21 março 2026

O mito da criação da noite.

Antigamente não havia noite. Era sempre dia. O Sol brilhava esquentando a Terra. A Lua e as estrelas eram como o Sol. Tudo era luz e claridade na aldeia e na floresta. Os homens caçavam sem cessar e as mulheres trabalhavam sem descanso, pois era sempre  dia, noite não havia.

O Sol fazia

Contando os Dias

Já pensou se cada pessoa tivesse sua própria maneira de contar os dias? O mundo seria uma loucura! Afinal de contas, o dia 20 para você poderia ser o dia 31 para o seu amigo ou o dia 12 para a sua professora ou o dia 10 para... Epa! Se ninguém estivesse no mesmo dia, como seria para marcar uma festa de aniversário ou a data de uma prova? Estar em sintonia com o tempo é tão importante para os compromissos do cotidiano e também para as comemorações que fica impossível imaginar nossas vidas sem o calendário. O texto que você vai ler agora conta a história dessa figura especial quase sempre esquecida na gaveta ou atrás da porta.


Antes que existissem calendários, antes mesmo que fosse estabelecida a duração dos meses e dos anos, o homem já procurava alguma forma de se orientar no tempo. Dois ciclos da natureza, o lunar e o solar, começaram a ser usados há milhares de anos e ainda hoje servem como base para a nossa contagem dos dias.

O primeiro refere-se à  passagem das quatro fases da lua (nova, crescente, cheia e minguante) e dura 29,5306 dias ou seja, 29 dias e 13 horas, aproximadamente. Já o ciclo solar

14 março 2026

Mitologia na história em quadrinhos

Uma das mais famosas histórias em quadrinhos dos anos 50 tinha os irmãos Billy e Mary Batson como principais personagens, ambos dotados de poderes extraordinários concedidos por uma mago egípcio chamado Shazam. Ao pronunciar a palavra Shazam! Billy transformava-se no capitão Marvel. Sua irmã também, embora com menos poderes.

Sirvamos ao Bem (106)

 "A luz resplandece nas trevas..." - (JOÃO, 1:5.)


Não te aflijas porque estejas aparentemente só no serviço do bem.

Jesus era sozinho, antes de reunir os companheiros para o serviço apostólico. Sozinho, à frente do mundo vasto, à maneira de um lavrador, sem instrumentos de trabalho, diante da selva imensa...

Nem por isso o Cristianismo deixou de surgir, por templo vivo do amor, ainda hoje em construção na Terra, para a felicidade humana.

Jesus, porém, não obstante conhecer a força da verdade que trazia consigo, não se prevaleceu da sua superioridade para humilhar ou ferir.

Acima de todas as preocupações, buscou invariavelmente o bem, através de todas as situações e em todas as criaturas.

Não perdeu tempo em reprovações descabidas.

Não se confiou a polêmicas inúteis.

Instituiu o reinado salvador de que se fizera mensageiro, servindo e amando, ajudando sempre e alicerçando cada ensinamento com a sua própria exemplificação.

Continuemos, pois, em nossa marcha regenerativa para a frente, ainda mesmo quando nos sintamos a sós.

Sirvamos ao bem, acima de tudo, entretanto, evitemos discussões e agitações em que o mal possa expandir-se.

Foge a sombra ao fulgor da luz.

Não nos esqueçamos de que milhares de quilômetros de treva, no seio da noite, não conseguem apagar alguns milímetros da chama brilhante de uma vela, contudo, basta um leve sopro de vento para extingui-la.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 março 2026

O misterioso mundo por trás da frase feita

ENCANTADO COM SUA EXPRESSIVIDADE, DIFICILMENTE QUEM USA UMA LOCUÇÃO PROCURA AS RAZÕES QUE MOTIVARAM SUA EXISTÊNCIA


Elas afloram constantemente na fala das pessoas sem que seus usuários se incomodem em descobrir-lhes as origens: contentam-se estes com a expressividade e com a força comunicativa que elas imprimem à expressão de suas mensagens. O emprego delas é hoje mais raro do que antigamente, e o fato se explica porque a modernidade, diminuídos o gosto e o contato da leitura, recebe menos a influência do texto escrito sobre o texto oral. Daí também se explica o emprego das locuções ser mais frequente entre os idosos.

A toda hora se ouve: dizer cobras e lagartos de alguém, ele é cheio de nove horas, isso são favas contadas, achar-se em camisa de onze varas. Dificilmente quem as usa para e procura a razão ou a origem delas; contenta-se com a força expressiva que empresta a seus dizeres.

E, realmente, é tarefa complicada investigar as razões que as motivaram. Na busca da etimologia - ou origem de uma palavra -, conta o investigador, quase sempre, com o testemunho direto ou indireto do idioma de onde procedeu o termo. Para a busca de explicação de uma dessas locuções, abre-se diante do pesquisador um largo panorama de possíveis soluções.

As locuções se originam em associações psicológicas, em fatos históricos, em alusões literárias ou mitológicas, em comparações com todos os reinos da natureza, em etnologia e em muitos mais recantos do saber, da criatividade e da imaginação humana revelados pelo folclore.

Por tudo isso, o campo do estudo dessas locuções, expressões, frases feitas, sentenças proverbiais - Paremiologia ou Fraseologia - requer profunda cultura, como demonstraram os estudos dos primeiros investigadores portugueses e brasileiros, entre os quais merecem lugar especial Adolfo Coelho, Leite Vasconcelos, Carolina Michaëlis de Vasconcelos, João Ribeiro, Alberto Faria, Lindolfo Gomes, Câmara Cascudo.

Dizer cobras e lagartos de alguém talvez deva sua origem a cobra, variante fonética de copla, que servia de denominação para vários tipos de estrofes de poesia. Assim, dizer de alguém copla satírica era o mesmo que falar mal de alguém; cobra por copla teria dado a expressão dizer de alguém cobra. Esquecida a primitiva significação de cobra como variante de copla, entendida agora como o conhecido réptil, logo se associou à locução a ideia de palavras "venenosas" contra alguém, próprias de uma língua viperina (de serpente).

Abria-se o caminho para a entrada de lagarto na locução (dizer de alguém cobras e lagartos), cumprindo a tendência de construção de frases populares com arredondamento binário do tipo a ferro e fogo, são e salvo, aos trancos e barrancos, de seca a meca, a trouxe-mouxe e tantíssimos assemelhados.

Outros estudiosos, como Leite de Vasconcelos, não acreditam numa explicação pela história literária, mas no campo do folclore. A vivência do povo atribui a tais animais a propriedade do veneno. Daí a explicar a locução como expressão máxima da maledicência. Comecemos pela alusão da maldade ao enganar Eva, no paraíso. Como lagarto é companheiro constante nas malvadezas da serpente, isso explica a sua presença na expressão dizer de alguém cobras e lagartos.

Estão aí duas soluções plausíveis para estabelecer a origem da frase feita.

Se nossa curiosidade recai na locução ele é cheio de nove horas, a lição de Câmara Cascudo nos parece perfeitamente válida quando a relaciona à época, da Idade Média até o século 19, em que era de bom-tom entre as famílias o recolher-se à intimidade do lar. Era a hora do término das visitas educadas, do procurar a casa para o descanso do dia ou da folgança noturna. Respeitar as nove horas era sinal de boa educação e da boa convivência entre cidadãos. Desse conceito facilmente se passa à ideia da pessoa de extremada educação, chegando às raias de pessoa sestrosa, seguidora e ditadora de regras infalíveis e rígidas lições de comportamento a segundos e terceiros: um autêntico cheio de nove horas.


Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 6, Editora Segmento, São Paulo, Abril de 2006.

Por que as aranhas fazem teias?

Elas estão por toda parte. Nos cantos da parede, em algum móvel velho, embaixo da cama, no jardim... Seus fios formam desenhos que encantam nossos olhos. Procure atentamente e você deve encontrar uma teia! Que elas são feitas por aranhas todos já sabem. Mas por que as aranhas fazem teias?

A resposta está na barriga da aranha. Bem na ponta no abdome dela, existe um par de órgãos que produzem fios de seda, que formam a teia. Assim, ela solta o fio e vai tecendo, com a ajuda de algumas de suas oito pernas, um emaranhado que pode ter muitos formatos. Cada espécie faz uma teia diferente.

As teias têm várias utilidades para as aranhas. Caçar, proteger seus ovos ou mesmo fazer abrigos. As aranhas que produzem teias para caçar são as mais observadas. Você já deve ter visto algum bicho grudado em uma teia. É que ela é coberta por uma substância grudenta. Assim, o inseto que voa desavisado pode esbarrar em uma delas e ficar preso em seus fios. Se isso acontecer, já era! Ele certamente será devorado, pois todas as aranhas são predadoras, nenhuma é vegetariana!

As aranhas utilizam suas teias até para armazenar os alimentos. Se algum bicho fica grudado e ela está com fome, não o dispensa. Guarda o petisco bem enroladinho em um casulo de seda para comer mais tarde.

Existem, ainda, as aranhas que usam sua seda para escapar de animais que adoram comê-las, como pássaros, sapos e, até mesmo, alguns insetos. Para se livrar do perigo, entre outras artimanhas, algumas espécies fazem uma teia em forma de funil, que tem uma dupla função: a ponta maior serve para caçar e a ponta menor para se esconder; assim, ela tem cozinha e quarto na mesma teia.

Até mesmo os filhotes das aranhas usam seu fio. Algumas espécies, principalmente as que vivem em áreas mais abertas, como nos cerrados do centro do Brasil, utilizam suas teias de maneira espetacular. Assim que deixam os ovos, fazem um fiozinho e prendem a ponta em um pedacinho de folha ou, até mesmo, em outro fio. Aí, as pequenas aranhas soltam uma ponta e seguram a outra. Como a seda é muito leve, o vento pode levá-las para longe, como se estivessem viajando num balão. É assim que essas aranhas encontram novos alimentos  para comer e outros lugares para fazer suas teias!


Texto de Felipe Bandoni de Oliveira (Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo), retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.

07 março 2026

Sois a Luz (105)

 "Vós sois a luz do mundo." - Jesus. (MATEUS, 5:14.)


Quando o Cristo designou os seus discípulos, como sendo a luz do mundo, assinalou-lhes tremenda responsabilidade na Terra.

A missão da luz é clarear caminhos, varrer sombras e salvar vidas, missão essa que se desenvolve, invariavelmente, à custa do combustível que lhe serve de base.

A chama da candeia gasta o óleo do pavio.

A iluminação elétrica consome a força da usina.

E a claridade, seja do Sol ou do candelabro, é sempre mensagem de segurança e discernimento, reconforto e alegria, tranquilizando aqueles em torno dos quais resplandece.

Se nos compenetrarmos, pois, da lição do Cristo, interessados em acompanhá-lo, é indispensável a nossa disposição de doar as nossas forças na atividade incessante do bem, para que a Boa Nova brilhe na senda de redenção para todos.

Cristão sem espírito de sacrifício é lâmpada morta no santuário do Evangelho.

Busquemos o Senhor, oferecendo aos outros o melhor de nós mesmos.

Sigamo-lo, auxiliando indistintamente.

Não nos detenhamos em conflitos ou perquirições sem proveito.

"Vós sois a luz do mundo" - exortou-nos o Mestre -, e a luz não argumenta, mas sim esclarece e socorrer, ajuda e ilumina.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Quando crescer, vou ser... primatólogo!

De repente, ela começou a sentir dores. Ia ter um bebê. Estava fraca. Aos poucos, os parentes percebiam a situação complicada. Aproximavam-se e tentavam dar apoio. Após alguns minutos de apreensão e muito esforço, o bebê nascia saudável e, em pouco tempo, já estava no colo da mãe.

Essa história aconteceu há alguns anos no Centro de Primatologia do Rio de Janeiro. Graças ao trabalho de uma equipe de primatólogos, tudo não passou de um susto. Primatologia? Primatólogos? Mas o que isso tem a ver? Muita coisa, afinal, quem acabara de ter o filho não era uma mulher, mas uma macaca. Então é isso! Primatólogo é o profissional que estuda os primatas!

O nascimento de um macaco é mesmo muito parecido com o do homem. E as semelhanças não param por aí. "O cuidado na criação dos filhotes, a reação dos pais, a forma física, muita coisa se parece", diz Alcides Pissinatti, um dos primeiros primatólogos brasileiros, atualmente, presidente do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro.

Quem acha que trabalho de primatólogo é comparar macaco com homem está enganado. A ressalva é de Luiz Dias, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Quando criança, ele morava perto de um parque estadual em Belo Horizonte e volta e meia via um macaco diferente. Então, decidiu estudar Biologia. "Minhas maiores emoções até hoje foram quando vi um macaco-muriqui, espécie muito rara, cair em cima do meu ombro e quando entrei em uma reserva pela primeira vez."

Mal sabia que a aventura estava apenas começando. Imagine que o Luiz já ficou mais de um ano acampado em uma reserva ecológica para observar os macacos! Longe de casa, do barulho dos carros e da fumaça da cidade. Agora, ele se prepara para mais um desafio: ficar um ano e meio dentro da reserva!

Luiz vai fazer o chamado trabalho de campo, que é a observação das espécies em local aberto. Outro tipo de atividade é a pesquisa em lugar cercado, o cativeiro. "Lá, estimulamos a inteligência e agilidade do animal. Escondemos a comida, fazemos gangorra de pneus e colocamos cordas para brincarem. Com isso, avaliamos o comportamento deles", diz Luiz.

Mas não pense que é fácil se tornar primatólogo. Lembra que o Luiz se formou em Biologia? Pois é. Como não há especialização em primatologia no Brasil, é preciso repetir nos estudos o que os macacos costumam fazer tão bem: pular de galho em galho. "Somos profissionais que se formam por conta própria. Desde que iniciamos essa atividade no Brasil, nos anos 70, nunca existiu um curso de formação em primatologia. Então, tem de ser na prática mesmo", diz Alcides Pissinatti.

Prática, aliás, é o que não falta para o Alcides. Ele tinha acabado de se formar em veterinária quando seu amigo, o professor Adelmar Coimbra, fez o convite para montarem um local de estudos de primatas no Rio de Janeiro. Nascia ali o primeiro  Centro de Primatologia do Brasil. "Percebia que muita gente matava ou vendia micos-leões-dourados. Isso me motivou a trabalhar pela conservação dos primatas."

