19 setembro 2026

Aromas para uma vida melhor

Imagine algum cheiro marcante. Imaginou? Pode ser o cheiro da sua comida preferida, o cheiro do mato logo depois de uma chuva, enfim, algum cheiro que tenha importância em sua vida e que lhe traga sensações. Se você pensou em algum, isso significa que você já está preparado para acreditar nas próximas linhas desta reportagem.

Desde os mais primórdios tempos, o aroma, ou melhor, a Aromaterapia vem sendo apresentada sob infinitas percepções, porém com uma única finalidade, a de colocar o homem mais próximo do poder da natureza e do bem-estar que ela oferece. Nas cavernas, por exemplo, os homens usavam as ervas aromáticas para afugentar maus espíritos; já os egípcios acreditavam no valor antisséptico e na força das ervas para conservar-lhes imortais; os gregos, por outro lado, usavam-nas em massagens e na terapêutica assim como os romanos, que utilizavam as ervas nas massagens após os famosos banhos públicos; os asiáticos desenvolveram cosméticos e os sábios chineses, foram e continuam sendo os grandes conhecedores das ervas medicinais. Mas por que tantos povos envolvidos no poder de um único princípio? A resposta não é difícil. Todos esses povos queriam se beneficiar dos poderes dos aromas e isso vem acontecendo a cerca de 6000 anos.

O termo Aromaterapia chegou um pouquinho mais tarde, em 1928, através das mãos do químico francês René Maurice Gattefosse, que interessou-se pelo uso terapêutico dos óleos essenciais após ter queimado sua mão em uma explosão no seu laboratório. Como tinha por perto um vidro de óleo de lavanda, instintivamente o usou sobre o ferimento e ficou impressionado com o resultado de cura. Mas não foi somente esse, um grande nome que permanece na história por conta da Aromaterapia. Antes de Gattefosse, no século XVII, o médico e astrólogo, Nicholas Culpeper, publicou um livro com 369 remédios feitos de ervas inglesas.

Assim como esses estudiosos, o francês Jean Valnet usou alguns óleos como o de limão e o de camomila nas feridas e nas queimaduras de seus pacientes durante a guerra; já Marguerite Maury introduziu a Aromaterapia na Inglaterra através dos óleos que seriam utilizados para a saúde e a estética. Desde então, a cura através de aromas só vem ganhando mais adeptos e grande proporção entre as abordagens terapêuticas não convencionais, em países europeus, como a Inglaterra, e também nos Estados Unidos.

"A Aromaterapia é mais do que um acessório

12 setembro 2026

Que cheirinho bom!!!

Pare por alguns instantes e tente lembrar do cheiro gostoso da comidinha da mamãe. Impossível imaginar as sessões de cinema sem aquele aroma de pipoca no ar. E por aí vai. Faça uma retrospectiva de sua vida apenas com os cheiros. O pãozinho quentinho que sai no final da tarde, o cheiro da pessoa que amamos, o mar... O odor de urina de algumas esquinas de São Paulo, o Vick Vaporub das noites de gripe, sabonete de nenê, quentão!

Quantas lembranças, não?! É como se o passado voltasse com uma presença incrível! Lembranças boas ou más, mas sempre lembranças vivas. Não a memória de uma foto, um vídeo, nem a escrita em um diário. E sim a memória que vem do corpo, em que o passado não é apenas lembrado, mas também vivenciado.

Deixando agora um pouco de lado a nostalgia, o que pouca gente sabe é que os cheiros, as emoções e as lembranças estão intimamente ligados. Tudo começa no cérebro. O sentido do olfato está situado no sistema límbico, que é uma parte do sistema nervoso central e, além de cuidar da decodificação de todos os cheiros, este sistema também coordena as nossas memórias. É por isso que os cheiros podem trazer de volta recordações tão antigas e de forma tão intensa. Nessa parte do cérebro partem igualmente a criatividade, a vontade de viver, a simpatia e a sexualidade, bem como todas as funções vitais do corpo como respiração, digestão, circulação, glândulas e imunidade..

Um cheiro tem, portanto, o poder de atuar em certas áreas do cérebro, causando reações nos órgãos e funções correspondentes. E vão mais além, podem atuar não só no corpo, como também na mente, emoções e no espírito de um ser. Esse é o princípio da Aromaterapia, técnica de cura e equilíbrio através dos aromas.

Lembrei-me de tudo isso quando estive outro dia na casa de um grande amigo. Uma casa grande e muito bonita, mas cheirava a mofo. Há alguns anos houve um grande vazamento de água e a casa acabou ficando impregnada com esse cheiro. Infelizmente os moradores acabaram se acostumando ao cheiro desagradável, mas quem chega de fora não pode deixar de reparar.

Fazendo agora um exercício de associação, que ideias nos veem à mente com a palavra mofo? Lembro imediatamente de estagnação, sensações negativas, coisa parada no tempo, associo à doença, ambientes insalubres, descuido, repulsa, sujeira, insetos. Você pode fazer seu exercício e descobrir outras associações bem particulares, mas com certeza nada agradáveis. Dá para entender quais influências negativas esse cheiro ruim está trazendo para a vida dessa família?

Deixando de lado agora a vida dos outros, você já parou para pensar se a sua casa tem cheiro característico? E caso tenha, que aroma é esse? Vai ser um pouco difícil identificá-lo uma vez que a gente se acostuma, mas existem diversos fatores que influenciam muito o cheiro de um ambiente: higiene, acúmulo de objetos e entulhos, vazamentos e infiltrações, encanamentos em mau estado, falta de manutenção, pessoas com certas enfermidades, animais domésticos, ambientes mal ventilados ou até mesmo lugares onde não há entrada de sol.

Aproveite a entrada de ano para fazer uma checagem geral em sua casa: limpe, reforme, troque, conserte, livre-se do velho e do inútil. Sua casa, com certeza, começará a exalar um cheirinho de novidade, de limpeza do passado, de frescor e, estará mais aberta aos ventos de novidade do novo ano.

E para dar um toque final não esqueça das velas aromáticas, rechauds, incensos, sprays, plantas e muitas flores! Esses aromas maravilhosos, com certeza, refletirão positivamente no estado de espírito da família e de todos os que frequentarem o seu lar!


Texto de Vera Caballero retirado da Revista Vida em Equilíbrio, Edição 5, Casa Dois Editora, São Paulo, Fevereiro de 2002.

Entendamo-nos (122)

"Mas, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros." - Pedro. (I, PEDRO, 4:8.)


Não existem tarefas maiores ou menores. Todas são importantes em significação.

Um homem será respeitado pelas leis que implanta, outro será admirado pelos feitos que realiza. Mas o legislador e o herói não alcançariam a evidência em que se destacam, sem o trabalho humilda do lavrador que semeia o campo e sem o esforço apagado do varredor que contribui para a higiene da via pública.

Não te isoles, pois, no orgulho com que te presumes superior aos demais.

A comunidade é um conjunto de serviço, gerando a riqueza da experiência. E não podemos esquecer que a harmonia dessa máquina viva depende de nós.

Quando pudermos distribuir o estímulo do nosso entendimento e de nossa colaboração com todos, respeitando a importância do nosso trabalho e a excelência do serviço dos outros, renovar-se-á a face da Terra, no rumo da felicidade perfeita.

Para isso, porém, é necessário nos devotemos à assistência recíproca, com ardente amor fraterno...

Amemos a nossa posição na ordem social, por mais singela ou rudimentar, emprestando ao bem, ao progresso e à educação as nossas melhores forças.

Seremos compreendidos na medida de nossa compreensão.

Vejamos nosso próximo, no esforço que despende, e o próximo identificar-se-á nas tarefas a que nos dedicamos.

Estendamos nossos braços aos seres que nos cercam e eles nos responderão com o melhor que possuem.

O capital mais precioso da vida é o da boa-vontade. Ponhamo-lo em movimento e a nossa existência estará enriquecida de bênçãos e alegrias, hoje e sempre, onde estivermos.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

11 setembro 2026

Por que choramos?

