta Sérgio Corrêa da Costa, os caciques dos charruas procuraram o missionário de plantão para dizer que não queriam nada com um Deus que "vê tudo e sabe tudo o que nós fazemos". E foram embora, deixando o jesuíta com cara de bobo. Com sincera surpresa e muitas risadas, os índios da fronteira do Brasil com o Paraguai se deram conta de que estavam fadados ao inferno, quando foram os brancos que mataram Jesus Cristo. O crime não era deles, afinal. E quando alguns tupis e guaranis descobriam que, após a morte, os portugueses e espanhóis também iriam para o céu, perdiam o interesse na ressurreição. Não queriam tal companhia por toda a eternidade.


Texto sem autoria identificada (possivelmente, deve ser criação coletiva) retirado do Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

14 janeiro 2026

As muitas vidas da palavra lusitana

                     IDIOMA TRADUZ VISÃO DE MUNDO QUE O POVO PORTUGUÊS          ESPALHOU AO LONGO DO TEMPO PELOS QUATRO CANTOS DO PLANETA E PELAS DIVERSAS CULTURAS QUE DOMINOU


Um idioma é depósito de um povo. Mas poucas Línguas ocidentais parecem ajustar-se tão bem quanto a Portuguesa ao papel de retrato falado das características de um cultura.

O povo português nasceu de misturas muitas. Sua tradição foi a de integrar-se à paisagem, aos climas, às crenças e aos povos que dominou. E o fez sem maiores tremeliques. Como lembra Ângela Dutra de Menezes, em O Português Que Nos Pariu (Relume Dumará), a Língua Portuguesa preserva a individualidade de um povo aventureiro, que circulou a África, chegou à China e ao Japão, avançou pela Índia e pela América. No auge da epopeia ultramarina do século 16, Portugal era um país pouco povoado - 1 milhão de habitantes na época do descobrimento do Brasil. Aderiu ao luxo da mistura muito mais que outros europeus para dominar colônias mais populosas que ele.

Assim, o descendente dos portugueses "aprendeu o amável jeito de olhar além da pele", mas "descobriu a hipocrisia, excelente aliada se a maior necessidade é tentar sobreviver", diz Ângela. É um tipo europeu que se acostumou a firmar a própria identidade a cada adversidade. Gente impetuosa diante dos chamados de além-mar, melancólica por causa de sua aventura, mas enfática, de quem não dá viagem perdida - não por acaso, foi a primeira a declarar-se nação independente na Europa. Esse mesmo português aprendeu as necessidades de ser cético, sonso e maleável diante dos contratempos, afinal, "em excesso de verdades constitui tolice acreditar numa só".


Características

O Idioma Português atua como um reservatório dessa identidade, maleável e também categórica. Põe à disposição do usuário duas formas de futuro subjuntivo ("quando eu for", "quando eu quiser ir") e uso de pronomes entre o verbo principal e o auxiliar ("hei de lhe oferecer" - isso, no Brasil).

Ao usar o pretérito, mais firme é o modo como o Português afirma sua diferença. "Enquanto outras linguagens equilibram dois verbinhos até para descrever os eventos corriqueiros, a Língua Portuguesa é incisiva: 'eu viajei' no lugar do cansativo 'eu tinha (havia) viajado'", diz a autora.

Hernani Donato, autor do insert sobre a Língua Portuguesa no livro A aventura das Línguas, de Hans Joachim Störig, deixa evidente que o professor alemão encarou como dificuldades do Idioma Português muito do que nos é característico. Störig se revela surpreso com o número de vogais e ditongos pronunciados com voz nasal, com terminação em "-ão", nasala vogais antes de outras vogais, e com a sílaba tônica acentuada de maneira tão forte que as outras sílabas parecem cochichadas dentro da palavra, o que faz as vogais não acentuadas mudarem de timbre. É o ser Português falado por sua Língua: musical e afirmativo.

Ao se reproduzir no outro lado do Atlântico, o falar Português se abrasileirou. Ganhou outras flexões, textura própria, nova música. "No Brasil fala-se Português com açúcar", diria Eça de Queiroz. Por um triz, não virou dialeto. Talvez seja questão de tempo. Para Antônio Cândido, a Língua Portuguesa não perdeu na América nada de "seu caráter grave, nem a têmpera máscula, nem o tom de funda melancolia". De quebra, ganhou suavidade e ternura.