Como não há especialização em primatologia, a primeira coisa para quem quer se tornar primatólogo é escolher uma profissão que tenha a ver com animais. Pode ser biólogo, como o Luiz, veterinário, como o Alcides, antropólogo, ecólogo, médico, farmacêutico. Aí, é só colocar a mão na massa, porque o que não falta é trabalho!

O primatólogo pode estudar a fisiologia dos primatas (funcionamento do seu organismo), sua anatomia (característica do corpo), genética, demografia (quantidade de macacos em determinada região) ou hábitat (moradia). Isso, só para citar alguns exemplos!

Para trabalhar, os locais são: institutos de pesquisa, fundações de preservação de animais e universidades.

Apesar das dificuldades para se tornar um profissional e de se tratar de uma área ainda pouco conhecida, a primatologia tem tudo para crescer. Afinal, quem nunca ficou com o olhar perdido nos macacos do zoológico, pensando como seria bom conhecê-los mais de perto e entender por que eles se parecem tanto com a gente?


Texto de Rafael Barros retirado da Revista Ciência Hoje Para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.

Por que os macacos vivem em árvores?

Um dia, Leopardo estava admirando seu reflexo na água da lagoa. Uma das coisas que Leopardo mais gostava de fazer era ficar se admirando. Ele se olhava para ter certeza de que todos os seus pelos estavam penteados e que todas as suas manchas estavam nos lugares certos. Isso demorava um tempão, mas Leopardo não se incomodava.

Finalmente, ele ficou satisfeito, pois nada estava comprometendo sua beleza, e virou-se para ir embora. Naquele exato momento, um de seus filhos correu até ele dizendo:

- Papai! Papai! Você vai entrar no concurso?

- Que concurso? - Leopardo quis saber. Se fosse um concurso de beleza, claro que ele iria participar.

- Eu não sei. Corvo, o Mensageiro, passou voando por aqui e disse que Rei Gorila está promovendo um concurso.

Sem mais uma palavra, Leopardo partiu. Foi em direção nor-nordeste, virou à direita na amoreira e continuou su-sueste até chegar a um grande buraco na terra. Deu cinco voltas no buraco, tomou a direção norte com uma cambalhota até chegar a uma clareira no meio da floresta e era lá que Rei Gorila se encontrava.

Rei Gorila estava sentado em seu trono. À sua frente, do outro lado da clareira, estavam sentados todos os animais num semicírculo. No meio, entre Rei Gorila e os animais estava um grande monte do que parecia ser uma poeira preta.

Leopardo olhou em volta com dignidade. Então, regiamente dirigiu-se até seu amigo Leão.

- O que é aquilo? - perguntou, apontando para o monte de poeira preta.

- Não sei - respondeu Leão. - Rei Gorila disse que dará um pote de ouro a quem conseguir comer aquilo num só dia. Eu consigo comer numa hora.

Leopardo riu. - Pois eu comerei em meia hora.

Foi a vez de Hipopótamo dar risada. - Do tamanho que a minha boca é, como aquele monte de uma abocanhada só.

Chegou a hora do concurso. Rei Gorila fez os animais escolherem números para ver em que ordem cada um participaria. Para grande desapontamento de todos, Hipopótamo tirou o número 1.

Hipopótamo andou até o monte de poeira. Era maior do que ele havia suposto. Era grande demais para ser engolido de uma só vez. Mesmo assim, Hipopótamo abriu sua boca o máximo que pôde e deu uma mordida na poeira preta.

Começou a mastigar. De repente, ele deu um pulo e soltou um grito. Gritou tão alto que derrubou as orelhas das galinhas... E é por isso que até hoje as galinhas não têm orelhas.

Hipopótamo gritou e Hipopótamo berrou. Hipopótamo urrou e Hipopótamo uivou. Então, começou a espirrar e a chorar e as lágrimas escorriam por sua face como se ele estivesse no chuveiro. Hipopótamo correu até o rio e bebeu toda a água que conseguiu; o que era muita água mesmo, para refrescar sua boca, sua língua e sua garganta.

Os animais não entendiam o que havia acontecido com o Hipopótamo, mas nem ligaram. Estavam felizes, pois teriam uma chance de ganhar o pote de ouro. É claro que, se eles soubessem que o monte de poeira preta era na verdade um monte de pimenta-do-reino, talvez não quisessem o ouro.

Ninguém estava mais feliz que o Leopardo, porque ele havia tirado o número 2. Ele andou até o monte preto e cheirou-o.

- AAAAAAAAAATCHIIIIIIMMMMMM! - Leopardo não gostou daquilo, mas então se lembrou do pote de ouro. Ele abriu a boca, deu uma dentada e começou a mastigar e engolir.

Leopardo deu um pulo, acompanhado de um salto mortal duplo de costas e gritou. Ele berrou e uivou e, finalmente, começou a espirrar e a chorar, as lágrimas escorrendo pelo rosto como uma cachoeira. Leopardo correu até o rio e lavou a boca, a garganta e a língua.

O próximo foi o Leão, e a mesma coisa aconteceu com ele, bem como com todos os outros animais. Finalmente só restou o Macaco.

O Macaco aproximou-se de Rei Gorila. - Eu sei que conseguirei comer tudo do que quer que seja, mas depois de cada dentada, vou precisar deitar-me na mata e descansar.

Rei Gorila disse que estava bem.

Macaco foi até o monte preto, pegou um bocadinho com a língua, engoliu e foi até a mata. Minutos depois, o macaco voltou, pegou mais um pouquinho, engoliu e foi até a mata.

Em pouco tempo o monte já quase acabara. Os animais estavam espantados de ver que o Macaco estava conseguindo fazer o que eles não haviam conseguido. Leopardo também não podia acreditar no que via. Ele subiu numa árvore e esticou-se num galho grosso para tentar ver melhor. Do alto do galho, Leopardo conseguia enxergar dentro da mata, onde o Macaco ia descansar. Espere um minuto! Leopardo achou que havia algo errado com sua vista, pois parecia haver uma centena de macacos escondidos no meio da mata.

Ele esfregou os olhos e deu uma espiadela. Não havia nada de errado com seus olhos. Havia mesmo centenas de macacos no meio da mata e eram todos parecidos!

Naquele instante, ouviu-se o som de aplausos. Rei Gorila anunciou que Macaco ganhara o concurso e o pote de ouro.

Leopardo soltou um grunhido tão apavorante que até Rei Gorila ficou com medo. Leopardo não pensava em outra coisa senão nos macacos. Então, deu um lindo salto de cima da árvore até bem no centro da mata onde os macacos estavam escondidos.

Eles correram em todas as direções. Quando os animais viram os macacos saindo correndo da mata, perceberam que haviam sido enganados e começaram a persegui-los. Até Rei Gorila participou da perseguição. Ele queria seu ouro de volta.

A única maneira que os macacos encontraram para escapar foi subir no topo das árvores mais altas, onde ninguém, nem mesmo Leopardo, conseguia alcançá-los.

E é por isso que os macacos vivem nas árvores até hoje.


Texto de Julius Lester retirado da Revista Ciência Hoje para Crianças, Ano 17, Número 144, Março de 2004.

28 fevereiro 2026

Diante da Multidão (104)

"E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte..." - (MATEUS, 5:1.)


O procedimento dos homens cultos para com o povo experimentará elevação crescente à medida que o Evangelho se estenda nos corações.

Infelizmente, até agora, raramente a multidão tem encontrado, por parte das grande personalidades humanas, o tratamento a que faz jus.