Lágrimas escorrendo pelo rosto são, por si só, um inconfundível pedido de ajuda. Não que os outros componentes do choro sejam menos chamativos: soluços e berreiros, assim como queixo trêmulo e boca com cantos virados para baixo, também são sinais de que algo não vai bem! Mas apesar de reconhecermos cada elemento do choro com facilidade, os mecanismos cerebrais que o controlam não são bem conhecidos. Em parte porque costuma ser difícil - ao menos para adultos - chorar sob encomenda em laboratório.

Claro que sempre é possível usar cebolas para colher lágrimas. Nesses casos, as lágrimas escorrem em resposta à irritação do olho causada por um gás liberado pela cebola cortada. Lágrimas, no entanto, são produzidas o tempo todo. Elas têm o papel de manter os olhos limpos, lubrificados e em bom estado. O que sobra é drenado para dentro do nariz pelos canais lacrimais, situados no canto interno das pálpebras. A questão ainda sem resposta é como certas situações fazem a produção de lágrimas aumentar tanto que os canais não dão conta do recado: o que consegue ser drenado escorre pelas narinas; o restante transborda e rola pelo rosto.

As dúvidas não param por aí. Hoje sabemos que, quando choramos, nossa respiração muda, o que nos permite fazer barulhos diferentes dos que normalmente, produzimos. Essa alteração respiratória é tão importante que ocorre também em outros animais. Os sons do choro são um poderoso meio de comunicação, sobretudo na falta de palavras. Filhotes de macacos choram por suas mães; cachorros choramingam por desconforto ou fome. Humanos recém-nascidos, é claro, são craques nesse tipo de comunicação a plenos pulmões. Qualquer mãe de primeira viagem, por exemplo, distingue entre um choro sustentado que indica dor e aquele ritmado do bebê quando quer atenção.

Se apenas os sons do choro já são chamativos, qual é a utilidade de derramar lágrimas? Não se sabe ao certo, mas chorar parece proporcionar alívio imediato. Muita gente diz que se sente melhor após verter lágrimas. Talvez elas ajudem a eliminar substâncias produzidas durante o estresse. Ao menos em outros animais as lágrimas têm essa função de "descontaminação". As de bichos que vivem em água salgada - como focas e crocodilos -, por exemplo, ajudam a eliminar o excesso de sal do corpo. Daí vem a expressão "chorar lágrimas de crocodilo", isto é, choramingar sem um pingo de emoção verdadeira. Alguns artistas são craques nisso. Algumas crianças também!


Texto de Suzana Herculano-Houzel (Departamento de Anatomia da UFRJ) retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, Ano 16, Número 132, 2ª Edição, FNDE, Ministério da Cultura, Rio de Janeiro, Janeiro e Fevereiro de 2003.

Quando crescer, vou ser... Farmacêutico!

Na certa, você já esteve alguns dias debaixo das cobertas, com febre alta, calafrios e um mal-estar danado! Lembra quando, entre um sonho e outro, alguém trazia aquele medicamento de gosto horrível? Aposto como naquelas horas você se perguntava quem seria capaz de fazer um daqueles. Bem, saiba agora que o farmacêutico é o responsável pela elaboração do remédio que cura o febrão da gente - e pelo desafio de melhorar aquele sabor desagradável que conhecemos! Como profissional, ele trata de proteger e recuperar a saúde das pessoas. Vamos saber mais?

O farmacêutico surgiu por volta de 1240, quando, na Prússia, o Imperador Frederico II, separou a Farmácia, ciência que ele estudava - da Medicina. No Brasil, a profissão surgiu em 1832, 24 anis depois da chegada de Dom João VI e da família real. Antes, para ser farmacêutico era preciso ser médico. Talvez por isso, até hoje, as pessoas confundam um pouco as duas profissões, o que é perigoso. Principalmente, porque não cabe ao farmacêutico receitar medicamentos, pois ele não é um especialista em doenças como o médico. Ao farmacêutico cabem muitas outras funções na área da saúde.

Pode-se encontrar este profissional em todas as etapas que envolvem a elaboração de um medicamento. Aliás, você sabe o que é um medicamento? É toda matéria de origem humana, animal, vegetal ou química que, depois de trabalhada em laboratório, possui a função de curar ou prevenir uma doença. O farmacêutico é aquele que extrai, por exemplo, a vitamina C dos alimentos - como a laranja - e a transforma nos comprimidos que tomamos quando estamos resfriados! Depois de elaborados, os medicamentos são classificados em função de suas propriedades: uns para dor de cabeça, outros para queimaduras etc. etc. etc. Finalmente, eles vão para as drogarias, onde há um farmacêutico de plantão cuidando para que as pessoas façam bom uso dos remédios. Em geral, não é a mesma pessoa que atua em todas as etapas. Cada farmacêutico escolhe a sua área de especialização, e, acredite, há muitas delas!

Ele pode estar ligado à indústria de alimentos. Nessa função, verifica a qualidade dos produtos, estabelece prazos de validade (aquelas datas que vemos nas embalagens) e cuida das condições de estocagem, isto é, faz de tudo para que os produtos não estraguem quando guardados. É nessa área que trabalha a farmacêutica Miriam Moura. Ela dá aulas práticas de controle de qualidade de alimentos na Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). Miriam sonhava em trabalhar num laboratório, como os cientistas! Contudo, "queria uma profissão que prestasse assistência na área de saúde, por isso escolhi Farmácia".

A professora lembra que o farmacêutico pode estar ligado a órgãos ou laboratórios de análises clínicas e toxicológicas. Ou seja, pode trabalhar em hospitais analisando o sangue das pessoas, ou até no Instituto Médico Legal (IML) - local para onde vão as pessoas, logo após a morte - investigando se a causa do falecimento foi intoxicação e determinando o tipo. Também é de responsabilidade do farmacêutico a produção e o controle de soros e vacinas. Ele pode ainda atuar na indústria de cosméticos. Afinal, xampu, sabonete e pasta de dente - assim como os medicamentos - são frutos de muita pesquisa e análise em laboratório.

"As áreas de atuação são tantas e tão interessantes que fica até difícil decidir o rumo da nossa vida profissional", diz a farmacêutica industrial Simone Padilha. Ela já foi farmacêutica responsável em uma drogaria e afirma que a importância dessa função está na proximidade do profissional com as pessoas. "Se alguém estiver comprando um antibiótico, por exemplo, o farmacêutico deve ajudá-lo a montar uma tabela com os horários, perguntar se ele toma outro medicamento e alertá-lo sobre alimentos que possam modificar o efeito do antibiótico", explica. Na época em que prestou vestibular, ela queria trabalhar como Química, pensou melhor e parece ter acertado em cheio escolhendo a faculdade de Farmácia: "Amo meu trabalho, amo minha profissão." Agora, imagine você se ela tivesse lido a CHC quando criança: não ia pensar em outra coisa na vida além de ser farmacêutica!


Texto de Maria Ganem retirado da Revista Ciência Hoje das Crianças, 2ª Edição, Ano 16, Número 132, Janeiro/Fevereiro de 2003, Ministério da Educação, FNDE, Rio de Janeiro.

28 agosto 2026

Beto

O desgosto do velho Tobias é o filho: a medonha carinha vermelha do mongoloide.

- É tarado - desculpa-se e corrige. - Doente de nascença.

Um bicho em criança, andava de quatro, a língua de fora; aos pulos, subia na árvore com a agilidade do mico. Amarrado com os cachorros no fundo do quintal. Escapando, arrastava a coleira pela rua - uma correria entre as crianças. Cabeça bem pequena, nariz purpurino, um guincho selvagem. Aos vinte anos, engrola as palavras - a língua uma ostra que não engolia.

- A omba oou...

A pomba voou. Mais que as surras de correi do pai, domesticava-o a paciência amorosa da velha Zica. No sábado apara-lhe as unhas e dá um cigarrinho para que aceite o barbeiro; inquieto na cadeira, três talhos no pescoço atarracado.

Enxuga a louça para a mãe, sem quebrar um prato. Traz água do poço, corta lenha, lida na horta. Tem paixão pelo casal de garnisés. Ganhou da mãe um vira-lata, mestiço de fox, envenenado pelo fiscal da prefeitura.

- Matou o Foc. Ele que matou o Foc. Deu bolinha pro Foc.

Implica com o vizinho:

- Quando é que ele sai? Tire o homem, pai. Ele deixou crescer o mato.