Os portugueses deixaram entre nós sua herança, sua Língua. Com ela, tudo  o que a cultura lusa é e significa.


A maior palavra:

"Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico"

Essa vai ser difícil de exportar. Até prova em contrário, a maior palavra da Língua Portuguesa é uma expressão médica, muito rara no Brasil. Com 46 letras, descreve o estado de quem sofre uma doença causada pela aspiração de cinzas de um vulcão.

Deixou as 29 letras de "anticonstitucionalissimamente" a comer sabão.


Texto sem autoria (deve ser criação coletiva) retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1, Editora Segmento, São Paulo, 2005.

13 janeiro 2026

Concreto e Abstrato

COMPOSITORES COMO GILBERTO GIL E POETAS COMO JOÃO CABRAL DE MELO NETO MOSTRAM QUE NEM SEMPRE É FÁCIL DISTINGUIR UM SUBSTANTIVO DE OUTRO


Referindo-se a América, poema de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto exaltava o que lhe parecia essencial no fazer poético: a concretização do abstrato e a abstratização do concreto. O mestre  pernambucano exemplificava sua afirmação com este trecho: "Só o primeiro cão, / em frente do homem /  cheirando o futuro". Para Cabral, "cheirar o futuro" era a exata dimensão da concretização do abstrato.

Um dia, numa das "inesquecíveis" aulas sobre as classificações do substantivo, aprendemos na escola que "concreto dá pra pegar; abstrato não dá pra pegar". E começa a confusão: Deus é concreto ou abstrato? E fada? E saci? E luz? E alma? E isso? E aquilo? E nada! Abismo. Mistério. Não foi à toa que Drummond terminou seu célebre poema Aula de Português com estas palavras: O Português são dois; o outro, mistérios." O outro Português é o da aula de Português, o da aula de Gramática.

Ao tratar do capítulo da classificação dos substantivos, os queridos colegas talvez não precisassem chegar ao ponto de citar o pensamento de Cabral, quiçá muito profundo para mentes, corações e espíritos jovens, mas poderiam fazê-lo (aos jovens) ouvir (e ler e entender) a memorável Rebento, de Gilberto Gil. Diz a canção: "Rebento, substantivo abstrato / O ato, a criação, o seu momento (...) / Rebento, tudo que nasce é rebento / Tudo que brota, que vinga, que medra / Rebento raro como flor na pedra / Rebento farto como trigo ao vento."

Pensando bem, parece que Gil segue os passos sugeridos por Cabral. Substantivo abstrato (já que designa "o ato de rebentar" - um dos valores dos abstratos é justamente o de indicar o "ato de"), "rebento" logo se concretiza ("raro como flor na pedra, "farto como trigo ao vento"). Como se vê, é difícil, quase impossível separar o abstrato do concreto.

Definido como "palavra com que se nomeia uma ação, qualidade, estado ou sentimento dos seres, dos quais se pode separar e sem os quais não poderia existir", o substantivo abstrato passa a concreto num piscar de olhos, como na canção de Gil. Por ser "o ato de rebentar", "rebento" se define como abstrato, mas concretiza-se quando "brota", "vinga", "medra", nas palavras de Gil. "Medra", por sinal, não significa "tem medo". Significa "cresce", "avança".

Se recorrermos à etimologia, constataremos que a palavra "abstrato" é da família de "abstrair", que vem do latim abstrabere e significa "separar", "arrancar", "desatar", "desligar", "afastar-se", "separar-se". De fato, o primeiro significado que os dicionários dão para "abstrair" é "separar", o que confirma a definição de abstrato do parágrafo anterior e torna compreensível o significado filosófico de abstrair e de abstração.

A letra da canção de Gil caminha e consolida o pensamento de Cabral: "Outras vezes Rebento simplesmente / No presente do indicativo / Como a corrente de um cão furioso / Como as mãos de um lavrador ativo (...) / Rebento, a reação imediata / A cada sensação de abatimento / Rebento, o coração dizendo 'bata' / A cada bofetão do sofrimento." O tiro certeiro de Gil se dá justamente na passagem do substantivo para a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o que explica quão tênue é a linha que separa o concreto do abstrato.

Alguém ainda se habilita a dizer que "concreto dá pra pegar, abstrato não dá pra pegar"?


Texto de Pasquale Cipro Neto, retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 1 Editora Segmento, São Paulo, 2005.