Muitos sobrem ao monte da autoridade e da fortuna, da inteligência e do poder, mas simplesmente para humilhá-la ou esquecê-la depois.

Sacerdotes inúmeros enriquecem-se de saber e buscam subjugá-la a seu talante.

Políticos astuciosos exploram-lhe as paixões em proveito próprio.

Tiranos disfarçados em condutores envenenam-lhe a alma e arrojam ao despenhadeiro da destruição, à maneira dos algozes de rebanho que apartam as reses para o matadouro.

Juízes menos preparados para a dignidade das funções que exercem, confundem-lhe o raciocínio.

Administradores menos escrupulosos, arregimentam-lhe as expressões numéricas para a criação de efeitos contrários ao progresso.

Em todos os tempos, vemos o trabalho dos legítimos missionários do bem prejudicado pela ignorância que estabelece perturbações e espantalhos para a massa popular.

Entretanto, para a comunidade dos aprendizes do Evangelho, em qualquer clima de fé, o padrão de Jesus brilha soberano.

Vendo a multidão, o Mestre sobre a um monte e começa a ensinar...

É imprescindível empenhar as nossas energias, a serviço da educação.

Ajudemos o povo a pensar, a crescer e a aprimorar-se.

Auxiliar a todos para que todos se beneficiem e se elevem, tanto quanto nós desejamos melhoria e prosperidade para nós mesmos, constitui para nós a felicidade real e indiscutível.

Ao leste e ao oeste, ao norte e ao sul da nossa individualidade, movimentam-se milhares de criaturas, em posição inferior à nossa.

Estendamos os braços, alonguemos o coração e irradiemos entendimento, fraternidade e simpatia, ajudando-as sem condições.

Quando o cristão pronuncia as sagradas palavras "Pai Nosso", está reconhecendo não somente a Paternidade de Deus, mas aceitando também por sua família a Humanidade inteira.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

22 fevereiro 2026

Um cavalo de batalha

Fazer cavalo de batalha é uma expressão que significa dificultar o que seria fácil, inventar obstáculos. Sua origem vem da Idade Média, época das justas, lutas corpo-a-corpo com armas brancas, apogeu da cavalaria.

Os cavaleiros usavam armaduras metálicas com até 30 quilos! Seus cavalos também as recebiam, pois, vulneráveis, seriam alvos para arqueiros inimigos. Morto, o animal deixaria o cavaleiro a pé, quase imobilizado, pelo peso da armadura. Por isso, os cavalos de batalha eram tão importantes. Tinham de ser robustos para carregar peso, além de ágeis e valentes. Era complicado, e essencial, preparar um bom cavalo de batalha.

Conta a história que, em 1415, na batalha de Azincourt, os ingleses, só com mil soldados e 5 mil arqueiros, derrotaram os franceses superarmados com 10 mil soldados e 8 mil cavaleiros - a luta se travou em terreno enlameado pela chuva da noite anterior. Pesadíssimos, os cavalos atolaram e aí pesou a supremacia dos arqueiros ingleses contra os cavaleiros com lanças - que se tornaram praticamente inúteis. Essa digressão salienta o sentido da expressão. As coisas se resolvem melhor com simplicidade, sem apelar para doses cavalares...


E mais...

Engenheiro - A palavra vem do latim ingenium, o que é nato, qualidade natural. Como o homem tem sido o lobo do homem, as primeiras invenções foram engenhos de guerra - catapultas, armas letais e obras de fortificação. A primitiva engenharia foi a arte bélica e os militares, os primeiros engenheiros. Uma tese que até hoje incendeia discussões é a que hierarquiza as funções do arquiteto e do engenheiro. O primeiro seria o inventor, o artista. Ao segundo caberia o papel subalterno de mero executor do projeto. Quem assim pensa mal sabe que dificílimas piruetas mentais o engenheiro de cálculo Joaquim Cardozo teve de fazer para viabilizar as geniais concepções de Oscar Niemeyer...

Escândalo - É imoralidade de grandes proporções, como estamos exaustos de acompanhar pelo noticiário. A palavra vem do grego skandalon, obstáculo, pedra no caminho. Em latim, scandalum tanto significava tentação como armadilha. O sentido evoluiu para designar comportamentos antirreligiosos, que agrediam uma igreja todo-poderosa e escandalizavam toda a comunidade de fiéis. Hoje, no campo da ética e da moral, o "escândalo", frequente, já nem provoca tanta surpresa ou indignação, tal a pandêmica leniência das sociedade contemporâneas, triste sinal de tempos em que até, como dizia Vinícius de Moraes, se acha Herodes natural...


Texto de Márcio Cotrim retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 5, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2006.

Gramática dos estrangeiros

 COMO UMA PALAVRA IMPORTADA DANÇA CONFORME A MÚSICA DO NOSSO IDIOMA


Ao entrar no léxico de uma Língua, o estrangeirismo abre nesse idioma um capítulo especial da gramática no que toca à flexão de número e à referência ao gênero.

Em relação à indicação do plural dos estrangeirismos ainda não adaptados ao Português, o primeiro impulso é assinalar a flexão com o pluralizador - s, qualquer que seja a procedência do estrangeirismo: films, leaders, dandys, lieds, leads, revolvers, pennys, sportsmans, curriculuns, etc.

Alguns desses plurais acima coincidem com os plurais de Língua de origem: films, revolvers, leaders, leads. Outros apresentam flexão diferente: os de fonte inglesa dandy, lady, penny, sportsman fazem o plural dandies, ladies, pennies ou pence, sportsmen; o alemão lied (pron. lid) faz o plural lieder, enquanto leitmotiv faz leitmotive e blitz faz blitze.

O italiano confetti já é plural de confetto; o latinismo curriculum, neutro, tem o plural curricula, como campus o tem na forma campi. O grego logos faz o plural logoi.

À medida que vai aumentando o conhecimento de Línguas estrangeiras, vão os escritores e falantes procurando respeitar a flexão dos idiomas originais.


Gênero Estrangeiro

No que se refere ao gênero a ser atribuído aos estrangeirismos que entram no Português, o princípio recomendado também é o mesmo, isto é: o respeito à gramática do idioma originário.

É bem verdade que também aflora aqui ou ali a analogia com o gênero da palavra correspondente no Português, critério que se assenta em algumas reais coincidências existentes entre o vernáculo e o idioma estrangeiro. É o que ocorre com o Italiano e o Espanhol libro, o Francês livre, o Alemão buch, o Inglês book, o Latim líber, todos regulados analogicamente, ao masculino Português livro, sabendo-se que, nas Línguas em que há o gênero neutro, nosso idioma o trata como de gênero masculino. Daí os Portugaliae Monumenta Histórica, plural neutro.

Quando não há semelhança material como nos exemplos anteriores, há tendência para se regular pelo equivalente gênero da palavra subentendida em Português. Assim, o Latim quercus, que é feminino nessa Língua, como representa o Português carvalho, poderia ser tratado como do gênero masculino, o que é influenciado por se subentender carvalho, masculino.