- Daqui a quatro luas o home sai.

- Tá em...

Sofre o feitiço da lua. Corre pelo pomar, atira pedra no garnisé. Pendura-se na cerca para chamar a pombinha. Dona Zica pergunta, intrigada:

- Será que chove, Alberto?

Somente com a mãe conversa de boa sombra. Imita o pai, mão cruzada nas costas, a cabecinha inclinada no ombro. Ostenta o cigarro de palha na orelha. De repente, beijando a mão e virando os olhos, revela à dona Zica os amores escondidos do marido.

- Tá uim, n'é?

- Está sim.

- Pode que ele saia.

- Quem?

- O homem porco.

Pede licença ao vizinho, que o garnisé pulou a cerca. Pergunta pelo Foc. Ou pela pombinha que voou e não voltou. Quer seduzir a criadinha, fuma o cigarro apagado, de cabeça para baixo na laranjeira. A menina sorri, um pouco assustada. Beto pisca o olho, a flor de espuma no canto da boca.

- Ela riu para mim. O pai deixa?

- Eu deixo - responde Tobias, divertido. - Mas e o homem?

- É brabo.

Um circo chegou à cidade. Durante o desfile, sacode a cerca, xinga os bichos:

- Ilhos das ães!

- Beto, olha lá o leão.

Não dorme com os urros do leão doente: buzina rouca de fordeco.

A mãe o encontrou, véu no rosto, as imagens do oratório dispostas em fila.

- A Maria louquinha para casar. A Maria chora. A casa do homem tem raposa.

- Ele vai se mudar daqui a três luas.

- Que deixe a Maria.

E encostando no ouvido o relógio sem ponteiro:

- Agora são quinze minutos.

O circo foi embora. Despede-se a criadinha, medrosa do Beto que, só de amor, espreme vagalume na unha fosforescente. Imita os saltos do sapo barrigudo. Com uma vareta risca-lhe a pele enrugada e, ao leite das feridas, baba-se de gozo.

Na tarde calmosa, corre de um lado para outro, toda a língua de fora. Chama a pombinha. Sai atrás do garnisé. Dona Zica gemendo de dor nas cadeiras.

- É a chuva, Alberto?

Recolhe a roupa do varal, pronto caem os primeiros pingos.


Conto de Dalton Trevisan retirado do livro Cemitério de Elefantes, Editora Record, 11ª Edição, Rio de Janeiro, 1997.

Hera, a maior das deusas - A força da fecundidade e da consolidação

É par complementar de Zeus (e ele, dela), tendo os dois atributos do feminino por excelência: a fecundidade e a dedicação para conservar e fortalecer toda a obra criada. E, realmente, de nada adianta o esforço da criação se não houver proteção e dedicação à obra criada. É preciso cuidar e proteger para que a obra possa vingar. Assim, Hera é, por excelência, o princípio materno que cuida e consolida tudo o que é criado. Sem cuidado e dedicação, não há criação que sobreviva e se consolide. Sem criação, não há o que cuidar e consolidar, pois tudo cai num vazio que beira a dissolução do caos.

Na visão popular de Homero, Hera é fiel, virtuosa, intocável e insensível à corte dos celestes. É uma torre de marfim inexpugnável e seu amor é possessivo e exclusivo. Não se cansa de perseguir as paixões ilícitas de seu esposo Zeus, procurando a vingança.

Recebeu de sua avó Gaia (a grande Terra) as romãs de ouro como presente de casamento. Eram o símbolo e o auspício da fecundidade eterna. Vemos assim que Zeus e Hera são os pares complementares dos quais surge e se consolida a obra criada, sendo os arquétipos masculino e feminino por excelência. Ele é a potência que se expande e se multiplica infinitamente. Ela é a potência que contém, pondo à prova, consolidando e fortalecendo a criação, que somente assim é possível, e tudo que é passível de existir no universo deverá submeter-se a essas leis. Seu animal sagrado é o pavão, símbolo de seu encanto e de sua beleza.

Assim, esse casal é um exemplo a seguir para nós humanos e mortais, cabendo a cada um encontrar dentro de si - seja homem ou mulher - sua porção Zeus e sua porção Hera, cultivando-a a aperfeiçoando-a. Para os antigos gregos, os deuses deviam ser imitados pelos humanos. Afinal, somos instrumentos deles. Assim imitá-los é procurar em cada um de nós os meios para contribuir com a infinita criação e sua consolidação.


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

15 agosto 2026

Busquemos a Luz (121)

 "Toda escritura inspirada por Deus é proveitosa... Para instrução na justiça." - Paulo. (II TIMÓTEO, 3:16.)


Procura a ideia pelo valor que lhe é próprio.

Quando a moeda comum te vem às mãos, não indagas de onde proveio.

Ignoras que procede de casa de um homem justo ou injusto, se esteve, antes, a serviço de um santo ou de um malfeitor.

Conhecendo-lhe a importância, sabes conservá-la ou utilizá-la, com senso prático, porque aprendeste a perceber nela o seio da autoridade que te orienta a luta humana.

O dinheiro é uma representação do poder aquisitivo do governo temporal a que te submetes e, por isso, não lhe discutes a origem, respeitando-o e aproveitando-o, na altura das possibilidades com que se apresenta.

Na mesma base, surgem as ideias renovadoras e edificantes.

Por que exigir sejam elas subscritas, em sua exposição, por nossos parentes ou amigos particulares, a fim de que produzam o efeito salutar que esperamos delas em nós e ao redor de nós?

Toda página consoladora e instrutiva é dádiva do Alto.

Não importa que os pensamentos nela corporificados tenham vindo por intermédio do espírito de nossos pais terrestres ou de nossos filhos na carne, de nossos afeiçoados ou de nossos companheiros.

O essencial é o proveito que nos possa oferecer.

O dinheiro com que adquires o pão de hoje pode ter passado ontem pelas mãos do teu adversário maior, mas não deixa de ser uma bênção para a garantia de tua sustentação, pelo valor de que se reveste.

Assim também, a mensagem de qualquer procedência, que nos induza ao bem ou à verdade, é sempre valiosa e santa em seus fundamentos, porque, usando-a em nossa alma e em nossa experiência, podemos adquirir os talentos eternos da sabedoria e do amor, por tratar-se de recurso salvador nascido da infinita misericórdia de nosso Pai Celestial.

Busquemos a luz onde se encontre e a treva não nos alcançará.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

Zeus, o maior dos deuses - A energia criadora

Significava o impulso divino que está sempre em ação. Tudo o que toca se multiplica e se expande. É o conúbio entre o temporal e o eterno, pois renova a vida infinitamente. É a potência que se expande em criações que consolidam a vida. Luta eternamente para vencer o caos e a destruição.

Seus símbolos são a águia, a linha reta e o ouro. A água representa a busca pela Criação. A linha reta é a impossibilidade de ter seu rumo desviado; a palavra "caráter" daí se originou, estando associada com retidão, mas não com rigidez. Já o ouro é o símbolo do eterno e da verdade, pois não sofre a ação com o tempo. Cultuar Zeus significa praticar a criação, sendo seu instrumento, e opor-se à destruição e ao caos.

Na visão popular e pedagógica de Homero, Zeus é o conquistador por excelência: está sempre envolvido em amores extraconjugais, dos quais nascem muitos deuses, semideuses e heróis. Sempre arquiteta ardis para escapar de sua esposa ciumenta, Hera. 


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

08 agosto 2026

A Madre de Ouro

 Poço da Roda. Arredores de Bonfim.


Bonfim é uma das cidades mais antigas de Goiás. Como suas irmãs mais velhas, Meia Ponte e Vila Boa de Goiás, guarda ainda, sob muitos aspectos, o cunho dos núcleos coloniais do século XVIII, com a sua inconfundível arquitetura reinol, estilo barroco, de feição pesada, simplória e, ao mesmo tempo bonachona, hospitaleira - aspecto esse que se vai aos poucos apagando dos burgos e vilórios progressistas mais próximos da linha férrea.

Ficou-lhe, pois, ainda intacto, o antiquado perfume de antanho, coisas mortas que a mente aviva e a tradição redoura, vago encanto do passado, sabor que não tem ou já perderam os centros mercantilistas, tomados de febre de riqueza e inovações, do litoral.