Tal como fazemos com a palavra rádio: se a usamos para designar o aparelho, dizemos o rádio está desligado; se, entretanto, aludimos à estação, dizemos a rádio está fora do ar. O exemplo de quercus, lembrado por Leite de Vasconcelos (Lições de Filologia Portuguesa), é oportuno para deixar, é oportuno para deixar patente que não é segura a escolha do gênero do estrangeirismo em Português padrão para guiar-se pelo correspondente vernáculo que se subentende na operação gramatical; porque quercus pode corresponder tanto ao Português carvalho, masculino, quanto ao Português carvalha, feminino, criando um elemento perturbador para a uniforme atribuição do gênero, distribuído entre o quercus e a quercus.


Femininos e masculinos

A melhor solução será o que já se fez para a flexão do plural dos estrangeirismos em Português, isto é, a obediência às lições dos idiomas originários. Desse modo, quercus, feminino em Latim, será feminino em Português: a quercus, sem necessidade de subentendidos.

Étude, em Francês, é palavra feminina, enquanto o Português estudo é masculino. Se quiséssemos fazer alusão ao livro do filósofo e filólogo francês Émile Littré Études et Glanures consoante o princípio dos subentendidos, oscilaríamos entre livro e obra: o (livro) Études et Glanures ou a (obra) Études et Glanures.

Melhor será adotar o princípio de respeitar o gênero em francês e dizermos as Études et Glanures. Aplicando o mesmo princípio, dizemos os Mélanges Ferdinand de Saussure, a Banque de France.

Poder-se-á, em caso de dúvida ou para variar o estilo, empregar expressões do tipo "o livro (ou a obra) Études et Glanures"; "a coletânea (ou a publicação) Mélanges Ferdinand de Saussure"; o estabelecimento Banque de France", ou semelhantes.

A questão fica mais complexa em se tratando de Línguas de menor circulação entre nós, como o Alemão. A melhor solução nos parece estar na proposta de Leite de Vasconcelos acima exposta e que coincide com a lição de outro notável filólogo, o italiano Giorgio Pasquali. Em dois livros tão pequenos quanto preciosos (Língua Nuova e Antica e Conversazioni Sulla Nostra Lingua), condenava a distribuição em italiano do gênero que praticavam pessoas de pouca instrução e até jornalistas, tais como la Ballplatz, il Postdamer-Brücke, la Führerban, simplesmente porque em italiano piazza é feminino, ponte é masculino, e o último porque talvez se conecte com casa, feminino. Também nesses casos, melhor seria empregar o Ballplatz, a Postdamer-Brücke e o Führerban.


Sem distinção

Ainda mais complexa é a situação quando se trata de idiomas que já não contam, no seu sistema gramatical, com a distinção entre substantivos masculinos e femininos, restrita a oposição do gênero a alguns remanescentes nomes fossilizados, ou, ainda, a outras que fundiram os dois gêneros, subsistindo apenas o neutro.

Quando o nome se aplica a seres que apresentam a distinção de sexo ou gênero natural, desaparece a dificuldade porque, em se tratando do Inglês miss, ninguém dirá senão uma miss. Mas, quando a distinção pelo sexo não ocorrer, mais vale aplicar o critério analógico do gênero pelo correspondente em Português. Assim, como exemplifica Pasquali para o Italiano e nós aqui para o Português, adotaremos em history, story e novel o gênero feminino levado pelos correspondentes femininos em Italiano e Português. Já, por nossa conta, em relação a work e word, pelo mesmo princípio, ousaríamos dizer o work e a word, por nos regularmos pelos vernáculos o trabalho e a palavra, sem deixarmos de reconhecer a arbitrariedade da solução, diante dos possíveis concorrentes a obra (work) e o termo (word). Ou voltaríamos aos circunlóquios referidos por Leite de Vasconcelos: "a palavra work", "o termo word", ou equivalentes.


Texto de Evanildo Bechara retirado da Revista Língua Portuguesa, Número 5, Ano1, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2006.

20 fevereiro 2026

Jogos Circenses

As crianças que nasceram ainda outro dia, que ainda estão aprendendo o mundo, confrontam os tigres e os elefantes com as imagens que lhes foram apresentadas nos livros de histórias. Desejariam que os elefantes fossem muito maiores, e os tigres e os leões muito mais terríveis. Creio que a elegância dos domadores lhes deixa um certo desgosto de facilidades: talvez preferissem um empolgante corpo-a-corpo que exaltasse melhor a vitória; estes meninos nasceram ontem mas trazem um instinto milenar de gloriosas façanhas e gostariam de assistir a uma experiência objetiva (por enquanto) da superioridade do homem sobre as feras.

Isso quanto aos rapazinhos, porque as meninas, ainda suaves, apesar da dureza dos tempos, estão embevecidas com o palhaço muito branco, muito azul, muito vermelho, que vai distribuindo rosas pela plateia; e a moça prateada que sobe e desce aladamente sem interromper a corrida do seu cavalo branco pertence com certeza ao reino das fadas, onde (suspiremos!) algum dia se poderá chegar.

Nós, porém, os que já vimos todos os circos e - principalmente - já conhecemos bastante deste mundo, ficamos ali atônitos com a revisão das histórias humanas, destas nossas histórias frequentes, cômicas e heroicas e encontramos o nosso próprio rosto em cada figurante que aparece, por outras que sejam nossas fisionomias, de cá e de lá.

Pois não devíamos estar sossegados ao pé da terra, com modestos rumos, e não vêm cordas que nos enlaçam, que nos suspendem, que nos deixam numa altura de onde a terra, que é o nosso destino, torna-se o nosso abismo? E não nos impõem estas ordens de ir e vir pelos ares, já sem pés para o chão e ainda sem asas que o céu - recebendo nos braços e atirando para longe funâmbulos que jamais conheceremos, que apenas passa por nós, na oscilação de um mundo frágil de barras e cordas à vezes se cai, pequeno, obscuro meteoro?

Não somos esta claridade, esta alegria, esta festa cintilante sob um chicote oculto que alguém maneja para escravizar-nos ou, para libertar-nos, manejamos?

As crianças divertem-se com o palhaço perseguido pela falsa leoa de goma, que segue como uma boia flutuando no ar, agarrada aos seus calções. É como um pequeno pesadelo infantil essa corrida fluida, com uma imponderável fera onírica. Mas um dia somos todos, bem acordados, ou o palhaço ou a leoa, num pavor sem fundamento neste mundo nosso de símbolos.

Somos aquele que se apoia neste mundo apenas com um dedo, mas depois de inventarmos mil contrapesos, e de irmos renunciando a todos eles, um por um.

Somos esse instante de aplausos, com as arquibancadas celebrando os altos feitos que sentimos em nós, potencialmente; somos esse virtuosismo que vemos e admitimos possuir. E somos a penumbra em que desaparecem os corpos fosforescentes e homens e animais se confundem; essa caverna obscura e piedosa de onde saímos para o espetáculo e a que regressamos.

Mas as crianças ainda não estão iniciadas no segredo dos jogos circenses. Mais tarde compreenderão

E o homem do circo de lona pensa com amargura nas suas adversidades, no seu reino sem disciplina e sem lei, sem perfeição e sem glória; no seu elefante que envelheceu, no palhaço que se quebrou, na trapezista que fugiu. Ah! o circo exige uma precisão cósmica! Os pratos não podem desabar, o pé não pode sair do ponto exato, e se o punhal sofrer um leve desvio no seu rumo é quase certo que atinge o coração.


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Janela Mágica, 11ª edição, Coleção Veredas, Editora Moderna, São Paulo, 1991.

Em que crê quem não lê?

OBRAS DE AUTOAJUDA ADMINISTRATIVA USAM MECANISMOS DE CONQUISTA DAS RELIGIÕES


Muitos apontam a falta de leitura como a grande culpada pelo nível dos informativos e comunicados nas empresas. Igualmente culpada é a própria leitura: o nível de publicação de lixo em administração é bem alto. A leitura, convenhamos, faz falta, mas seria melhor não ler as toneladas de bobagens, autoajuda e falsas teorias de gestão que grassam no mundo corporativo.

Admito que o vazio dessas publicações é apaziguador. Não há quem vá empreender esforços de análise nem de reflexão devido a essas publicações. Os profissionais se sentem bem achando que a vida nas empresas vai melhorar com aquelas palavras de ordem, frases destituídas de sentido, truísmos e aqueles "ensinamentos" ao alcance de todos. Acredite: eles acreditam.

A ausência de significado, de embasamento, de vínculo com o real, na maioria das publicações de administração, permite que cada um crie sua versão e adote uma interpretação qualquer, até a da mídia de venda. Isso ocorre ainda que não se compreenda o livro. Aliás, ocorre ainda que não se leia, o que sublinha a mudança de tratamento das editoras: referem-se ao cliente e não ao leitor - leitor é quem lê; cliente é quem compra.

Não me surpreendem as pessoas que compram e não leem. Além dos impulsos consumistas, a pergunta é: preciso ler um livro de abordagem inútil, irrelevante? Não, decerto. Também não precisaria tê-lo comprado. Precisar, não precisa. Ter o livro, entretanto, cria o sentimento de pertencer ao grupo que está mais antenado com o que se passa nas organizações. Na perspectiva de quem? Das pessoas desse próprio grupo. Perdoai-os, Senhor; eles não sabem o que fazem. São crentes. Crentes que descobriram a verdade.

Os autores dessas bobagens não se aprofundam nas questões da realização do trabalho. Seus empenhos se concentrem na busca de uma metáfora, de uma figura de linguagem que seja aceita, que soe próxima, para que seja usada e abusada. É um abuso. Mas vende bem. Cada cliente (leitor?) usa a "metáfora" da maneira que mais lhe aprouver, sem que as interpretações distintas causem qualquer polêmica. Onde houver discórdia, que a autoajuda leve a união.

O conteúdo infundado, vazio de significação, respalda esse comportamento e acaba por afetar e afastar outras leituras de negócios com material de discussão interessante.

O bombardeamento mídia com autoajuda em administração empobrece e emburrece o ambiente organizacional. No entanto, vivemos no mundo das aparências, e comentários sobre o que está em voga fazem com que o profissional pareça atualizado. Ele está na moda, mas o resultado é fútil. É fashion.


Texto de Luis Adonis Valente Correia retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 5, Editora Segmento, São Paulo, Março de 2006.

18 fevereiro 2026

Escolha o Seu Sonho

Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições. Com a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a nossa memória.

Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas excursões sem veículos nem companhia - por mares, grutas, neves, montanhas, e até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco.

Devíamos, à vontade, passear pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespas correm com o luar por entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. - Ou habitar uma tarde prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas, como quem saúda muitas famílias de mármore... - Ou contemplar nos Açores hortênsias da altura de uma casa, lagos de duas cores, e cestos de vime nascendo entre fontes, com águas frias de um lado e, do outro, quentes... - Ou chegar a Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos, hesitante e invisível - enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o trevo de quatro folhas que vai comer...

Quantos lugares, meu Deus, para essas excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais atravessados por nuvens de pavões. Ruas amarelas de pó, amarelas de sol, onde os camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa, por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar ao pescoço, conduzem leves e elegantes coches policromos...

... E lugares inventados, feitos ao nosso gosto: jardins no meio do mar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se desarmam, transformados em música...

Oh! Os sonhos do "Poronominare"!... Lembram-se! Sonhos dos nossos índios: rios que vão subindo por cima das ilhas: ... meninos transparentes, que deixam ver a luz do sol do outro lado do corpo... gente com cabeça de pássaro... flechas voando atrás de sombras velozes... moças que se transformam em guaribas... canoas... serras... bandos de beija-flores e borboletas que trazem mel para a criança que tem fome e a levantam em suas asas...

Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto: Alexandre o Grande; São João Batista; o Rei David, a cantar; o Príncipe Gáutama...

E sonhar com os que amamos e conhecemos, e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor momento, quando foram mais merecedores de amor imortal...

Ah!... - (que gostaria você de sonhar esta noite?)


Crônica de Cecília Meireles retirada do livro Janela Mágica, 11ª edição, Coleção Veredas, Editora Moderna, São Paulo, 1991.

Para entender outras Línguas

 CONHECIMENTO DO IDIOMA PODE SER USADO PARA PERCEBER AS SEMELHANÇAS COM OUTRAS TRADIÇÕES DERIVADAS DO LATIM


A afirmação de que conhecer o Português ajuda a entender outras Línguas não é nova. Mas o que ela significa, de fato, poucas vezes é explicado. Longe de servir a uma pregação ufanista que o Português seja uma Língua riquíssima e atribuir-lhe características que pretensamente só se encontram nesse idioma, é preciso lembrar que o idioma formou-se e ainda se forma num contexto comum a muitas outras Línguas.

Portugal é um país europeu e cristão e só isso basta para que muitas características de outras Línguas europeias de tradição cristã sejam similares. Nesse sentido, o Basco, o Húngaro, o Finlandês e o Estoniano possuem similaridades, por participarem desse mesmo ambiente, apesar de serem Línguas totalmente distintas dos grupos majoritários europeus (românico, germânico, eslavo, etc.).

Por outro lado, os Bálcãs e o Leste Europeu formam um subconjunto em que muitas similaridades ali encontradas não se veem na Europa Ocidental, cuja Língua de escrita durante a Idade Média sempre foi o Latim. Da mesma forma, há semelhanças entre os países muçulmanos (da Malásia ao Marrocos), por causa da influência do Árabe, ou no Extremo Oriente, por causa do Chinês.

Além do Latim, o Francês foi uma Língua que divulgou formações lexicais nos séculos 18 e 19, bem como o alemão foi responsável pelos neologismos dos países nórdicos, o Húngaro e as Línguas Eslavas no mesmo período. A partir do século 20, foi o Inglês que se tornou responsável por isso.

Assim, a ideia de "trancar à chave", deixando algumas pessoas de fora, derivou uma ideia mais abstrata de "excluir" já no Grego antigo, com o verbo ekkleío (de ek- "para fora" e a raiz de kleís "chave"). Por ter grande força metafórica, o latim imitou essa forma para ex-cludere (de ex- "para fora" e claudere "fechar à chave"), por sua vez imitado pelo alemão aus-schlieben, pelo Norueguês ute-lukke, pelo Húngaro ki-zár, pelo Russo iz-kljuèit', todos com a mesma montagem. Essa transmissão cultural da metáfora, apesar de formas tão distintas, chama-se decalque e é um empréstimo indireto: assim, quando se diz hot dog, usa-se um empréstimo do Inglês, mas em cachorro-quente, trata-se de um decalque.


Transmissão sonora

Outra forma de transmissão cultural pelas palavras se dá pela herança e aqui convém fazer uma distinção. Há as heranças legítimas, de pai para filho: a palavra se torna difícil de reconhecer, mas com a ajuda de certas transformações sonoras, pode-se verificar a real afiliação da palavra com a Língua antecessora.