Como Goiás, a Triste, embala-a o mesmo sono de duzentos anos de Bela Adormecida, com as reminiscências da época da descoberta, as aluviões de aventureiros e desbravadores à cata do rico filão, página heroica do esforço extinto da raça, que à memória apraz reviver.

Escavações profundas, minas ao desamparo, veeiros revolvidos, barrocas solapadas, esboroando-se nas chuvas, velam de melancolia o olhar do viandante que demanda aquele recanto do Planalto. E à medida que se aproxima de seus arredores, mais vivos e constantes são os atestados do delírio avoengo em esmiuçar, estripando-as, as entranhas da terra, para delas dar cibo e páscigo à sede do luxo, ao esplendor bizantino da velha Metrópole, já então em via franca de decadência.

Hoje, minas, lavras, catas, tudo jaz ao abandono. Alveja em montes o pedrouço das "formações" à beira das estradas; uma coma verde de "gordura" corre a crista dos valos e carreiros, argilosos e tristes, outrora sacudidos pelo estalo do relho dos feitores e o grito angustiado da escravatura, na lavagem do cascalho. Foram-se os antigos bateeiros da "descoberta", extinguiu-se a febre da mineração; ficou enraizada, uma população pacífica e laboriosa, que faz a prosperidade do município na lavoura, na criação de gado, no comércio das letras, em outras profissões liberais.

Da primitiva exaltação, porém, do ouro, restam, como tradição, histórias e lendas, das quais, talvez porque haja no fundo, como na maioria das lendas, um ponto qualquer de contato com a verdade, é a do Poço da Roda das mais populares.

Fica nas proximidades de Bonfim, no ermo de um descampado, ocupando o espaço de duzentos metros mais ou menos de circunferência. Contam moradores e viajantes que, à luz forte do dia, quando a superfície se lhe aquieta, mui transparente e cristalina na calma circundante, uma enorme pedra responde do fundo das águas aos fogos do meio-dia, irradiando em torno um brilho de mil chispas e centelhas, cujo estranho fulgor inebria e cega de deslumbramento e cobiça os olhos mortais ali empenhados, às bordas da frágil igarité, em devassar-lhe o líquido arcano. É a Madre de Ouro, cujo encantamento curiosos e mergulhadores tentam, em vão, surpreender o segredo, e de longos, mui longos anos habitadora daquelas águas remansadas...

Embalde é a teima porém que o mistério do sítio, a profundidade do poço, a refrangência, o desvio de seus raios e momentâneo desaparecimento da visão assim lhe perturbem o imoto cristal, zelam e guardam para sempre inviolada em seu retiro, a pedra maravilhosa.

E se um mais afoito e sôfrego, volve de novo à tentação da miragem e mergulha mais uma vez no lençol silencioso e frio, à busca do encantado tesouro-obscuro Alberico a quem faltou o anel dos Niebelungens-logo o pune de morte a Madre gloriosa, voltando à tona o seu corpo tempos depois, pasto de lambaris, papa-iscas e mais arraia miúda do lago.

Serenada a agitação das ondas, alisado o espelho translúcido na queda da aragem, eis de novo, fulgurando, a Madre de Ouro aviva, como um sol submerso, a aurifulgência de seus raios mágicos ante a adoração das florinhas anônimas, debruçadas à beira da lagoa...

Tal é a lenda nesse trecho do território. Se esplende ali a Madre de Ouro sepultada no fundo do Poço da Roda, continua entanto a sua peregrinação através de outras paragens do rincão goiano, numa viagem aérea, cujo termo é a explosão do meteoro na noite silenciosa.

E tal como a ouvimos, no interior, o seu quebranto consta do seguinte. Quem escuta ou vê, no ermo da noite, a passagem da Mãe de Ouro cortando o céu estrelado com o seu listrão ardente, toma na cozinha da choça um tição em brasa, correr ao limiar e faz no espaço uma cruz de fogo.

Logo, cede a Aparição ao sortilégio do homem, detém a sua carreira vertiginosa, e arrebenta em estilhas, lascas, pedrouços, calhaus e blocos, tudo de ouro maciço e do mais puro quilate. E depois, toca a catar e a meter no surrão aquela fortuna inesperada...

História que tem a sua origem nos bólidos, fenômeno que o olhar aparvalhado do matuto observa, muitas vezes, pelas noites claras daquela terra de várzeas e chapadões e de que gera a imaginativa a sua lenda, filha do cósmico deslumbramento e da  superstição primitiva.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos retirado do livro Tropas e Boiadas, Livraria e Editora Cultura Goiana, 6ª Edição, Goiânia, 1984.

Assim Será (120)

 "Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus." - Jesus. (LUCAS, 12:21)


Guardarás inúmeros títulos de posse sobre as utilidades terrestres, mas se não fores senhor de tua própria alma, todo o teu patrimônio não passará de simples introdução à loucura.

Multiplicará, em torno de teus pés, maravilhosos jardins da alegria juvenil, entretanto, se não adquirires o conhecimento superior para o roteiro de amanhã, a tua mocidade será a véspera ruidosa da verdadeira velhice.

Cobrirás com medalhas honoríficas o teu peito, aumentando a série dos admiradores que te aplaudem, mas, se a luz da reta consciência não te banhar o coração, assemelhar-te-ás a um cofre de trevas, enfeitado por fora e vazio por dentro.

Amontoarás riquezas e apetrechos de conforto para a tua casa terrena, imprimindo-lhe perfil dominante e revestindo-a de esplendores artísticos, contudo, se não possuíres na intimidade do lar a harmonia que sustenta a felicidade de viver, o teu domicílio será tão-somente um mausoléu adornado.

Empilharás moedas de ouro e prata, à sombra das quais falarás com autoridade e influência aos ouvidos do próximo, todavia, se os teus haveres não se dilatarem, em forma de socorro e trabalho, estímulo e educação, em favor dos semelhantes, serás apenas um viajor descuidado, no rumo de pavorosas desilusões.

Crescerás horizontalmente, conquistarás o poder e a fama, reverenciar-te-ão a presença física na Terra, mas, se não trouxeres contigo os valores do bem, ombrearás com os infelizes, em marcha imprevidente para as ruínas do desencanto.

Assim será "todo aquele que ajunta tesouros para sí, sem ser rico para com Deus".


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

01 agosto 2026

A Repartição dos Pães

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.

Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.

Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse. Junto do prato de cada mal convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos  eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido por nós quanto nós queríamos comê-los. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos.


Conto de Clarice Lispector retirado do livro A Legião Estrangeira, Rocco Editora, Rio de Janeiro, 2020.

Eia Agora (119)

 "Eia agora, vós que dizeis... Amanhã..." - (TIAGO, 4:13.)


Agora é o momento decisivo para fazer o bem.

Amanhã, provavelmente...

O amigo terá desaparecido.

A dificuldade estará maior.

A moléstia terá ficado mais grave.

A ferida, possivelmente, mostrar-se-á mais crescida de extensão.

O problema talvez surja mais complicado.

A oportunidade de ajudar não se fará repetida.

A boa semente plantada agora é uma garantia da produção valiosa no porvir.

A palavra útil, pronunciada sem detença, será sempre uma luz no quadro em que vives.

Se desejas ser desculpado de alguma falta, aproxima-te agora daqueles a quem feriste e revela o teu propósito de reajustamento.

Se te propões auxiliar o companheiro, ajuda-o  sem demora para que a bênção de teu concurso fraterno responda às necessidades de teu irmão, com a desejável eficiência.

Não durmas sobre a possibilidade de fazer o melhor.

Não te mantenhas na expectativa inoperante, quando podes contribuir em favor da alegria e da paz.

A dádiva tardia tem gosto de fel.

"Eia agora" - diz-nos o Evangelho, na palavra apostólica.

Adiar o bem que podemos realizar é desaproveitar o tempo e furtar do Senhor.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

28 julho 2026

Quem eram os deuses do Olimpo?

Na antiguidade grega, a religião e a mitologia eram constituídas por um casal supremo - Zeus e Hera - e outros doze deuses, que eram seus pares complementares. Havia duas maneiras de entendê-los:

A primeira, mais simples e concreta, era a chamada visão de Homero, que encontramos na Ilíada e na Odisseia. Nessa visão, os deuses só se diferenciavam dos homens por serem mais poderosos e imortais. Tinham, além da forma humana, paixões, rancores, ciúmes, preferências, enfim, todos os atributos humanos.

A segunda maneira de entendê-los é encontrada em Hesíodo, em suas obras A Teogonia e Os Trabalhos e os Dias. Nelas é mostrada uma concepção metafísica e abstrata dos deuses, algo próximo das religiões modernas. Eles não eram apenas poderosos e imortais, mas potências e manifestações cósmicas em busca de uma ordem que superasse o caos. Todos eram formas da criação e buscavam consolidá-la. Essa visão, mais profunda e exata, era a dos sacerdotes e iniciados. Ontem, como hoje, sempre existiram duas maneiras de ensinar a religião: uma, mais simples, destinada ao povo, e outra, mais profunda, destinada aos iniciados.

Infelizmente, apenas chegou até nós a visão mais simples, e esta, mesmo assim, foi banalizada. Na verdade, ambas estavam corretas. Os antigos sabiam que, por exemplo, seria muito difícil para uma criança ou um camponês entender que Zeus e Hera eram "as potências complementares da criação, sendo ele a força que se expande infinitamente, e que tudo o que toca se multiplica, enquanto ela é a potência fecunda, que busca consolidar tudo que é criado - como aliás convém ao arquétipo feminino, cujo atributo fundamental não é apenas dar a vida, mas dela cuidar para fortalecê-la".

Em linguagem mais simples (de Homero), isso era explicado de maneira muito mais fácil de entender: Zeus era a paixão que não se continha, e por isso era infiel a sua esposa, tendo inúmeras relações extraconjugais, das quais nasceram muitos deuses, semideuses e heróis. Já Hera morria de ciúmes dele e estava sempre tentando aniquilar as amantes (ou os amantes) de seu esposo e os filhos nascidos dessas uniões. No entanto, os que sobreviviam às suas perseguições ou eram aceitos por ela (é o caso de Hércules, a quem Hera deu sua filha por esposa quando ele se tornou imortal), ou eram metamorfoseados em forças cósmicas, ou ainda consagrados (é o caso de Dioniso ou Baco).

Dessa maneira, os antigos conseguiam ensinar às crianças e às pessoas mais simples a religião de um modo mais humano e apaixonante, usando uma linguagem mais acessível, que todos entendiam. A criação é constituída pelo amor e pela paixão, e nem sempre é possível contê-la ou mesmo prevê-la. Talvez seja isso o que tanto nos encanta na mitologia. Os deuses eram cheios de paixões que resultavam num constante renovar, sendo um exemplo a ser seguido pelos homens. A única possibilidade aqui na Terra é a criação, e ela não é possível sem paixão, pois está voltada à multiplicação da vida, e não à sua destruição. Na verdade, se tivessem tido a oportunidade de conhecer como ensinamos a religião na modernidade, os deuses iriam achar-se muito chatos e sem graça. Além disso, ficariam horrorizados se soubessem o quanto já matamos em nome de Deus. Vejam-se a Inquisição, as Cruzadas, a caça às bruxas, a Guerra Santa, etc. E não devemos confundir a perseguição de Roma aos cristãos com a tradição mitológica grega, uma vez que a religião romana era muito diferente da grega, embora alguns deuses tenham sido por ela adotados, mas exercendo funções totalmente diferentes e modificados para o uso do imperialismo guerreiro e conquistador próprio de Roma.

Vale notar ainda que, na antiga religião grega, encontramos deuses e deusas, ou seja, tanto o arquétipo masculino como o feminino são divinizados, algo que nunca mais aconteceu nas religiões modernas, sendo o feminino sumariamente suprimido delas. O mesmo se pode dizer com relação aos Messias, pois são todos masculinos (Moisés, Cristo, Maomé), e às funções eclesiásticas (papa, bispo, cardeal, padre, aiatolá, imã, rabino), que também foram vetadas às mulheres, sendo-lhes permitido no máximo retirar-se para um convento e... Ficar quietas! Myrcea Eliade, em sua obra História das Crenças e Religiões, notou muito apropriadamente que o monoteísmo das religiões modernas só foi possível com a supressão de um dos arquétipos, no caso o feminino, e que isso, longe de representar um avanço ou progresso em relação às chamadas religiões "pagãs", foi um retrocesso. O arquétipo feminino - e as mulheres, claro - foi simplesmente retirado das funções religiosas, sociais e políticas nas culturas ocidentais. O fato é que até hoje, com todos os avanços dos últimos cinquenta anos, ainda estamos muito longe de nos aproximar do papel de relevância do arquétipo feminino (e da mulher) que existiu na antiguidade, especialmente antes do século V a.C. - a partir daí deu-se a grande guinada para sua supressão. Só podemos lamentar que muitos estudos sérios sobre esse assunto caiam no erro de analisar o papel da mulher somente a partir dessa época e tirem suas conclusões (equivocadas) para toda a antiguidade helênica e egípcia. Para um estudo correto e profundo desse assunto, recomendo a obra fundamental de Werner Jaeger, Paideia: a formação do homem grego, da Editora Martins Fontes.

A classificação e a descrição das funções dos deuses a seguir foram baseadas e inspiradas nas obras de Homero, A Ilíada e A Odisseia; de Hesíodo, A Teogonia e os Dias, O Certame e O Escudo; e na obra capital de Apolodoro de Atenas, Biblioteca. Infelizmente, com exceção de A Ilíada, A Odisseia, A Teogonia e parte de Os Trabalhos e os Dias, não há traduções das outras obras para a nossa Língua, a não ser em Portugal.

Os antigos reuniam os deuses de acordo com suas funções, que apresentamos sinteticamente a seguir:

* Zeus: deus da criação e da expansão.

* Hera: deusa da fecundidade, da consolidação e do fortalecimento.

Zeus e Hera são o casal supremo, infinitamente mais poderosos que os demais, e são pares complementares. Homero lembra-nos de que a distância que os separa dos outros deuses é a mesma que separa os homens dos deuses.

* Apolo: deus da profecia, da luz, da beleza, da música, da poesia e das artes.

* Ártemis: deusa que honra e protege o sagrado na natureza. Os dois são irmãos gêmeos e pares complementares também.

* Atena: deusa da sabedoria, da justiça e da equidade.

* Afrodite: deusa do amor e da entrega (também conhecida pelos romanos como Vênus).

* Ares: deus do espírito de luta e dos combates. Foi desvalorizado em sua forma guerreira pelos gregos e supervalorizado nessa mesma forma pelos romanos, que eram um povo belicoso e conquistador. Era por eles conhecido como Marte. As divindades que têm o nome começado com a letra A (isto não é casual) eram chamados de "deuses da transcendência", porque cada um, a seu modo, ensinava aos homens as artes para se elevar espitualmente.

* Héfestos: deus das ferramentas e dos instrumentos.

* Héstia: deusa protetora do sagrado do lar e do interior de cada um. Era representada por um fogo sempre acesso no interior das casas e que não podia nunca se extinguir.

* Hermes: deus condutor das almas após a morte no caminho para voltarem a viver (todas as religiões antigas acreditavam na regeneração das almas em outro corpo - séculos mais tarde, o Espiritismo inspirou-se nessa ideia). Era, além disso, o condutor dos homens na Terra. As divindades que têm nome iniciado com a letra H (na verdade, é o E com som longo em grego - eta) eram chamadas de "divindades da permanência", porque ensinavam aos homens as artes para se viver na Terra. A deusa Hera as presidia. Também nesse caso, não é casual que os nomes comecem com a letra H.

* Deméter: deusa da fertilidade e das artes para se voltar a viver. Simboliza as estações do ano e a regeneração da natureza.

* Dionísio: deus do vinho, do êxtase e da alegria. É o deus que ensina a conviver com o outro, por excelência. No período romano, era conhecido como Baco e seus atributos foram completamente degenerados, sendo associados com orgias e bacanais, típicos da decadente Roma, em seus costumes e sua ética. Esses eram chamados de "deuses da imanência", porque ensinavam aos homens como adentrar o mistério do interior da Terra, em si mesmos e nos outros. Presidiam os famosos "Mistérios de Eleusias" (da libertação) e também não é casual que seus nomes comecem com a letra D - o conhecido delta em grego. Essas questões serão abordadas nos tópicos dedicados a cada um desses deuses.