Assim, "testa" vem do Latim testam e o mesmo se pode dizer de tête do Francês. Na passagem do Latim para as duas Línguas cai o m final, mas o a final permanece no Português, enquanto no Francês se torna e. O mesmo se pode dizer do s latino, conservado no Português e perdido no Francês. Daí se percebe que "festa" é fête em Francês, e que "estrela" é étoile: o e medial se tornou oi, como em "pêra" e poire.

Essas transformações, metaplasmos, nem sempre explicam tudo: se o fizessem, afirmar-se-ia indiretamente que as Línguas sofrem modificações mecânicas previsíveis, o que nem sempre ocorre. Ambas, "estrela" e étoile vêm do latim stellam: em ambas, acrescentou-se um e- inicial (o que não ocorre no Italiano stella nem no Romeno stea) e o Português acrescentou um r que não aparece em outras Línguas (mas que não aparece em composto como constelação ou estelar). Esse r, contudo não é uma transformação previsível, mas algo que surgiu por analogia, isto é, por semelhança com outras formas semanticamente aparentadas: possivelmente com astro. Assim os neogramáticos do século 19 explicavam as transformações sonoras: pelos metaplasmos ou pela analogia.


Intermediários

Mas há um segundo tipo de herança, que é um empréstimo disfarçado: nem toda palavra de origem latina no Português foi herdada de pai para filho. Sempre houve pessoas ocultas, que conheciam bem o latim e ressuscitavam palavras abandonadas pela fala cotidiana. 

Infelizmente, no caso do Português, palavras desse tipo são quase sempre empréstimos. É raro uma palavra transcultural ligada a alguma área do conhecimento ter origem no Português (curiosa exceção é "antropônimo"): quase tudo vem do Francês ou do Alemão via Francês (e, atualmente, do Inglês). Assim, "fanatismo" aparentemente vem de fanático + -ismo, mas por que não é fanaticismo (como no Inglês fanaticism)? Ora, na verdade, quem cunhou a palavra foram os franceses: fanatisme em 1688; no Português ela só aparece em 1752.

Conhecer o étimo do Português facilita a compreensão de alguns problemas das Línguas estrangeiras como sua grafia: por difficile em francês se escreve com ff (como o Inglês difficult)? A palavras é Latina: difficilis e os ff (ambos pronunciados antigamente) provém de assimilação de sf na composição dis + facilis > disfacilis > difficilis (a transformação do a em i é fenômeno chamado apofonia que ocorre em Latim quando um prefixo se soma a um radical). Daí se entende por que outros empréstimos cultos têm a mesma característica: diffamer "difamar", différent "diferente", diffusion " difusão".

Por outro lado lado, dynamique "dinâmico" se escreve com y e com um n só porque não tem nada a ver com esse caso: a palavra remonta ao grego dynamikós "poderoso" (derivada de dy + namis "força"), foi ressuscitada por algum francês culto do século 17 e importada pelo Português com a grafia dynamico, só no século 19. O problema é que a grafia francesa e a inglesa são etimológicas, a do Português não é mais: saber etimologia para entender suas idiossincrasias gráficas é, portanto, imprescindível.


Texto de Mário Eduardo Viaro retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

16 fevereiro 2026

Quando a Língua comemora

 FORMAS COTIDIANAS DE FELICITAÇÃO EXPRESSAM ANTIGAS REFLEXÕES SOBRE O MODO DE ENCARAR A VIDA


Uma das metáforas mais frequentes nos meios culturais é "resgatar". Fala-se em resgatar não só reféns ou vítimas de enchentes, mas também as raízes culturais, a autoestima, etc. Modismos à parte, parece-nos oportuno esse uso do "resgatar" quando se descreve algo que ocorre no filosofar. Pois a tarefa de filosofar é, em boa medida, um resgatar.

Pelo menos essa é a posição de tantos filósofos que, de Platão a Heidegger, voltam-se para a linguagem comum, procurando recuperar as grandes experiências humanas que acabaram por nela desembocar. Pois essas experiências, vívidas  intuições que o homem tem sobre si mesmo e o mundo, brilham por um momento na consciência e depois vão se desvanecendo, desaparecem. Ficam invisíveis, como que escondidas num depósito: são "raptadas" pela linguagem (e não só por ela), a linguagem como: essa que falamos e ouvimos todos os dias.

Assim, frequentemente, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que supomos à primeira vista, tão familiar e automático é o uso que delas fazemos. Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, os contextos, as sutilezas da linguagem comum, em sua Língua e em outras: como caminho para recuperar as grandes experiências que se condensaram em linguagem.

Daí também a atenção para a etimologia, que frequentemente nos põe em contato com a experiência humana que se condensou em linguagem. Como é bem sabido, é nessa linha, a de buscar "o que dizem as palavras na experiência originária de pensamento", como diz Martin Heidegger, em Ensaios e Conferências (Editora Vozes), levando ao extremo (com as devidas ressalvas) as análises etimológicas - que se situam as reflexões do filósofo alemão, que chega a afirmar: "o acesso à essência de uma coisa nos advém da linguagem".

Podemos, como Heidegger, "pensar a atitude vigorosa daquilo que as palavras, como palavras, nomeiam de forma concentrada", ao verificar o potencial expressivo das formas de convivência cotidiana, como "parabéns".


A hora do "parabéns"

Quando transcendemos o âmbito protocolar das formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "parabéns!" (e seus irmãos: o Espanhol enhorabuena!, o Inglês congratulations!, o italiano auguri!) vemos que eles trazem em si diferentes e complementares indicações sobre o mistério do ser e do coração humano. O que significam essas formulações? O que realmente dizemos com "parabéns" ou "congratulations"? Essas expressões trazem um significado, por assim dizer, "invisível a olho nu".

Comecemos pela fórmula Castelhana: Enhorabuena!, literalmente "em boa hora". Indica que um certo caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, árduo trabalho de montar uma empresa que se inaugura, etc.) chega, nesta hora (em que se dão as felicitações, a seu termo: está é que é a hora boa, enhorabuena! Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A sabedoria dos antigos fala da "hora de cada um", de horas boas e más. Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação, a do bom termo do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est finis quan principium" (Ecl, 7,8).

A formulação inglesa, também presente no alemão e outras Línguas, congratulations, expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos con-gratulamos, isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão é sugerida também pela forma depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor. A forma depoente indica que a ação descrita no verbo não é ativa nem passiva: exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a título próprio, muito nossa.

O árabe mabruk indica o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém. O italiano auguri, auguri tanti! anuncia (ou enseja) que este bem celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que estão por vir.

Com a encantadora forma "parabéns" expressamos precisamente isto: que o bem conquistado, a meta atingida, seja usada "para bens". A aglutinação da preposição "para" com o substantivo "bem" é confirmada, por exemplo, por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico. Em nossa herança cultural, do cristianismo medieval, o mal não tem existência própria, por si: ele é antes uma distorção do bem. E, como se sabe, qualquer bem obtido pode ser usado "para bens" ou "para males", pode contribuir para a autorrealização ou para autodestruição. Pensemos nos casos de um amigo que ganha a medalha de ouro, ou se elege deputado, ou tira a carta de motorista, ou obtém o diploma de advogado... É evidente que essas conquistas - em si boas - podem também ser para males. Por isso, o dom fundamental da vida é celebrado com voto de parabéns...