* Posseidon: deus dos mares e das tarefas inadiáveis para se viver. Irmão mais velho de Zeus, era conhecido como "o deus das origens", porque tudo veio dos mares para os antigos e lá nada pode ser adiado ou postergado.

* Hades ou Plutão: também era irmão de Zeus. É o deus dos mortos e vingador dos falsos juramentos. Era conhecido como "deus do abissal", juntamente com sua esposa Perséfone, também chamada de "a juíza infernal". Juntos presidiam o julgamento dos mortos para avaliar se poderiam voltar a viver. O nome desse deus em grego não começa com a letra H, mas com A.


Texto de Viktor D. Salis retirado do livro Mitologia Viva - Aprendendo com os deuses a arte de viver e amar, Editora Nova Alexandria, São Paulo, 2003.

27 julho 2026

O dia que Urano entrou em Escorpião

Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela ou parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, ou mesmo Júpiter saindo de Aquário. Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estreias e sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo - difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento, lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma coisa nas sobras da galinha do meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali, ouvindo baixinho um velho Pink Floyd para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar de vez com aquele antro (eles não gostavam da palavra, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros e almofadas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa horrível) - renunciado ao sábado, pois, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume da vitrola e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, pois se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então, olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha, parado no meio da sala. E não disseram nada.

O que tinha saído da janela fez como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele pedacinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava querendo mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto uma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e os violinos ficava imaginado um guerreiro montado num cavalo branco, correndo contra o vento, tipo Távola Redonda assim, a silhueta dum castelo sobre uma colina ao fundo - e que o guerreiro era medieval, o castelo também, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros e um crepúsculo, talvez um quarto crescente, quem sabe um lago, quando a moça que estava com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que tinha erguido para a testa quando o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:

"Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida -, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura".                                         (Ernest Becker: A Negação da Morte)

Quando ela parou de ler de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela tinha voltado para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso vazio da perna de galinha. Disse que não gostava muito de perna, que preferia pescoço, e que isso era engraçado porque tinha passado por três fases: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram muitos irmãos e todos gostavam justamente de perna; depois, na adolescência, preferia o peito, tinha passado uns cinco anos comendo só peito - e agora adorava o pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo: disse de-lí-ci-as-o-cul-tas bem devagar, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar, enquanto ele olhava para o osso descarnado.

O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação, mais com o barulho, e pediram rispidamente para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, hoje, falou lentamente, os olhos brilhando. Ele estava lá há cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo ele-quem-estava-onde? Urano, o rapaz de camisa vermelha explicou, em Libra, na minha oitava casa, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? Pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Mas os outros entreolharam-se e a moça de óculos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um esquizofrênico que tinha começado bem assim, a curtir coisas como Alquimia, Astrologia, Quiromancia, Numerologia, que ela tinha lido não sei onde (ela lia muito e, quando contava uma história, nunca sabia ao certo onde tinha lido - às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou na Pinel, disse, é assim que começam muitos processos esquizoides. Olhou bem para ele ao dizer processos-esquizoides, os outros dois pareceram muito impressionados, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam muito culta, ou apenas porque queriam assustar o rapaz de camisa vermelha. Ficou um silêncio cheio de becos, até que um dos rapazes se moveu da janela para virar o disco. Quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, e quase contentes outra vez.

Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro com capa de couro e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não! olhando para o que estava na janela, que já não estava na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Ele parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:

"La position de cet astre secteur situe le lieu où l'être dégage au maximum son individualité dans une voie de surpersonnalisation, à la faveur d'un développement d'énergie ou d'une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu'une tension particulière d'enérgie. ici, l'être tend à affirmer une volonté lucide d'indenpendence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sá personalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l'insensibilité, à  la duraté, à l'excessif, à l'extrmisme, au jusqu'au-boutisme, à l'aventure, aux bouleversements..." *  (André Barbault: Astrologie)

Parou de ler e olhou para os outros três, devagar, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes falou que boulevard era rua, e que devia ser qualquer coisa que tivesse a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não tinha sido encontrado e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu:

" L'être tend affirmer une volonté lucide d'indenpendence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sá personalité."

Depois perguntou se os outros entendiam, e eles disseram que sim, que era parecidinho com Português. Mas não pareciam entender. Então os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, e parecia que ia começar a chorar, mas de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela, gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que não valia mais a pena, que não apostava um puto no futuro.

O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo e dizendo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, o outro falou que ia colocar aquele disco de música hindu que ele gostava tanto, embora ninguém mais gostasse, só que teve que botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, estava quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo ficou muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta. Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião. Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer. Então sonhou que deslizava suavemente numa superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se era um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.


Conto de Caio Fernando Abreu retirado do livro Morangos Mofados, Editora Brasiliense, Circo de Letras, São Paulo, 8ª Edição, 1997.


* "A posição deste astro indica o âmbito onde o indivíduo manifesta ao máximo sua individualidade em uma trajetória de superpersonalização, impulsionada por um desenvolvimento de energia ou um crescimento exacerbado — o qual representa menos uma abundância de força vital do que uma tensão energética específica. Aqui, o indivíduo tende a afirmar uma vontade lúcida de independência, capaz de conduzi-lo a uma expressão superior e original de sua personalidade. Em caso de dissonância, essa exigência conduz à insensibilidade, à dureza, ao excesso, ao extremismo, à intransigência, à aventura e a grandes rupturas..."

25 julho 2026

O Saci

Por aquele tempo O Saci andava desesperado. Tinham-lhe surrupiado a cabaça de mandinga. O moleque, extremamente irritado, vagueava pelos fundões de Goiás.

Pai Zé, saindo um dia à cata dumas raízes de mandioca castela que sinhá dona lhe pedira, topou com ele nos grotões da roça.

O preto, abandonando a enxada e de queixo caído, olhava pasmado o negrinho que lhe fazia caretas e trejeitos, a saltar no seu único pé, e fungando terrivelmente.

- Vancê quer alguma coisa? perguntou pai Zé admirado, vendo agora o moleque rodopiar como o pião do ioiô.

- Olha negro, respondeu o Saci, vancê gosta de Sá Quirina, aquela mulata de sustância; pois eu lhe dou a mandinga com que ela há de ficar enrabichada, se vancê me arranjá a cabaça que perdi.

Pai Zé, louco de contentamento, prometeu. A cabaça, ele sabia-o, fora amoitada pelo Benedito Galego, um caboclo sacudido que, cansado das malandrices do moleque, a tinha roubado das grimpas do jatobá grande, lá nas roças do ribeirão.

Pai Zé fora um dos que o tinham aconselhado, para obstar que o Saci, como era o seu costume quando incomodado, tornasse a levantar as árvores da derrubada que o Benedito fizera nessas terras.

Arrastando as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, pai Zé capengava satisfeito e inchado com a promessa do Saci.

Desde Santo Antônio que ele rondava Sá Quirina, procurando sempre ocasião de lhe mostrar que, apesar dos seus sessenta e cinco anos e meio, um olho de menos e falta de dente na boca, não era negro pra se desprezar assim por um canto não - que sustância ainda ele tinha no peito para aguentar com a mulata e mais a trouxa de Sá Quitéria, sua mulher, se ele tinha!

Mas a cafuza era dura da gente convencer. Toda a eloquência que ele penosamente engendrara em seu bestunto de africano e que lhe tinha despejado pela festa de S. Pedro, não teve outro resultado senão a fuga da roxa quando o encontrava.

- Mas agora, gaguejava o preto, eu lhe mostro, que o Saci é mesmo bicho bom pra deitar um feitiço.

Com a rica dádiva dum quartilho de cachaça e meia mão do seu fumo pixuá, pai Zé alcançou do Galego a cabaça desejada.

Sá Quitéria, porém, não via com bons olhos o afã de seu velho pela posse da milonga. E ela também sabia deitar e tirar quebranto, se sabia! - Perguntassem à bruxa da Nhá Benta, que desde vésperas de Reis estava entrevada na trempe do jirau; e não era o zarolho e cambaio do seu homem que a enganasse.

Por isso, a velha ciumenta estava de tocaia, desejosa por saber do seu intento. Lá ia pai Zé, arrastando novamente as alpercatas de couro cru pelas terras de Sô Feitor, à entrevista do Saci. Atrás dele, sorrateira, lá ia também Sá Quitéria.

O negro chegou aos grotões e chamou pelo Saci, que de pronto apareceu.

- Toma lá a sua cabaça de mandinga, seu Saci, e dá-me cá o feitiço pra Sá Quirina.

O moleque desbarretou-se, tirou uma pitada grossa da cumbuca, fungou, e, entregando o resto a pai Zé, disse:

- Dá-lhe a cheirar esta pitada, que a crioula é sua escrava.

E desapareceu, fungando, pulando no seu único pé, nos grotões e covoadas da roça.

- Ah, negro velho dos infernos, que conheci a tua tramoia, gritou Sá Quitéria furiosa, saindo do bamburral e segurando-o pelo papo.

E, na luta do casal, lá se foi o feitiço que o pobre pai Zé adquirira com o sacrifício dum quartilho de cachaça e a meia mão do seu bom fumo pixuá.

Desde então, nunca mais houve paz no casal, que se devorava às pancadas; e pai Zé arrenegava sem descanso o maldito que introduzira a discórdia no seu rancho.

- Porque, Ioiô, concluiu o preto velho que me contava esta história - a todo aquele que viu e falou com o Saci, acontece sempre uma desgraça.


Conto de Hugo de Carvalho Ramos publicado no livro Tropas e Boiadas, Rio de Janeiro, Revista dos Tribunais, 1917; retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos anos Dez aos Sessenta, organização de Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, Goiânia. CEGRAF/UFG, 1993.

Em Nossas Tarefas (118)

 "... não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes." - Paulo. (ROMANOS, 12:16.)


"Não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes" - recomenda o apóstolo, sensatamente.

Muitos aprendizes do Evangelho almejam as grandes realizações de um dia para outro...

A coroa da santidade...

O poder da cura...

A glória do conhecimento superior...

As edificações de grande alcance...

Entretanto, aspirar só por si não basta à realização.

Tudo, nos círculos da Natureza, obedece ao espírito de sequência.

A árvore vitoriosa na colheita passou pela condição do arbusto frágil.

A catarata que move poderosas turbinas é um conjunto de fios d'água no nascedouro.

Imponente é o projeto para a construção de uma casa nobre, no entanto, é indispensável o serviço da picareta e da pá, do tijolo e da pedra, para que a arte e o reconforto se exprimam.

Abracemos os deveres humildes com devoção ao nosso ideal de progresso e triunfo.

Por mais árdua e mais simples a nossa obrigação, atendemo-la com amor.

A palavra de Paulo é sábia e justa, porque, escalando com firmeza as faixas interiores do monte com facilidade lhe conquistamos o cimo e, aceitando de boa-vontade as tarefas pequeninas, as grandes tarefas virão espontaneamente ao nosso encontro.


Texto retirado do livro Fonte Viva; Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel, FEB, Brasília, 1987.

24 julho 2026

Nego Rei

Desencostando-se do tanque, Benedita atirou uma olhada para o marido deitado na cama. Avistou-o dos pés a cintura, pijama sungado nas pernas entrelaçadas. Resmungou com azedume:

- Esbranquicento de uma figa!

Enxugou o suor na testa, voltando a esfregar a roupa pensando:

"Para pegar um lugar de onde pudesse ver Nego Rei de perto, teria que correr com o serviço. Era estender a roupa no arame, lavar os trens de cozinha, tomar banho, aprontar a Neuza... Muita coisa por fazer ainda! Seria melhor arriscar um pedido de auxílio."

Galgou o degrau da porta para poder avistar o rosto do seu homem e falou decidida:

- Você bem podia dá uma dimãozinha... Receio chegar lá atrasada.

Como de costume, a resposta veio negativa:

- Sou lá mulher pra andar fazendo serviço de casa?! Deixa tudo aí, na volta você arruma.

Benedita suspirou:

"Com esse não precisava contar pra coisa nenhuma! Só pra fazer filho... O jeito era mesmo correr com o serviço. Pensando bem, as vasilhas poderiam ser lavadas quando voltasse. Era amontoar num canto da pia. A roupa é que precisava ir para o arame. Logo mais, deveriam estar também passadas. A entrega ao freguês seria logo no outro dia e cedinho."

Neusa veio interromper o pensamento de Benedita. Rodou sobre os calcanhares, exibindo o vestido branco engomado, cheio de babadinhos:

- Tá bonito?!

A mãe surpreendeu-se:

- Se vestiu sozinha?!

- Num instantinho!

A alegria deixava o branco dos olhos da menina mais branco e as pupilas pretas lançando chispas. A mulher contemplou a filha com gosto:

"Era um encanto o diabo da bichinha! Foi preciso nascer e crescer aquela coisinha encardida pra ela ir tomando amor na sua raça."

Sorriu ao responder:

- Está uma beleza! Agora senta lá na sala e vai alisando o pincha.

A pequena fazendo beiço estrilou:

- Pincha não, mãe, cabelo! Sentar eu não vou não! Amassa o vestido.

- Então alisa em pé mesmo.

A garota saiu e logo voltou para junto da mãe. Ela ralhou:

- Falei pra você ir pentear lá na salinha...

- Quero ficar junto da senhora.

O pente escorrendo pela carapinha ia chiando. Benedita encheu-se de ojeriza:

"Perder a vergonha antes de casar pra poder agarrar aquele esbranquicento duma figa por desejar ter filhos branquinhos e eles todos evinham saindo escuros. Raça danada de forte essa sua!"

Sentiu pena da menina. A mão miúda não conseguia ajeitar aquele monte de coisa. Tomou o pente e fez o arranjo ordenado:

- Agora vai me esperar lá na salinha. E já nóis vamos descendo.

Acabou de estender a roupa, amontoou as vasilhas e, depois de banhar-se, foi para o quarto envolta em uma toalha. Remexeu na gaveta da cômoda procurando um porta-seios. Contemplando-se no espelho, mudou de intenção.

"Pra quê usar essa bobagem? Seus peitos eram firmes como os de uma mocinha. Ninguém diria que haviam amamentado meia dúzia de filhos".

Contemplou o resto do corpo com alegria:

"Uma beleza!"

Pelo espelho deu com os olhos do marido em cima dela, incendiado de desejo, braços estendidos num convite. Cobriu-se ralhando de testa franzida:

- Que coisa é essa?! Não vê que lá vou saindo quase de corrida?!

Vestiu-se, pensando com ironia:

"Esbranquicento duma figa! Só presta mesmo é pra isso."

Antes de deixar o quarto, recomendou:

- Vigia os meninos que a Neusinha vai comigo.

Ainda inflamado, esfregando os pés um no outro, o marido respondeu com azedume:

- Pra quê levar a menina? Ela não entende disso...

No espelhinho da sala voltou a mirar-se para acabar de ajeitar o cabelo. João com aqueles olhos por cima dela, tirava-lhe o jeito.

"Pra quê levar a menina? Ora! Então o dinheiro quem ganhava não era ela? Foi preciso sofrer bastante para ir aprendendo muito da vida. Pra quê levar a Neusinha! Pra ir ensinando a ela que neste mundo não é só branco que é gente! Nego não era Rei? Rei de futebol mas era! O mundo inteiro não vivia encantado com ele? Nego bonito, cheio de força, ágil como um gato! Neusinha precisava ver esse Nego de perto pra ir aprendendo a dar valor na sua raça."

Na pressa de caminhar, ia arrastando a menina. Atolando o sapato branco na poeira, encheu-se de ojeriza:

"Não pudera tomar condução, porque o dinheiro mal chegou para as entradas. Casar com branco e depois ser cachorro dele? Trabalhar como burro pra sustentar casa, filhos, marido?! Qual! Antes tivesse casado mesmo com um escurinho. Com Neusa tinha que ser diferente. Teria que casar era com um da sua raça."