Tradução do "Parabéns a Você" demorou cinco minutos

Não mais do que cinco minutos foi o tempo que Bertha Celeste Homem de Melo levou para fazer a versão brasileira de Happy Birthday em 1940. Bertha morreu em agosto de 1999, aos 97 anos, vítima de infecção pulmonar, em Jacareí, no Vale do Paraíba (SP). A professora morava na cidade havia 40 anos, mas foi enterrada em Pindamonhagaba, onde nasceu em 21 de março de 1902. Ela criou Parabéns a Você, cantada até então apenas em Inglês, para disputar o concurso de quadrinhas promovido pelo Programa do Almirante, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, para escolher a melhor tradução da trilha sonora mais famosa dos aniversários brasileiros. (Luiz Costa Pereira Júnior)

O peso dos "pêsames"

"Carregava uma tristeza...", diz o antigo samba de Paulinho da Viola: a tristeza é - evidentemente - um peso, os famosos pesares...! E, para carregar o peso da dor, da tristeza, nada melhor - ensina Santo Tomás - do que a ajuda dos amigos: "Porque a tristeza é como um fardo pesado que se torna mais leve para carregar quando compartilhado por muitos: daí que a presença dos amigos seja tão apreciada nos momentos de dor."

Compreende-se, assim, imediatamente, que a expressão de condolências ("doer-se com") seja pêsames, literalmente: pesa-me ("eu te ajudo a carregar o peso desta tua tristeza"). O étimo é confirmado por Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico (Nova Fronteira), segundo quem "pêsame" vem de "peso", resultado da ação que a gravidade exerce num corpo, daí "pesa-me".


Texto de Luiz Jean Lauand retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

Como pronunciar o s da palavra "subsídio"?

 Como pronunciar o s da palavra "subsídio"? Com som de C ou Z?

A pronúncia da palavra subsídio é "subcídio". O s mantém seu som original, como em sapo, sábado, sangue. O mesmo som ocorre em uma série de palavras com aspecto semelhante: subsidiário, subsequente, subseção, subserviente, subsinuoso, subsolo, subsentido, nas quais o s que vem depois do prefixo sub- é pronunciado com o valor de si, ci. E isso ocorre também com as palavras "subsistir", "subsistência", cujo sis é pronunciado igualzinho a cis!

"Subsídio" vem do latim subsidiu, "linha de reserva (na ordem de batalha); reserva, tropas de reserva; reforço, socorro. No galego dos séculos 13 e 14 havia sossídio. A dúvida quanto à pronúncia da palavra talvez ocorra porque, na Língua Portuguesa, o s que vem entre duas vogais apresenta o som de z: casa, preciso, ocaso.

Em tese, o fato de o s que vem entre vogais ter o som de z só ocorreria quando as vogais viessem grafadas, ou seja, representadas na palavra escrita pelas suas letras correspondentes. E isso não ocorre com "subsídio", em que só uma vogal, o i, vem depois do s. Não há vogal escrita antes dele.

Mas nem isso podemos garantir, pois há palavras, como "obséquio", por exemplo, em que o s também só tem vogal depois de "se" e é pronunciado como se fosse z. Como nossa ortografia é etimológica (de acordo com a origem das palavras), a ortoépia (o estudo da pronúncia das palavras) traz alguns sons do latim. Já na palavra "observar", o s volta a manter seu som.


Texto sem autoria retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Editora Segmento, São Paulo, Fevereiro de 2006.

14 fevereiro 2026

Esperar e Alcançar (103)

"E assim, esperando com paciência, alcançou a promessa." - Paulo. (HEBREUS, 6:15.)


A esperança de atingir a paz divina, com felicidade inalterável, vibra em todas as criaturas.

O anseio dos patriarcas da antiguidade é análogo ao dos homens modernos.

O lar coroado de bênçãos.

O dever bem cumprido.

A consciência edificada.

O ideal superior convenientemente atendido.

O trabalho vitorioso.

A colheita feliz.

As aspirações da alma são sempre as mesmas em toda parte.

Contudo, esperar significa persistir sem cansaço e alcançar expressa triunfar definitivamente.

Entre o objetivo e a meta, faz-se imperativo o esforço constante e inadiável.

Esperança não é inação.

E paciência traduz obstinação pacífica na obra que nos propomos realizar.

Se pretendes materializar os teus propósitos com o Cristo, guarda a fórmula da paciência como a única porta aberta para a vitória.

Há sofrimento em teus sonhos torturados? Incompreensão de muitos em derredor de teus desejos? A ingratidão e a dor te visitam o espírito?

Não chores perdendo os minutos, nem maldigas a dificuldade.

Aguarda as surpresas do tempo, agindo sem precipitação.

Se cada noite é nova sombra, cada dia é nova luz.

Lembra-te de que nem todas as águas se acham no mesmo nível e nem todas as árvores são iguais no tamanho, no crescimento ou na espécie.

Recorda as palavras do apóstolo dos gentios.

Esperando com paciência, alcançaremos a promessa.

Não te esqueças de que o êxito seguro não é de quem o assalta, mas sim daquele que sabe agir, perseverar e esperar por ele.


Texto retirado do livro Fonte VivaFrancisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

08 fevereiro 2026

Palavras que fazem carnaval

                   CONTROVÉRSIA SOBRE AS RAÍZES DA FESTA LEVOU                                                               À CONFUSÃO SOBRE AS ORIGENS DO TERMO  


A alegria coletiva, folia organizada, caricatura da seriedade dominante. No rótulo carnaval, cabe mais de uma farra. É um tipo de festa, mas não só. É um tipo muito específico de alegria. E algo mais. Não só uma libertação de hábitos temporária. Nem exclusividade brasileira.

Fazer um carnaval em torno de algo é promover estardalhaço, exagerar a dose, contagiar-se por um rompante de alegria. Já pular o carnaval é participar de uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, poucos dias antes da quarta-feira de cinzas.

Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a confusão entre os dois significados (festa e estado de espírito) causa muita discussão em torno das origens do termo. Há pesquisadores, aponta o autor, que consideram os dois sentidos a mesma coisa - e, por isso, a festa remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à Era Cristã seriam carnavais.

Assim, a presença, nas festas e procissões pagãs, de charretes em forma de navios gerou o mito de que a palavra viria de carrus navalis (carro em forma de navio). O fato é que, aos bispos dos primeiros séculos católicos, pouco importavam as distinções entre festas pagãs nos mais diversos países e meses. Até o século 18, todas recebiam o estigma de comemorações demoníacas.

Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o pagamento, consolidou a noção de carnaval como festa de exageros, caricaturas e ritos de inversão. A história do termo "carnaval" é alegórica. Em 1604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar a rotina para, por 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações.

Em 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que definiu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa com uma cruz feita de cinzas, por penitência). O dia inicia as privações de prazeres, a proibição de comer carne e abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário, com tudo o que era negado aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra.


Ritos da Quaresma

Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutuação em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italiano carnevale, afirma Ferreira). O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevarium em 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195.

O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (dos desfiles cariocas aos trios de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval.


Texto sem identificação de autoria; retirado da Revista Língua Portuguesa, Ano 1, Número 4, Fevereiro de 2006, Editora Segmento, São Paulo.