Agora quase corria. A menina reclamou, ela não prestou sentido. Ao passarem junto da construção que ia sendo erguida na praça, alguém gritou...

- Vai descendo pra ir ver o Rei, Benedita?

Olhou para cima. Esgarranchado no andaime, Sebastião acenou-lhe. Os dentes brancos brilhando no negrume da cara.

"Graças a Deus ela tinha bons dentes e também a Neusinha".

Sorriu ao responder:

- Vou. Você não vai?

- Estou dando mais umas marteladas e já eu desço.

- Então até logo.

- Até.

"Nego bom era esse! Escuro como tição mas um orgulho da raça. Não fosse por amor aos filhos, vergonha da Neusinha, estaria era vivendo com ele. Aquele esbranquicento bem que merecia". Benedita suspirou comprido. A filha forçou-a a prestar atenção no que lhe dizia:

- Que quer dizer Rei, mãe?

- Rei... Rei... - Embaraçou-se por não saber explicar. Neusa ajudou:

- Rei é uma coisa ou uma gente melhor que todo mundo?

- Isso mesmo. Sorriu ao pensar: "Essa menina faz cada pergunta!"

- Esse Rei que nóis vamo vê é Rei de jogá bola?

- É.

- Então ele joga bola mais bem que todo mundo?!

- Isso mesmo.

- E ele é preto, mãe?

- É.

- Que nem a gente?

- É.

A pequena caminhou um pouco em silêncio e então perguntou:

- Preto é gente, mãe?

Benedita zangou-se e respondeu com aspereza:

- Claro que é, burra!

O adjetivo magoou a menina. Sua voz veio sentida:

Mas preto é gente feia...

A mãe deu com força um tapa na filha:

- Preto não é feio coisa nenhuma, ouviu?! Tem muito branco que é mais feio que a gente. O preto que nóis vamo vê é um preto forte, liso, bonito! Você também é uma negrinha alinhada!

Procurando conter o pranto, Neusa foi dizendo de maneira ritmada:

- A Maria falou que nego nunca foi gente! Que lá na nossa casa, só o pai é que vale uma coisinha...

Benedita explodiu:

- Aquela Maria é uma burra! Uma cretina! Qualquer dia desses, quero lhe partir o focinho! - Benedita fechou a mão em ameaça e sacudiu o braço da filha: - Não quero mais vê você falando com ela, tá entendendo?

Notando o braço da menina todo ralado, quase sangrento, passou da ira à preocupação indagando aflita:

- Você caiu?!

A pequena sacudiu a cabeça em negativa:

- Então o que qui foi isso?!

Neusa não deu resposta. A mãe engrossou a fala:

- Diz o que qui foi senão apanha aqui mesmo!

A pequena respondeu baixinho, como se estivesse cansada:

- Esfreguei com um caco de telha...

- Está ficando louca?! - Benedita sacudiu a menina e erguei a mão em ameaça: Fala ou apanha...

Procurando sufocar os soluços, Neusinha respondeu:

- Queria ver se raspando, a pele da gente ficava branquinha...

A pequena agora chorava. Benedita suspirou comprido, pensando:

"Qual! Nego traz essa bobagem é no sangue! Só Deus, assim mesmo com muito jeito, talvez conseguisse consertar essa estultice".


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro Nego Rei. Goiânia, Livraria Brasil Central Editora, 1966.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.

O que viveu sem nascer

Naquele dia o casal desceu a escadaria, com exagerada cautela. Seu Manuel segurava firme o braço de D. Maria. Os olhos de ambos irradiavam completa felicidade. Riam à toa. Seu Manuel falou:

- Hoje mesmo ajustei uma criada.

- Não há necessidade, meu velho. Preciso fazer exercício. Não foi o que o médico recomendou?

- Sim, sim, mas não dessa natureza. Nada de excesso. Nos levantaremos cedo e faremos longas caminhadas, repetindo-as às tardes. Quero que nosso filho seja forte e bonito. Estes anos de ansiosa expectativa me bastaram. Agora que ele nos chega, é preciso ter todo cuidado.

Pobre seu Manuel! Parece que estava a adivinhar...

Lá foram os dois rumo a casa, abraçadinhos, achando o sol mais lindo que de costume, verdes, muito mais verdes as matas, a água do lago mais azulínea, as flores mais belas e mais perfumadas, os passarinhos mais cantadores e ligeiros que nunca.

D. Maria passou a ser tratada como criança mimada. Os menores desejos lhe eram satisfeitos.

Ia pelo sétimo mês de gravidez quando, apesar da criada, apesar dos cuidados excessivos de seu Manuel, apesar de caminhar cauteloso, D. Maria caiu. Caiu e que tombo... Ficou desacordada meia hora, e, três dias depois, adeus pimpolho tão desejado! Era uma vez um Joaquinzinho... Esse seria o nome dado à criança, em homenagem ao avô paterno.

O casal ficou desolado e sua tristeza atingiu o auge quando o médico afirmou que D. Maria jamais seria mãe.

Choraram desesperados, um abraçado ao outro. Os dias foram passando e como acontece sempre, os dois acabaram se consolando. D. Maria começou a dizer:

- Pela lua, hoje nosso filhinho viria ao mundo.

- Justo, justo. Como seria belo e fortinho. Que pena!

E seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Uma semana mais tarde, D. Maria falou:

- Hoje Joaquinzinho completaria oito dias.

Seu Manuel respondeu:

- Justo, justo. Já estaria começando a ficar clarinho. Como seria lindo e perfeito.

Assim continuaram.

Joaquinzinho fez um, dois, três meses. Veio o primeiro dentinho, o segundo... Fez um ano, dois, três... Sofreu sarampo, catapora, coqueluche e todas as espécies de doenças infantis...


Quando Joaquinzinho estava com cinco anos de idade, grassou crupe na cidade. Seu Manuel, alarmado, falou para D. Maria:

- Minha velha, arrume as malas. Vamos passar uns dias fora, até passar a epidemia. Era o que faríamos se Joaquinzinho vivesse.

E foram. Joaquinzinho cresceu. Estudou. Nos exames foi sempre o primeiro. Formou-se. Fez o Serviço Militar, saindo com uma caderneta invejável.

Quando o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, lá foi Joaquinzinho defender a Pátria. Ouvindo pelo rádio as mensagens que os pracinhas enviavam aos seus, D. Maria e seu Manuel choravam, fazendo pena a quem os visse.

D. Maria tricotava incansavelmente pulôveres, cachecóis, meias, despachando-os pelo Correio. Um dia o agente perguntou-lhe:

- Seu filho guerreia no estrangeiro, madame? D. Maria, embaraçando-se, respondeu:

- Sim e não.

O agente quis perguntar o sentido de tão estranha resposta, mas ela não lhe deu tempo, saindo apressada.


Quando terminou a guerra, em casa de D. Maria festejou-se o acontecido durante uma semana, bebendo-se vinho à vontade.

Joaquinzinho lutara como um bravo.

Ao aportar no Rio de Janeiro o primeiro navio, trazendo de volta os combatentes, o casal lá estava, esperando pelo filho. Chorava abraçados, comovendo até as pedras. Uma senhora indagou:

- Seu filho chega agora, madame?

Olhando enleada para seu Manuel, D. Maria falou:

- Se nosso Joaquinzinho vivesse, como herói, seria o último a chegar, não é, meu velho?

- Justo, justo. E como viria garboso com as medalhas no peito! Santo Deus! Seu Manuel suspirou fundo, tornando-se pensativo.

Permaneceram no Rio, até que o último navio proveniente da Europa atracasse, depois retornaram para casa, satisfeitíssimos.

Hoje Joaquinzinho está casado. Moram todos juntos. Sua esposa é boníssima. Combina muito com a sogra... Espera já o terceiro filhinho...


Conto de Ada Ciocci Curado publicado no livro O Sonho do Pracinha e Outros Contos. São Paulo, Revista do Tribunais, 1954.  Retirado do livro Antologia do Conto Goiano I - Dos Anos Dez aos Sessenta, Organizado por Darcy França Denófrio e Vera Maria Tietzmann Silva, 2ª Edição, CEGRAF/UFG, Goiânia, 1993.